quarta-feira, 20 de agosto de 2014

SONHOS ROUBADOS

Francisco era um jovem muito talentoso. Compunha lindas músicas e tocava um violão como um verdadeiro artista. Que letras lindas! Fazia canções nos mais variados gêneros: MPB, Samba Canção, Rock Pop, Bossa Nova, Sertaneja, enfim, todas muito bem elaboradas. Seu grande sonho era gravar um CD e mostrar sua arte ao mundo.
Muitas noites, Francisco passava em claro, compondo em seu quarto. Dagmar, sua mãe, queria muito ajudá-lo, pois, reconhecia o grande artista que era o seu filho.
Mãe e filho pagavam um alto aluguel para morarem num subúrbio de São Paulo. Dagmar era diarista, trabalhava em casa de família e, Francisco, seu único filho de apenas 21 anos, trabalhava como servente pedreiro.
O falecido Emílio, pai de Francisco, desejava muito, antes de morrer, ver seu único filho no auge do sucesso.
Espera aí! O que faltava afinal, para Francisco fazer sucesso? Ele era um jovem bonito, se bem que beleza não conta na lista dos monstros sagrados. É claro: faltava-lhe uma chance na vida; alguém que lhe desse um “empurrãozinho”.
Francisco conheceu Isabela, uma linda moça que, por sinal, não era fraca não. Filha de um Deputado Estadual e, fã de Francisco. Ela sempre o incentivava.

- Chico, o mundo precisa ouvir suas músicas. São lindas demais!



Francisco passou a cantar em barzinhos da grande São Paulo e, num desses barzinhos, conheceu Honésio, um homem que tinha fama de ser um milagreiro. Conversaram muito e, Honésio prometeu ajudá-lo.
- Traga-me suas melhores músicas: suas melhores letras. Tem partituras de todas elas?
- Sim.
- São registradas suas músicas?
- Não. Não sei como fazer isso.
Honésio olha sério para Francisco e lhe diz:
- Mas, eu sei. Traga-me suas composições e músicas e vamos gravá-las.
Francisco ficou muito entusiasmado. Ele e sua namorada Isabela sentiram firmeza naquele homem. Por outro lado, Dagmar, sua mãe, não estava assim tão confiante.
Num sábado à tarde, Francisco encontra-se com Honésio naquele barzinho, como combinaram.
- Trouxe suas músicas?
- Sim. Estão todas aqui.
Francisco tinha em mãos uma pasta com pelo menos umas trezentas composições e músicas de sua autoria. Honésio leva Francisco para sua luxuosa mansão. Francisco fica mais confiante ainda.
- Nossa! O senhor mora aqui?
- Sim. Graças ao meu talento.
- O senhor também é um artista?
- Duvidas?
E no interior daquela luxuosa mansão havia um estúdio, para surpresa de Francisco que ficou muito emocionado.
- Nossa! Parece que estou sonhando.
Honésio pede para Francisco cantar algumas músicas e grava-as em alguns canais. Excepcional! A gravação ficou perfeita. Depois de ouvi-la, Francisco pergunta a Honésio:
- Posso levar uma cópia desse CD para mostrar à minha mãe e à minha namorada?
Honésio lhe diz sério:
- De forma alguma. Você só vai mostrar seu trabalho a sua parentela e, principalmente ao mundo quando este for executado. Estamos apenas começando. Não pense que é tão fácil assim. Vou dar uma olhada detalhadamente em todo o seu trabalho e, no próximo sábado, gravaremos de novo.
E Francisco, ingenuamente, deixa nas mãos daquele homem toda a sua arte. No sábado seguinte vai até aquele barzinho e não encontra Honésio. Isso o deixa bastante preocupado. Ele não lembrava mais onde Honésio morava. Nem sequer pegou o número de seu telefone, nem email. Muitos sábados passaram-se e Honésio nunca mais foi visto.
Numa manhã de domingo, Dagmar, mãe de Francisco por pouco não enfarta. Ouve no rádio uma canção de seu filho cantada por um cantor famoso. Corre para o quarto do filho, que ainda dormia. Que trágica notícia! Francisco não tinha registros, Direitos Autorais de nenhuma de suas músicas. Aquilo, sem dúvida, o deixou pra baixo.
- Eu preciso achar esse sujeito, mamãe.
- Mas, como?
Francisco volta para aquele barzinho que costumava cantar, porém, não encontra Honésio. Vai até a polícia, mas, também não acaba resolvendo nada.
Meses depois, outras de suas músicas estouram nas paradas do sucesso. Onde estava, afinal, Isabela, sua namorada, que também sumiu?
Francisco recebe uma carta de Veneza, Itália. Era de Isabela. Com as mãos trêmulas, abre o envelope e lê aquela carta:

