sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O CHORO DA FOME


Era uma cidadezinha abandonada, esquecida por todos e, inclusive fora do mapa geográfico. Nela não havia praças, jardins, comércio, etc. É claro que havia casas, porém, todas abandonadas.
Um dia, um andarilho de tanto andar chegou nesta cidade sem nome e estava com uma fome da peste, daquelas de fazer calos na boca do estômago. Ele tinha um saco de moedas nas mãos e tudo o que queria era matar a sua fome antes que ela o matasse. Circulou feito um louco subindo e descendo ruas e nada de encontrar um mercadinho ou um misero botequinho para ao menos comprar um ovo cozido ou em conserva. Bateu palmas nas casas pra pedir informação de que lugar maldito era aquele e nada. Não havia sequer uma alma vivente para atendê-lo. Ficou desesperado. Que diabo de lugar era aquele?! O sol de quarenta graus queimava até seu escroto e ele não estava nu não. Nem uma árvore para lhe dar sombras havia. Danou-se tudo.
Aquele andarilho pensou em voltar pelo mesmo lugar de onde veio, porém, se perdeu. Ele não lembrava que caminho fez para ter chegado ali. E agora? Morrendo de fome e sede lascou-se. O que mais se via naquela cidadezinha de ninguém era mato. Ele ficou com ódio do verde. Se pelo menos tivesse ali umas azeitonas estaria bom demais. Estava com tanta fome que via vultos a sua volta. Via porquinhos brincando e pensava logo numa porção de torresmos, bistequinhas ou linguicinhas. Eta fome da porca miséria! Andou léguas e mais léguas e não via gente não.
 Ficou surpreso quando ouviu um choro esquisito que mais parecia berros. Pensou animado: “Onde tem choro tem gente, ochente!” Bateu palmas avivadas:
- O de casa!
Não teve outro jeito: ninguém veio lhe atender porque naquela casa também não havia ninguém. O que ele fez? Invadiu aquela casa feito o sol desvirginando a madrugada e encontrou apenas um cabritinho amarrado berrando.
- Que coisa é essa agora?! Um cabritinho magrinho amarrado?! O bichinho está até verde de fome.
E o andarilho desamarrou aquele cabrito e o levou para o pasto. O que não faltava naquele lugar era mato. O cabritinho realmente estava com muita fome. O andarilho ficou observando aquele animalzinho comer capim e pensou: “E agora, Jeová Giré, meu Deus! Como mato a minha fome?”.
O cabritinho se fartou de tanto comer que veio até dar umas lambidas no andarilho como forma de agradecimento, talvez.
- Sai pra lá, fio da peste!
Com muita fome e muita sede o andarilho deixou pra traz aquele cabrito e continuou andando na esperança de encontrar pelo menos um ovo cru ou cozido, o que era mais difícil. Veio à noite e ele ficou mais apavorado:
- Que frio, fome e sede da peste! E agora?!
Deitou-se no mato e resmungou:
- Quem sabe uma cobra me engole e dentro dela eu coma suas tripas.
E ele dormiu chupando seus dedos. Sonhou que dentava um filé e acordou gritando porque quase lhe vai um dos seus dedos. Falou com Deus:
- O que é isso Jeová dos Giros?! Será que eu morri e não to sabendo? Tire-me desse lugar aqui, seu menino!
Andou léguas e mais léguas e nada. Aquele lugar fora esquecido até pelo diabo. Dobrou seus joelhos e novamente falou com Deus:
- Meu Deus, assim como eu matei a fome daquele cabrito atendei ao meu pedido: que seja frito, assado ou cozido, mate a fome deste andarilho, teu filho.
Desta vez, Deus não tardou não. Quem apareceu por ali a sua frente e lhe lambendo foi aquele cabrito. E o andarilho fraco das ideias porque estava muito fraco conversou com aquele cabrito:
- Está feliz, não é?! É claro: está com a barriga cheia. E eu?! Está achando que eu vou comer mato como tu, pobre diabo?!
Deixou o cabrito pra trás e andou léguas e mais léguas. Chorou muito que até desistiu de chorar. Opa! Parece que seu problema estava resolvido. Encontrou uma churrasqueira, um litro de álcool quase cheio, uma caixa de fósforos e até um saco. Pensou: “É carne”. Que nada! Tinha panelas de todos os tipos, frigideiras, talheres, etc. Ficou revoltado:
- Vou fritar, assar ou coser o que?!
E falou novamente com Deus e, desta vez intimando-o:
- Vai me enviar ou não um rango? Tem que ter muita fé pra lidar contigo, hein Giré!
Novamente, quem aparece por ali? O cabritinho lhe lambendo.
- Mas que diabo de cabrito! O que é que te prende a mim, Exu mirim?
E ele meditou, meditou com uma faca em mãos e disse para aquele cabrito:
- Bom, estamos sós aqui neste maldito lugar e, não tem outro jeito...
De repente, surge de uma das moitas da grande mata duas onças famintas: mãe e filha e atacam o andarilho e aquele cabrito. Mas elas devoraram aqueles dois! Que fim cruel teve aquele andarilho! Pelo menos, uma coisa é certa: o cabrito não morreu de fome.


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O VELHO E A JOVEM



Patrícia era uma moça muito linda, educada e simpática. Filhinha de papai, querida por todos. Universitária, inteligente que só a peste. Cursava administração de empresas e já estava para se formar. Seus pais, parentes e amigos se orgulhavam dela.

A jovem lourinha dos olhos tão verdes quanto às matas do Amazonas tinha apenas 23 anos. A rapaziada fazia fila quilometrada para pedi-la em namoro, porém ela, simpática que só a peste sorria para cada um deles e dizia:

“Já sou comprometida. Esqueça-me”.

Epa! Epa! Quem seria seu namorado misterioso? Alguns imaginavam e diziam: “É um lord. É um príncipe. É o dono das casas Bahia, etc.”.