“Chico, a verdadeira arte não pode ficar oculta. Você despertou sua arte tarde demais. O mundo jamais vai aplaudi-lo, exatamente por não conhecê-lo. Afinal, quem é você? Estou ao lado de um verdadeiro homem, de um artista que, jamais, deixaria sua arte em oculto. Dê uma volta por cima; recomece a viver; faça tudo de novo. Explore sua arte, seu talento no momento certo e para as pessoas certas, seu bobinho. Boa sorte na vida”.
Honésio e Isabela estavam juntos desfrutando do bom e do melhor graças às canções de Francisco que fez muito sucesso na voz de grandes intérpretes. Francisco perdeu tudo o que compôs em sua vida. Caiu numa depressão total e não suportou mais viver. Cometeu suicídio. Talvez, o mundo nunca ficará sabendo que ele era, sem dúvida, um grande artista.


Se você é um artista, valorize a sua arte antes que seja tarde. Registre-a antes de mostrar ao mundo. Lamentavelmente, existe muita gente invejosa. Gente que não tem talento, criatividade, dom e que vegeta na vida a espreita do sucesso de muitos que morrem sem serem reconhecidos.
A vida é única. Só se vive uma vez. Explore o artista que existe dentro de você. Não jogue fora sua arte. Creia na vitória que pode vir sem demora do universo que te apoia porque é uma joia e quer te cobrir de glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias.


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terça-feira, 19 de agosto de 2014

FÉ, AMOR E PACIÊNCIA



José e Maria, um casal muito religioso. Gostava de fazer caridades sem fazer acepção de pessoas. Seja lá, quem fosse que batesse palmas no portão, pedindo ajuda, vendendo algo, enfim, solicitando doações, eles recolhiam para dentro de casa.
Certo dia, José e Maria almoçavam quando ouviram bater palmas no portão. José foi atender.
Era um velhinho franzino, magrinho e estava com uma baita fome.
- O senhor não tem um pratinho de comidinha pro velhinho?
Os olhos do caridoso José encheram-se de lágrimas.
- Chegou ao lugar certo, senhor. Venha para dentro de casa almoçar comigo mais minha mulher.
E aquele velhinho se fartou de tanto comer. Ficou satisfeito mesmo, sô.
- Não lhe pedindo muito, o senhor não tem um cafezinho para o velhinho?
Maria preparou um café fresco de primeira para aquele velhinho humilde.
- Não lhe pedindo muito, o senhor não tem um quartinho para o velhinho descansar só um pouquinho?
José e Maria hospedaram aquele velhinho num dos melhores quartos da casa. E enquanto o velhinho dormia e roncava, José e Maria se abraçam na sala.
- Maria, está pensando o mesmo que eu?
- É claro, José.
- É como diz Hebreus 13: 2: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos”.
Quem seria aquele velhinho humilde, hein? José e Maria estavam felizes em hospedá-lo. Pelas cinco da tarde, José e Maria estavam na sala e, levaram um susto, pois, o velhinho apareceu assim, muito de repente, nem sequer, ouviram seus passos.
- Me deu fome de novo, amados.
José lhe responde sorridente:
- Estávamos somente esperando o senhor acordar. Tem uma mesa farta na cozinha aguardando o senhor. Venha.
E José e Maria ficam felizes de ver aquele velhinho comer assim, com tanto apetite. Tinha de tudo sobre a mesa. Até mesmo mandiocas fritas.
Depois que o velhinho se fartou de tanto comer, ficou triste e muito pensativo. Foi quando José o perguntou:
- Senhor, alguma coisa lhe aborrece?
E o velhinho responde:
- É que o velhinho precisava tomar um banhosinho e vestir umas roupas limpinhas.
José sorridente diz:
- Mas, isso não é problema, senhor. Pode tomar um bom banho e, tem até banheira no banheiro. Quanto às roupas, selecionarei as minhas melhores para o senhor.
E enquanto o velhinho tomava um banho que demorou no mínimo umas duas horas, José e Maria se abraçam na sala.
- Maria, se eu lhe disser que estou feliz, certamente estarei mentindo.
- Meu Deus! Você não está feliz?
- Muito mais que isso, Maria! Estou felicíssimo.
- Vamos orar então marido. Vamos agradecer a Deus por esta glória, glória e glórias. Aleluia!
Quando o velhinho sai do banheiro, prova as roupas de marcas de José. Nem todas ele gosta. Ficou com as melhores. Já estava muito tarde. Ele preocupado pergunta as horas.
- Que horas são? Nem sequer um relógio, o velhinho tem.
José lhe presenteia com um lindo Rolex suíço, o melhor relógio do mundo.
- Agora tem, meu senhor.
E o velhinho agradece, porém, joga uma indireta.
- Já está tarde e o velhinho tem que partir. Que pena! Bem que poderia ser agora, cedinho pro velhinho partir tranqüilo e sozinho.
José afirma:
- De jeito nenhum, senhor! Pouse aqui conosco. Já está tarde e faz muito frio lá fora. Amanhã não pertence a nós. Glória, glória e glórias. Aleluia!
Na sala, José e Maria se abraçam.
- Olha só Maria! Que benção tem em nossa casa. Este velhinho é a glória.
O dia seguinte era um domingo e o velhinho acaba ficando por lá. Toma o café da manhã, almoça bem, descansa, toma o café da tarde, descansa de novo, janta e acaba pousando lá de novo.
O interessante é que nem José, nem Maria faziam perguntas a ele. Nem sequer, perguntaram qual era o nome daquele velhinho. Afinal, quem era aquele velhinho?
Passaram dias, semanas e meses e, o velhinho continuava hóspede da casa. Agora, ele já não pedia mais nada. Abria a geladeira, as portas do armário e se fartava do bom e do melhor.Tinha total liberdade.
José era um excelente carpinteiro e ganhava muito bem. Sustentava a casa. Maria ficava em casa fazendo faxina e, agora, na companhia do velho que não saia sequer, nem no portão da casa. Ficava lá dentro de casa numa folga total, sentadão no sofá da sala vendo televisão, enquanto Maria lavava, passava e cozinhava. O velhinho gostava mesmo era da cozinha. Que apetite era aquele, meu Deus?
Numa noite, enquanto todos jantavam em silêncio, o velhinho pergunta a José:
- Tens fé, amor e paciência?
- Sim, meu senhor.
- Está gostando de ter o velhinho aqui em sua casa, como o seu hóspede?
- Sim.
- O que você faria mais por este velhinho?
Esta foi uma pergunta muito difícil. José e Maria faziam de tudo por aquele velhinho. José fica confuso.
- O que eu poderia fazer mais pelo senhor? Tudo o que desejar, oras!
Havia uma plaquinha bem na porta da cozinha e, o velhinho aponta com o dedo para ela e pergunta a José:
- O que está escrito naquela plaquinha?
E José lê.
- Propriedade exclusiva de Jesus.
Bem neste momento, forma uma tempestade, muitos raios e trovões e chove muito forte. O velhinho pergunta a José.
- Daria esta propriedade por amor a mim?
José se engasga e, o velho senta um forte tapa em suas costas e diz:
- Eu não entendi.
José simplesmente responde:
- Esta propriedade é sua, senhor.
E o velhinho diz:
- Quero que você e sua mulher a desocupem em poucas horas. Boa viagem para vocês.
José e Maria, sem entenderem nada, nada perguntam. Saem daquela casa e caminham na chuva e, sabe lá Deus para onde foram. Nunca mais foram vistos.

O velhinho, agora era o dono daquela propriedade. Afinal, quem era aquele velhinho? O maior dos traficantes de passarinhos, já aposentado: João Ferreira Bigolinho. Coitados de José e Maria. Pensaram que estavam hospedando Jesus Cristo. 





Ter fé, amor e paciência é, sem dúvida, uma dádiva de Deus, porém, não podemos esquecer que muita gente incrédula aproveita de nossa fé. Para dar mão à palmatória, temos que ter compulsória, nem todos que batem palmas em nossos portões são pessoas simplórias e dignas de serem notórias. Então, é desnecessário ficarmos dando glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias.