Patrícia era cobiçada até pelos anjos do céu de tão linda que era. Só que a gata não era exibida não. Quando ela percebia que a festa estava se animando demais se retirava deixando simplesmente seu perfume pelo ar. E ela era cheirosa que só a peste. Se a moleca soltasse um peido já vinha uns quatro querendo encubá-lo.
No dia de sua formatura até o Papa esteve lá. Michael Jackson, John Lennon, Cazuza também estiveram, porém, em espírito. Para surpresa de todos ela aparece abraçada com um velho tão feio feito o capeta do inferno. O velho era desengonçado, barrigudo e tinha um bundão que arrepiava até a galera do funk. A figura tinha dentes estragados e podres na boca.


Pais, parentes e amigos da jovem Paty ficaram chocados com a tal cena: “Quem é este velho? Será que essa imundície é o dono das Casas Bahia ou será que é  o desastre da nossa família?” E os comentários eram muitos. Paty pega um microfone e fala em voz suave para todos os presentes:

- Gente! Esse é o homem da minha vida! Para ele dou ei de dar e darei tudo de mim. Ele não é rico não, mas, conseguiu comprar o meu coração.

O povo ficou tão indignado que promoveu naquela festa de formatura uma guerra sem frescura. Voavam garrafas de cervejas, champanhes, copos e taças num único objetivo: acertar o alvo e o alvo era o velho. Queriam exterminar aquela imundície da festa e, principalmente da vida de Paty. E os comentários eram muitos: “O que é que a droga não faz?! Será que Paty se perdeu nas drogas? Que nada! O velho é o dono das Casas Bahia”.

Naquele tumulto de voação de copos, taças e garrafas o velho e Paty sumiram daquela festa. Foram mais ligeiros do que um peido soltado junto de um espirro. Ninguém escuta o peido, pode apostar.

Os pais de Patrícia se enfartaram juntos, na mesma hora. Não se sabe como é que eles fizeram isso. Freud explica? Não sei.

Onde é que aquele trapo se escondeu com a jovem encantadora Patrícia? A polícia foi acionada e a procura foi grande: ruas, avenidas, bares e em todos os lugares e nada. Sumiram feito fumaça. Os amigos de Paty contrataram um detetive inglês e o homem era bom: achava até areia no deserto e o desaparecido Roberto. Depois de um mês de sérias investigações o detetive matou a charada: foi tão simples como matar uma barata. Reuniram parentes e amigos da jovem Paty e disse-lhes:

- O velho e a jovem estão morando aqui mesmo na vila. Eu diria mais do que isso: estão morando naquela humilde casinha de sapé ao lado daquela mansão.

Peraí! Ele apontou para a mansão dos falecidos pais de Paty. Ao lado dela realmente tinha uma casinha de sapé e, para surpresa de todos o velho e a jovem Paty estavam lá mesmo. Invadiram aquela humilde casinha pela madrugada e pegaram o velho de pijama. Deram-lhe uma surra da peste e capturaram Paty levando-a para a mansão. Não adiantou nada. Foi só amanhecer o dia e a jovem apaixonada volta para os braços do velho que, mesmo com dentes podres na boca tinha um sorriso bonito.

O povo se revoltou de vez e a ordem agora era matar o velho. Foram até a casinha de sapé três capoeiristas e lhe deram outra surra e nada do velho morrer. Chamaram o Paulo ´Paulada e nada; até o Cipó foi chamado e nada do velho morrer. Foi quando gritou desesperado o tio de Paty:

- Chamem o Rambo.

Outro tio dizia:

- Mas Silvester está longe.

Pois é: nem mesmo o Rambo conseguiu derrubar aquele velho que, quanto mais apanhava mais sorria. As forças armadas do Paraguai também fora chamada, mas nada. A jovem Paty rasgou o seu diploma na frente de todos e disse emocionada:

- Não preciso desta porcaria se tenho ao meu lado o homem da minha vida, o pai da minha alegria. Com ele passarei a minha eternidade.

E os parentes e amigos de Paty choravam muito. O que teria acontecido com aquela jovem tão inteligente e tão linda Giré, meu Deus?
 Aquele velho desdentado parecia a encarnação do demo, o perfume exuberante da carniça, o Black Sabbath da missa, o desespero do bezerro indo para o matadouro pra virar salsicha, o sanduíche do pobre: pão sem lingüiça.
Tentativas de matar aquele velho foram muitas. Fazer o que? O velho era mais sadio do que um nenê peidão. A praga não morria não.
Para surpresa de todos, numa manhã de natal dois corpos foram encontrados num matagal: o diabo do velho e da jovem Patrícia. Estavam abraçados e afirmam até hoje que estavam dormindo um sono tão profundo que jamais acordariam neste mundo. E, os comentários eram muitos: “Quem era aquele velho? Aquele velho era quem? Afinal, quem era aquele velho?”.
Sábios do mundo todo afirmam que aquele velho era Deus, porque só ele pode todas as coisas. Como o dono do mundo tem manhas e artimanhas, se materializou num velho e conquistou a jovem Paty que abandonou tudo e todos e escolheu aquele velho para passar ao seu lado toda a eternidade. Sem dúvida, aquele velho não era fraco não.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O DONO DO MUNDO



Há certas coisas no mundo que é melhor nem falar muito, viu sô? Existe de tudo e, isso surpreende até os pernilongos que detestam luzes acesas e não voam tão alto como os urubus.
Dólar Euro Real surgiu, (sabe-se lá de onde), na grande capital de São Paulo, na companhia de seu único filhinho Dólarinho, um pentelho tão chato quanto aquele parasita do escroto.
- Papai, compra aquele prédio pra mim?
- O que é que você vai fazer com aquele predinho de cinquenta andares, meu filho?
- Brincar com meus amiguinhos.
E Dólar Euro Real, localiza o dono daquele prédio e é direto:
- Quero comprar o seu prédio.
Pereira, o dono do prédio diz arrogante:
- Meu prédio não está à venda.
- Não importa. Mesmo assim, eu quero comprar.
- Ah é? São dois milhões de dólares. Vai querer?
Dólar Euro Real sorri.
- Falou com o homem certo. Pagarei quatro milhões de dólares por ele, porém, desapareça para sempre da minha vida, pois, até teu caixão eu já comprei.
Vixi! Não é que aquele sujeito comprou o prédio de Pereira, mesmo, sô? Ficou lá, abandonado.
Dólar Euro Real e seu filhinho entram num restaurante finíssimo e se fartam de tanto comer. Arrotam e peidam, até que, chega um dos garçons.
- Senhor, por gentileza, não pode arrotar e peidar aqui.
Dólar Euro Real diz, arrogante.
- Despedido, geleia de ventre. Eu comprei esse restaurante, portanto, ele é meu.
Vixi! Cadê a Nice? Dólar Euro Real tinha comprado mesmo aquele restaurante, sô!
Dólar Euro Real e seu filhinho passeavam por um parque da grande São Paulo, quando, de repente, o pentelhinho o surpreende:
- Papai, compra aquele molequinho pra mim?
- Que diabos você vai fazer com um molequinho tão feio daquele, meu filho?
- Eu quero enche-lo de porrada, porque não fui com a cara dele.
- Tudo bem. Vou falar com o pai dele.
E o pai daquele molequinho fica muito zangado, é claro:
- O senhor está louco? Jamais venderei meu filho! Isso é pecado.
- Pecado é o senhor recusar cem milhões de dólares pra ficar com esse grude na vida.
O pai daquele molequinho arregala os olhos.
- Cem milhões de dólares?!
- É pegar ou largar.
- Eu pego.
E por cem milhões de dólares, aquele pai desnaturado vende seu filho. Numa das mansões de Dólar Euro Real, aquele molequinho apanhou tanto do pentelhinho, sô! Deu até pena, viu? Depois, o pentelhinho enjoou dele e deu-lhe um pontapé do traseiro, mandando-o embora.
O hobby de Dólar Euro Real era comprar tudo: até mesmo o que não era interessante ele comprava. Comprou até as meias usadas que nunca foram lavadas do falecido mega star Michael Jackson; o cuecão de Elvis; a receita e o bolo prestígio de Lúcia; o Diário do Nenê, relíquia que era guardada a sete chaves por Wilma, enfim, o homem comprava tudo. Era amanhecer o dia e ele e seu filhinho saía pela cidade à procura de vendedores, que ficavam felicíssimos, é claro.
Certo dia, o trilionário Dólar Euro Real e seu filhinho Dólarinho foram fazer um passeio no sertão do Piauí. Vixi! O pentelhinho não gostou daquele lugar não, sô!
- Papai, que fedor nos ares é esse? Parece até que cagaram no mundo.
- É o cheiro da pobreza, meu filho. Comprarei todo este sertão e bilhões de barris d’água e vou fazer chover aqui feito o dilúvio que afogou o boi que só pensava em vaca. Vou dar um banho nesses flagelados e limpar toda esta carniça. Farei este sertão virar mar. Você vai ver o que é que o meu dinheiro não é capaz de fazer.
E Dólar Euro Real comprou aquele sertão do governador do Piauí, que por sinal, ficou muito feliz. E bem no centro daquele sertão, Dólar Euro Real mandou construir um piscinão de cinco mil metros e mandou encher de água. Vinham barris d’água até da Coréia, Japão e China. Tinha água pra beber, pra bebê, velho, negro, ruivo e louro; pra lavar os pés, as bolas do saco e, isso deixou a sertanejada muito feliz, é claro.
Dólar Euro Real mandou plantar árvores artificiais pra darem sombra pros coitados. O sol desistiu de bater lá porque a sertanejada já não mais chorava. Agora era só alegria. O sertão foi batizado com o nome de: “O Paraíso das Sombras”.
Sucedeu que, um dia, Dólarinho ficou muito doente. Comeu um casal de grilos vivos e bagunçou tudo por dentro da barriga do moleque. E ele pulava, gemia e peidava e, seu pai muito preocupado o levou para o melhor médico do mundo, tal de Dr. Pereba. Nada feito. Dólarinho contraíra uma doença incurável. O pai do moleque não queria aceitar.  Comprou o maior hospital do mundo: o Baragwanath, em Soweto, África do Sul e contratou médicos do mundo inteiro, porém, não teve jeito não, sô! Seu filhinho morreu no colo do pai.
Dólar Euro Real ficou tão desgostoso da vida que pegou todo o seu dinheiro e deu pras avestruzes brincarem. Elas comeram tudo. Mas, Dólar Euro Real ainda tinha impérios, castelos e também o cuecão de Elvis. Ele deixou tudo aí pra quem quiser. É pegar ou largar. Quer pegar? Sem seu único filhinho ele não conseguiria viver. Subiu no pico da torre Eiffel de Paris e pulou com destino a morte. Coitado, sô! Pena que o dinheiro não compra a vida, não é?






DR. BOA, QUEM É?


Aquele que respeita a vida; um homem apaixonado por este gigantesco e fabuloso universo; pelo meu e seu Criador que é Deus, o autor da vida. Nunca foi a minha intenção agradar a todos, porque, mesmo que eu quisesse, jamais iria conseguir. Nem mesmo o Filho do Homem, (que morreu de braços abertos) conseguiu fazer isso. Lamentavelmente, nosso planeta terra, desde o princípio de sua criação, sempre existiu gente de má índole, aquela que, por alguma razão que eu desconheço vive por aí, ocupando o espaço, em troca de nada que seja prático e objetivo; gente destrutiva que não é digna de receber como recompensa divina do Criador, uma vida eterna. Eu amo aquilo que é puro. Escondo-me daquilo que é sujo. Nada para mim supera ou pode ser mais lindo e vivificante para o espírito do que uma criança. A natureza está se acabando, graças ao homem. Religiões, seitas e heresias estão tomando conta das mentes humanas poluindo-as cada vez mais para o abismo. Nunca me prendi as doutrinas porque todas elas provém de homens e, se fossem verdadeiras suas teorias não estaríamos aqui há muito tempo e, o pior: elas falam em amor, mas se contradizem. Não quero terminar meus dias num sanatório como os loucos. A vida, sem dúvida, é sempre maravilhosa e o que ela nos oferece é sempre o melhor. Não preciso sair à procura de um guia, de um santo, de um homem que me mostre o caminho que devo seguir; não preciso ouvir tolices de um homem pecador como eu, pois tudo aquilo que ele pensar em me dizer, eu já sei e, seria hipocrisia me falar daquilo que eu já sei. Muita gente fala em amor, porém, não sabe o que é o amor. Vive criticando, julgando outros e esquece que também é semelhante a eles. O verdadeiro amor não tem preço e nunca esteve à venda. Poucos têm esse amor.

Não sou perfeito, porém, busco a perfeição. Pretendo ser reconhecido sim, por aqueles que almejam o mesmo que eu; aqueles que amam a natureza, a vida e, principalmente este Criador que é o autor de nossas histórias, nossos sonhos, nossas vidas.
Podem me criticar os tolos, pois eu não me importo. Não preciso deles e, sei que eles precisam de mim. Não sou a solução dos problemas, porém, muitos problemas encontram soluções em mim, não nos tolos. Fazer o bem é algo tão bom para o espírito que é algo inexplicável para a carne, que é fraca, envelhece, morre e apodrece.
Hoje, estamos aqui na terra vivendo e, querendo ou não aceitar, aqui não estamos em vão. Tudo pode passar, porém, nada do que fizermos a outrem ou a nós mesmos será apagado, esquecido no memorial do intelecto do universo.
Somos falhos e por isso erramos muito, porém, devemos ter consciência de que a vida devemos respeitar. Viver não é apenas respirar o ar; viver é sentir o fôlego da vida e saber que ela é eterna.

LADY LOURDES


Lady Lourdes era uma mulher bonita demais, sô! Morena da cor do pecado original do fruto proibido; cabelos negros e lisos, esbelta, corpo sarado, sagrado e saudável como o leite da nenê; pele macia feita a bunda de um anjo. Por onde a boneca humana passava era aquela poluição sonora: os bem-te-vis ficavam loucos, os cachorros latiam e babavam; buzinas de carros, sirene de ambulância, corpo de bombeiros e polícia; apitos de fábricas; sinais de escolas, colégios e faculdades; “ui, ui, ui” dos fanqueiros; “pinga ne mim” dos caipiras; enfim, parecia o fim do mundo. A mulher irradiava uma beleza capaz de confundir Confúcio se ainda estivesse vivo.
Lady Lourdes, para a tristeza de muitos, era casada e, o povo comentava que seu marido não era fraco não. Dizia que, Parido Aparecido, seu marido, se pegasse um cabra safado dando em cima de sua mulher, ele o desmaiava.
Sucedeu que, surgiu uma vaga de secretária numa indústria de bonecos de carne (a maior do mundo) em São Paulo e, Lady Lourdes foi até lá entregar seu curriculum. Vixi! Osvaldo de Souza, o grande matemático, podia contar: tinham oitocentas e treze mil mulheres na frente de Lady Lourdes, na fila. O que?! Quando o magrelão quatro olhos do RH viu Lady Lourdes a um quilômetro, deu um berro tão alto, capaz de ensurdecer até os ouvidos dos mosquitos: “VEM PRÁ CÁ, CHUCHÚ".
Lady Lourdes ganhou o emprego e, de imediato, três meses de pagamento adiantado. Corre diabo! Vai reinar no inferno! Lady Lourdes era demais! Era o maior acontecimento histórico que o mundo já pôde presenciar. Uma mulher capaz de converter veado a virar bode; ressuscitar velhinhos que o tempo levou, enfim, Lady Lordes era um show.
Até então, ninguém conhecia Parido Aparecido, seu marido. O chefão universal da indústria de bonecos de carnes, um crioulão de 2 m de altura, mandou chamar Lady Lourdes em seu escritório. Vixi! Será que ele ia dar um aumento de salário para ela? Negativo. Ele a assediou.
- Lady Lourdes, darei-te um avião e um prédio de cem andares em Paris, na França, se deitares comigo.
Lady Lourdes não gostou de tal proposta.
- Sou casada, chefão. Não troco meu marido por nenhum troco.
- Mas, ele não precisa ficar sabendo. Darei-tei o quadro de Monalisa (o legítimo) de Leonard Da Vince, avaliado em cem milhões de dólares.
- Não e não e não.
- Darei-te a Disney World e a Fábrica de Bolos Prestígios de Lúcia.
- Não e não e não.
- Te darei o céu e o meu amor também, é claro.
- Não e não e não.
E o chefão nem piscava os olhos diante daquele fenômeno que não era Ronaldinho.
- Diz pra mim, boneca: o que você quer ganhar?
E Lady Lourdes charmosa feita à geleia gorda da menina, diz:
- Não quero nada. Eu amo meu marido porque ele é tudo pra mim. É o ar que eu respiro.
De repente, seiscentos e um homens (peões da indústria) invadem o escritório do chefão e foi aquela guerra. Todos queriam ficar com Lady Lourdes e, só teve um homem que conseguiu dar fim aquele fuzuê: Parido Aparecido, o marido da encantadora Lady Lourdes. Gente! Pense num homem feio. Pensou?
Uma figura tão assustadora capaz de calar a multidão. Ninguém comentava mais nada. A presença daquele ser calava até o espírito aguçado de Maria; calava a todos e a tudo. A feiura de Parido Aparecido era tão grande, capaz de adoçar o jiló e salgar o mel.
Lady Lourdes sai abraçada com seu marido daquela indústria e desaparecem para sempre. O amor é lindo, Jesus! Eu já sabia disso, porém, não sabia que fosse tão lindo, sô!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

FRUSTRAÇÕES ETERNAS (TEXTO DE: ANÔNIMO)



Eu achava que seria diferente ao despedir da vida, a qual eu nunca pedi para nascer. Vim ao mundo como vêm os porcos, os ratos, os cães, as baratas, etc. Hoje sei que não sou melhor ou superior a eles.
Cresci num mundo ouvindo lendas e histórias. Acreditando em historietas absurdas de que “os bons vão para o céu (ao morrerem) e os maus para o inferno”.
Na minha infância, naquele paraíso maldito chamado “terra”, ouvia dizer de que Deus, o Criador, não faz acepção de pessoas. Da minha infância à adolescência, da adolescência à juventude e, da juventude à velhice, pude notar que aquilo que ouvi um dia, não passava de ilusão, ou, pior do que isso: uma grande mentira. Eu procurei um lugar para sobreviver na sociedade, mas, fui excluso dela; eu rabiscava a minha suposta e tão desejada felicidade em papéis e, nunca pude alcançá-la. Não deu tempo, pois, se vive muito pouco. Foi pesquisando as Escrituras Sagradas que cheguei à conclusão de que Deus faz acepção de pessoas. Este é um assunto polêmico demais.
Noé, o velho que construiu a arca, amaldiçoou seu filho Cã e sua geração. Qual é o historiador bíblico que não sabe que a geração de Cã é negra? Quer dizer então que Noé, por ser um servo de Deus, poderia embriagar-se de vinho e ficar nu trazendo “vergonha” para a sua família? Nunca aceitei isso.
Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos, filhos de Isaque e Rebeca. O primogênito de Isaque era Esaú, quem em troca de um prato de lentilha vendeu sua primogenitura ao irmão Jacó. Isaque já velho e cego foi enganado pela mulher Rebeca e seu filho Jacó que se passava pelo irmão Esaú, o preferido do pai. Certas “tramoias” eram aceitas por Deus, no passado, por que hoje não as seriam?
Davi se tornou rei em Israel, designado por Deus. Além de adúltero, embriagou de vinho Urias, seu guarda fiel e braço direito e, ainda mandou matá-lo para ficar com a linda Bate Sebá, esposa do coitado. O castigo que Davi teve foi muito pequeno. Perdeu seu filho, mas, continuou reinando. Escreveu o livro dos Salmos e teve um filho, Salomão, considerado por Deus, o mais sábios de todos os homens. Eu nunca aceitei isso.
A raça humana na terra se preocupa muito em agradar a Deus e o que muda isso? Tribulações, catástrofes, violência, insegurança, guerras e terremotos sempre existiram na terra. Quando eu presenciava um acidente, por exemplo, em que a vítima saía ilesa, ouvia uma grande idiotice: “Foi livramento de Deus”. Que tolice! Na hora que tem de acontecer, acontece e não há livramento de parte alguma. Por que é que é tão gostoso acreditar em ilusões? Talvez, porque somos eternas crianças.
Outro grande absurdo que cansei de ouvir dos fanáticos religiosos era: “Devemos dar graças a Deus por tudo”. Será que Deus sabe o que é morrer de fome, de sede ou de frio? Ou então, um pai, ver sua filha sendo violentada até a morte? Graças a Deus, por quê? Ou melhor: Eu deveria dar graças pelo o quê, em minha vida?
No meu convívio social, notava que existia gente que tinha dinheiro demais e, não precisava de tudo aquilo. Enquanto eu precisava de muito pouco para ser feliz. Gente honesta ou não, isso não importa, mas, preferia jogar dinheiro fora a ajudar um “filho da puta” como eu, cheio de sonhos que nunca saíram dos papéis. Nunca foram realizados.
Acho que o mínimo que Deus poderia fazer é apagar as recordações do passado, na entrada do homem ao paraíso. Se é que esse Deus, realmente não faz acepção de pessoas, faça-me um rei. Não aceito a ideia de viver eternamente num paraíso de ilusões. O meu histórico na terra será esquecido como muitos outros. É uma pena que não me lembro: Mas, lá atrás, quando eu ainda era um espermatozoide, jamais deveria ter alcançado o útero de minha mãe. Vencedores foram meus milhões de irmãozinhos e, não eu. Já estou morto há muito tempo, mas, se ainda estivesse vivo e, não fosse tão covarde, eu tiraria a minha vida.

PAI HERÓI





Meu nome é Alan, hoje tenho 28 anos. Desde moleque sempre fui revoltado com tudo e com todos. Aos 12 anos comecei a usar drogas e, para sustentar meu vício roubava até mesmo minha mãe. Para não ficar devendo para traficantes eu me prostituía. Os gays adoravam transar comigo, pois eu era ativo, os dominava nos relacionamentos. Ganhei muito dinheiro me prostituindo que, aos 18 anos já tinha meu carro e aos 20, meu apartamento. Eu só usava tênis e roupas de marca. Eu chorava muito porque sentia um vazio muito grande dentro de mim.
Envolvi-me com um gay bem mais velho do que eu e, nos apaixonamos de verdade. Foi àquele gay que me ajudou a me livrar das drogas porque eu já estava me despedindo da vida. Gratidão não tem preço, mas, eu devo isso a ele.
Numa noite, após uma relação sexual, desabafei a história do meu passado com ele que, repentinamente teve uma crise de choro. A história era minha e eu queria entender o “porque” dele chorar tanto. Ele dispensava minhas carícias, não parava de chorar e, por fim gritou feito um alucinado: “Eu sou o seu pai”. Foi à última vez que vi aquele homem.
Só, em meu apartamento comecei a chorar em desespero ouvindo uma música do grupo YES, “Soon”. Pensei em beber e me drogar naquela hora, mas não fiz isso. A história que contei para aquele homem era muito forte, mas era a mais pura das verdades:
“Eu tinha três anos quando meu pai me abandonou. Disse-me que não demorava pra voltar para casa e que me traria quando voltasse, meu Danoninho. Ele me enganou, porque nunca mais voltou. Minha mãe era quem sustentava a casa e, com o passar do tempo se adoeceu. Na minha adolescência eu batia muito nela e roubava o seu dinheiro para me drogar. Eu queria o meu pai de volta, mesmo sem Danoninho. Eu queria aquele homem que me contava lindas estorinhas, que me fazia rir; fazia-me feliz. Era ele que me salvava da Cuca, do Bicho Papão em meus sonhos. Sim, meu pai era o meu herói. Onde ele está agora?”
- O tempo passou e, hoje estou aqui, doutor Boa, para lhe ouvir. Eu perdoo meu pai por ele ter me abandonado. Hoje, eu tenho aversão a sexo. Não tenho um pai herói e sim um viado.
- Alan, o que é ser herói para você? Será que ser herói para você é ser forte, másculo? “Viado” é pejorativo e, isso é ridículo. Seu pai é um homossexual e daí? O que muda isso para você que, até um tempo atrás também era? Seu pai ouviu a sua história, porém, você não ouviu a dele porque também ele não te contou. Disse-me que quem te salvava da Cuca, do Bicho Papão nos teus sonhos era ele, não era? Teu pai te contava lindas estorinhas, fazia você feliz. Por alguma razão (que você nunca soube) ele te abandonou deixando você e sua mãe numa situação bastante precária. A vida é maravilhosa, Alan, porém, ela nos surpreende. Nem todo final de uma vida é feliz. As vidas de vocês (pai e filho) não acabaram e jamais vão acabar um dia. O que aconteceu com vocês dois é obra da carne e, a carne envelhece, morre e apodrece um dia. Ser ou não homossexual não vai mudar nada. O espírito sim é forte e é eterno. Realmente, é uma situação bastante delicada: pai e filho ter relações sexuais, porém, vocês não sabiam disso. Como até as pedras se encontram, um dia creio que vocês vão se encontrar. Dê um abraço bem forte em seu pai, ouça a história dele e depois disso chame-o de herói. Lembre-se que ele apareceu em sua vida quando você já estava se despedindo dela devido às drogas. Sim, ele é muito mais do que um simples pai, é o seu pai herói.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O PREÇO DA TRAIÇÃO



João Victor e Vitória era um casal muito feliz. Ele, 40 anos e, ela, 37. Conheceram-se ainda na infância, no sítio Areião, em Mogi Mirim, interior de São Paulo. O sítio era do velho Antônio, avô de João Victor, e a pequena Vitória era filha de um dos empregados do velho Antônio.
João Victor e Vitória cresceram juntos e, eram eternos namorados. Compartilhavam todas as emoções juntos.
O velho Antônio morreu e, João Victor herdou aquele sítio com mais de trinta alqueires de terra e, casou-se com Vitória, o grande amor de sua vida.
Quando se casaram, Vitória tinha apenas 17 anos e seu sonho era engravidar do marido, porém, os anos passaram e ela continuava estéril e cobrava isso dele.
- Quero que você leve-me ao médico, amor.
- Você está doente?
- Estamos casados há cinco anos e não temos sequer, um filho.
- Para quê filhos? Deixe isso pra lá. Está tão bom assim.
- Toda mulher deseja ser mãe quando se casa e eu não sou diferente.
- Você é jovem e muito bonita. Se tiver filhos vai envelhecer antes do tempo, como acontece com todas as mães. Filhos vêm ao mundo só para aborrecerem os pais.
E esse era o grande motivo das discussões do casal. Vitória cai em depressão. Nada para ela tinha mais prazer do que o de gerar uma criança.
João Victor trabalhava num escritório de contabilidade no centro da cidade de Mogi Mirim e, Vitória ficava em casa, no sítio. Numa tarde, quando João Victor chega a sua casa, se depara com Vitória que não podia se conter de tamanha alegria.
- Estou grávida, meu amor.
João Victor não gostou de ouvir isso, porém, não deixou transparecer sua indignação.
- Que bom! Fico feliz por você estar feliz.
- Abrace-me, amor.
E logo, nasceu uma linda menina. Regina era saudável e muito mimada pela mamãe coruja.
Num domingo pela manhã, a vizinhança daquele sítio ouviram gritos de desespero de Vitória. A pequena Regina, com apenas três meses de vida, fora picada por vários escorpiões e chegara sem vida no hospital da cidade.
Vitória caíra novamente em depressão e, desta vez ficara até hospitalizada durante meses, para se recuperar.
De volta para casa, no sítio, Vitória se isola outra vez. Dona Mirtes, uma das moradoras daquele sítio, era quem fazia os afazeres domésticos como lavar, passar, arrumar a casa e cozinhar.
O tempo passou. Vitória voltou a sorrir aos 37 anos: engravidou novamente. João Victor sempre a seu lado lhe dando atenção, amor e muito carinho. Os vizinhos comentavam que, Vitória era a grávida mais feliz do mundo.
Vitória, no oitavo mês de gestação, sentia-se saudável e até contava os dias para dar a luz. João Victor tomava uma ducha bem quente, pois, fazia muito frio. Quando volta para o quarto, Vitória mal podia respirar, estava perdendo a visão e a vida, mas, ainda podia ver com dificuldade João Victor e ouvi-lo. Friamente, ele tira uma cobra coral debaixo do cobertor que cobria a mulher.
- Eis o preço por me trair, meu amor. Se eu não posso gerar filhos, de quem era esse maldita criança que você esperava? Os escorpiões levaram sua pequena Regina e, agora, esta cobrinha levará você e teu filhinho para o inferno. Descanse em paz, meu amor.
João Victor fica muito nervoso e abalado por aquilo que fez, porém, todos acreditam que tais mortes como a da pequena Regina e, agora de Vitória e o filho que esperava, não passaram de acidentes.
Dois meses depois, João Victor recebe uma ligação da clínica de reprodução humana onde tratava de sua infertilidade. Uma hora depois, ele ouve de seu médico:
- Caro João Victor, me perdoe. Médicos e doutores também erram. Fizeram trocas de espermogramas no laboratório e, para resumir: você pode gerar filhos. É fértil.
João Victor sai daquela clínica e nunca mais, acha o caminho de volta para a sua casa, no sítio. A última vez que fora visto estava num matagal, onde se escondia até mesmo do próprio sol. Ficou completamente louco e nunca mais foi visto por ninguém.



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O PREÇO DA LIBERDADE


Lembro-me dos meus cinco anos de idade. Minha mãe
Levou-me num posto de saúde porque eu estava com muita gripe. Uma garotinha bem loura, de olhos bem azuis, devia ter a minha idade (pensei) convidou-me para brincar no pátio daquele posto de saúde. Fiquei tão feliz! Queria que aquela menininha fosse minha amiga de verdade e para sempre. Estávamos brincando de esconde-esconde e, que legal foi aquela brincadeira! A mãe daquela garotinha (tão loura como ela) apareceu por ali, de repente, e disse zangada:
- Tenha modos, Patrícia! Aqui não é jardim zoológico para você ficar divertindo-se com macacos.
Eu, uma criança negra, ingênua não entendi que aquela mulher estava referindo-se a minha cor.
- Tia, eu não sou um macaco.
Aquela mulher puxou os braços de Patrícia com tamanha estupidez e disse-me:
- Não sou sua tia, moleque retardado.
Fiquei calado. Não sabia o significado da palavra “retardado”, afinal, eu só tinha cinco anos. Voltei para a sala de espera, ao lado de mamãe que percebeu que eu estava muito triste, mas, estava acreditando que era por causa da minha gripe. Logo, o médico chamou por meu nome e, eu e mamãe entramos em seu consultório. Nossa! Aquele homem claro estava com um mau-humor terrível. Mal olhou pra gente. Disse qualquer coisa para a enfermeira e, logo ela já veio com uma injeção nas mãos. O médico pediu que minha mãe se retirasse do consultório e que me aguardasse na sala de espera. Foi quando aquela enfermeira esquisita disse-me:
- Macacos não choram quando tomam injeção, entendeu?
Mas, eu chorei muito porque nunca fui um macaco e, não chorei pela picada da agulha não. Eu queria entender “porque” chamavam-me de macaco e, por que a mãe de Patrícia odiou-me.
Aos sete anos, eu estava na primeira série e, adorava estudar. Eu era o único aluno negro naquela sala de aula e, notava que ninguém gostava de mim. Quando minha professora saía para ir à secretaria ou ao banheiro, os alunos faziam a maior das bagunças. Não vou esquecer-me de Ritinha, uma menina ruiva maldosa que me metia muito medo. Ela mexeu na bolsa da professora e roubou alguns pertences dela e pôs a culpa em mim. Não sei até hoje como é que Ritinha fez isso, pois, foi encontrada dentro da minha mochila escolar uma correntinha de ouro. Todos os alunos temiam aquela menina malvada e, por causa disso, mentiram ao dizerem para a professora que eu era o ladrão. Por causa disso fui expulso não só daquela sala de aula, mas, também daquele colégio. Apanhei muito do meu padrasto, um português muito bravo.
- Seu macaco nojento! Está no teu sangue que és um ladrão. Isto está na tua cor.
Aquilo doeu muito mais do que as cintadas que ele deu-me, confesso. Meu padrasto chamou-me de ladrão e de macaco. Nunca roubei nada de ninguém.
Quando completei nove anos, minha mãe conseguiu matricular-me num colégio. Lá, eu não era o único negro e sentia-me mais seguro, pois, até minha professora era negra. Só que minha alegria durou muito pouco. Minha mãe faleceu e, meu padrasto tirou-me daquele colégio e levou-me para uma chácara. Naquela chácara, foi onde conheci o que de fato era a humilhação de verdade. Meu padrasto e suas duas filhas (todos brancos) tratavam-me como escravos e, por pouco eu apanhava. Tinha que engraxar seus sapatos e botas, enfim, não era aquilo que eu queria para mim. As filhas do meu padrasto estudavam na cidade e quem levava e trazia-as era o meu padrasto. Eu queria tanto estudar.
Um dia, (jamais ei de esquecer-me) eu e meu padrasto estávamos sós na casa da chácara e, ele abusou de mim. Violentou-me sexualmente e brutalmente e fez-me jurar que não contaria isso a ninguém ou então ele matar-me-ia. Dos nove aos doze anos sofri seus abusos e fiquei calado. Fugi daquela chácara com a roupa do corpo e, graças a Deus, pegando carona na estrada, cheguei a São Paulo. Quando eu dizia para os caminhoneiros que era natural de Blumenau (Santa Catarina), eles riam de mim: “Pensei que macacos só tinham em Pomerode, no jardim zoológico”. “Teus pais são alemães, negrinho?”
Eu queria trabalhar na cidade grande e, também estudar. Meu grande sonho era o de ser médico. Ninguém me dava trabalho e, eu sabia que era por causa da minha cor. Eu queria tanto ter um amigo. Precisava de um abrigo, de roupas, comida e, algo que valia muito mais do que isso: amor. Sim, eu queria entender o “por que” de ser mal visto por tanta gente. Demorou, mas, enfim, eu pude entender: eu sou negro e serei até eu descer à sepultura. Depois, eu não sei mais nada. Quem sabe, quando essa carcaça negra for comida e indigesta pelos bichos, eu possa sentir-me livre e parar de provocar certos brancos, por causa da minha cor, que têm nojo de mim.
Conheci um casal de brancos e posso dizer convincentemente hoje que tenho pais verdadeiros. Este casal de espíritas me adotou e deu-me boa educação e, principalmente amor, que era o que mais me faltava. Graças a Deus e a eles, estudei em bons colégios, conheci muitos lugares fantásticos e, assim, eu cresci. Parecia que aquele “peso” do passado não existia mais para mim, pois, eu relevei tudo e, não guardei ódio e rancor daqueles que me humilharam um dia.
Quando eu tinha 17 anos algo surpreendente aconteceu em minha vida. Eu estava num embalo de uma discoteca em Campinas, interior de São Paulo, quando me chamou a atenção a garota mais linda daquele lugar. Meu Deus! Choramos muito mais do que conversamos. Lembra-se daquela garotinha de olhos azuis da minha infância? Sim, era Patrícia quem estava ali. Foi a minha namorada e mulher da minha vida. Estava morando em Campinas e levou-me para a sua casa. Sua mãe odiou-me como daquela vez; humilhou-me, mas, relevei tudo. Falei a ela do grande amor divino, dos nossos irmãos espirituais do espaço, de todas as coisas lindas que aprendi no espiritismo e ela dizia-me que tudo isso era do demônio. Disse a ela que demônios não existem; que não valia a pena encher o coração de rancor, pois, faz muito mal. Disse a ela que não sou um macaco e mesmo que eu fosse, faria sua filha muito feliz. Aquela mulher racista congregava numa seita religiosa e isso era tudo o que realmente importava a ela.
Dona Clara (mãe da minha Patrícia) sofreu um grave acidente de carro e, para que sobrevivesse precisava de uma transfusão de sangue. Ainda consciente disse no leito do hospital:
- Não quero transfusão de sangue. Minha religião não permite.
Dona Clara perdeu seus sentidos e, ignoramos aquela sua doutrina religiosa. Doei meu sangue a ela e, graças a Deus, ela sobreviveu. Casei-me com Patrícia contra a vontade dela que foi desassociada daquela seita religiosa por causa daquela transfusão. Dona Clara caiu numa depressão tão profunda por ter sido exclusa daquela seita que acabou morrendo de tanto tomar remédios antidepressivos.
Consegui me formar em médico pediatra. Sempre adorei crianças e, para a minha alegria, Patrícia ficou grávida. Eu ficava paparicando ela e nosso filho dentro de sua barriga o tempo todo; contando os dias e as horas para aquele moleque nascer. Acompanhei passo a passo o seu pré-natal e, minha vida acabou, Doutor. Tudo isso pra mim foi um sonho muito lindo que sonhei e teve um final trágico que eu nunca vou conseguir entender: Minha Patrícia e meu filho morreram no parto.
Abandonei minha carreira de médico e isolei-me de vez. Não tinha mais ânimo para nada, nem mesmo para frequentar o centro espírita com meus pais. Como se não bastasse, fui confundido com um estuprador bem no centro de Campinas e fui linchado pela população e depois me prenderam. Até que foi provada minha inocência apanhei muito dentro daquela prisão e, pior que isso: fui estuprado. Eu pergunto: tudo isso por quê? Por que sou negro?
Eu queria ser livre como os macacos. Qual é o preço da liberdade? Fiquei meses naquela prisão, sai de lá, mas, continuo preso. Eu só queria ser feliz como muita gente é, só isso, Doutor.

DOUTOR BOA:

- Edson, sua história, apesar de ser marcada por preconceitos e muitas humilhações é uma história comovente e muito linda, porque você é lindo. Você tem um coração repleto de amor, apesar de sentir muita mágoa; tem um coração puro, que não semeia rancor. O Autor da vida, do amor, já sabia de antemão que aquela linda garotinha que você conheceu em sua infância, seria a mulher de sua vida, a mãe de seu filho, por isso é que vocês se reencontraram. Esta é a parte mais linda, entre outras de sua história. Apesar do racismo, do preconceito de sua sogra você viveu momentos inesquecíveis e felizes ao lado de Patrícia. Sua sogra era mais uma doente fanática e eu diria até antirreligiosa que partiu deste plano sem entender que Deus é amor. Por pior que seja uma seita religiosa, sua doutrina nunca vai pregar contra o racismo e preconceito. Isso era obra da mente doentia dela. O seu sangue foi quem salvou a vida dela e, por orgulho, ela ignorou a própria vida. Teu filho jamais passaria pelas mesmas humilhações que você, meu caro! Deus o recolheu e, creia: ele e sua amada Patrícia estão num plano superior a este e te aguardam para junto deles.
- Você foi humilhado e abusado sexualmente por seu padrasto que era um maníaco, um covarde. Gente como ele, e como aquelas da prisão, vai pagar um preço muito alto ainda neste plano. Deus é justo e suas mãos pesam. Ninguém vai embora daqui sem pagar as suas dívidas. Toda a humilhação que você sofreu só provou pra si próprio que é notório e superior a estes invejosos. Qual o problema de ser negro? O que a cor pode mudar no caráter de um ser humano? Dentro de cada um de nós circula um sangue que é a vida e, este sangue só tem uma única cor. Racistas são doentes. São como pragas no planeta; não são felizes e jamais serão enquanto viverem nessa paranoia doentia.
É evidente que você guarda mágoas em seu coração, porém, não permita que tal mágoa apague esta luz edificante que brilha dentro e fora de você. Muitos brancos te humilharam? Ignore-os porque são doentes. Lembre-se daqueles brancos que te aceitaram pelo que você é; como seus pais adotivos, que te acolheram no momento em que você mais precisava e te deram boa educação e melhor que tudo isso: muito amor; e o que dizer de Patrícia?
Você ainda é jovem e tem um futuro brilhante pela frente. Você é um médico pediatra e pode salvar muitas crianças negras e brancas. Orgulhe-se disso, Doutor! Um dia, creio que isso não vai demorar, todos aqueles que respeitam a vida assim como eu, você, serão exaltados pelo Criador que tudo enxerga, porque seus olhos estão por toda a parte e, então viveremos todos felizes num paraíso de brancos e negros onde tudo o que realmente vai importar é o respeito à vida que só tem uma cor. Ser livre é um direito de todos. A liberdade não tem preço. Pense nisso.