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PAI HERÓI


Meu nome é Alan, hoje tenho 28 anos. Desde moleque sempre fui revoltado com tudo e com todos. Aos 12 anos comecei a usar drogas e, para sustentar meu vício roubava até mesmo minha mãe. Para não ficar devendo para traficantes eu me prostituía. Os gays adoravam transar comigo, pois eu era ativo, os dominava nos relacionamentos. Ganhei muito dinheiro me prostituindo que, aos 18 anos já tinha meu carro e aos 20, meu apartamento. Eu só usava tênis e roupas de marca. Eu chorava muito porque sentia um vazio muito grande dentro de mim.
Envolvi-me com um gay bem mais velho do que eu e, nos apaixonamos de verdade. Foi àquele gay que me ajudou a me livrar das drogas porque eu já estava me despedindo da vida. Gratidão não tem preço, mas, eu devo isso a ele.
Numa noite, após uma relação sexual, desabafei a história do meu passado com ele que, repentinamente teve uma crise de choro. A história era minha e eu queria entender o “porque” dele chorar tanto. Ele dispensava minhas carícias, não parava de chorar e, por fim gritou feito um alucinado: “Eu sou o seu pai”. Foi à última vez que vi aquele homem.
Sozinho em meu apartamento comecei a chorar em desespero ouvindo uma música do grupo YES, “Soon”. Pensei em beber e me drogar naquela hora, mas não fiz isso. A história que contei para aquele homem era muito forte, mas era a mais pura das verdades:
“Eu tinha três anos quando meu pai me abandonou. Disse-me que não demorava pra voltar para casa e que me traria quando voltasse, meu Danoninho. Ele me enganou, porque nunca mais voltou. Minha mãe era quem sustentava a casa e, com o passar do tempo se adoeceu. Na minha adolescência eu batia muito nela e roubava o seu dinheiro para me drogar. Eu queria o meu pai de volta, mesmo sem Danoninho. Eu queria aquele homem que me contava lindas estorinhas, que me fazia rir; fazia-me feliz. Era ele que me salvava da Cuca, do Bicho Papão em meus sonhos. Sim, meu pai era o meu herói. Onde ele está agora?”

- O tempo passou e, hoje estou aqui, doutor Boa, para lhe ouvir. Eu perdoo meu pai por ele ter me abandonado. Hoje, eu tenho aversão a sexo. Não tenho um pai herói e sim um viado.

- Alan, o que é ser herói para você? Será que ser herói para você é ser forte, másculo? “Viado” é pejorativo e, isso é ridículo. Seu pai é um homossexual e daí? O que muda isso para você que, até um tempo atrás também era? Seu pai ouviu a sua história, porém, você não ouviu a dele porque também ele não te contou. Disse-me que quem te salvava da Cuca, do Bicho Papão nos teus sonhos era ele, não era? Teu pai te contava lindas estorinhas, fazia você feliz. Por alguma razão (que você nunca soube) ele te abandonou deixando você e sua mãe numa situação bastante precária. A vida é maravilhosa, Alan, porém, ela nos surpreende. Nem todo final de uma vida é feliz. As vidas de vocês (pai e filho) não acabaram e jamais vão acabar um dia. O que aconteceu com vocês dois é obra da carne e, a carne envelhece, morre e apodrece um dia. Ser ou não homossexual não vai mudar nada. O espírito sim é forte e é eterno. Realmente, é uma situação bastante delicada: pai e filho ter relações sexuais, porém, vocês não sabiam disso. Como até as pedras se encontram, um dia creio que vocês vão se encontrar. Dê um abraço bem forte em seu pai, ouça a história dele e depois disso chame-o de herói. Lembre-se que ele apareceu em sua vida quando você já estava se despedindo dela devido às drogas. Sim, ele é muito mais do que um simples pai, é o seu pai herói.




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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O PERIGO


Jacó era um homem de muita sorte na vida. Tudo o que fazia dava certo. Saudável como uma goiaba comia de tudo e nada lhe fazia mal. Pai de família, casado com Lília, tinha duas filhas: Virgília e Emília.
Jacó trabalhava como eletricista. Sem dúvida, um trabalho muito perigoso. Ele emendava fios de luz nos postes e, haja sorte: escapou da morte. Viu dois colegas de trabalho morrer eletrocutados e estavam a seu lado. Decidiu mudar de ramo depois desta.
Arrumou um bom emprego: segurança de banco. Que moleza de trampo! Cidade interiorana, repleta de caipiras bacanas, pacífica como as águas do oceano de um poeta alagoano. A hora do almoço era sagrada para Jacó. Meio dia ia almoçar em casa com sua família.
Sucedeu que, num dia, no que Jacó sai do banco, ocorre muito espanto, horror e pranto: quatro assaltantes, provavelmente vindos de cidades grandes invadem aquele banco e, muitos gritos, tiros e tiros que matam e deixam muitos feridos. Decidiu mudar de ramo depois desta.
Jacó muito bem habilitado consegue um emprego como motorista de viagem. Não queria mais nada do que passear pelas estradas. De Minas ao Rio, do Rio a Minas e, ele voltava à sua casa para folgar dois dias com sua família.
Sucedeu que numa noite quando ele conduzia o ônibus para o Rio, (olha o perigo) cochilou na direção. Veio em contramão, bem em sua direção, (olha o perigo) um caminhão. Quando algo tem de acontecer, simplesmente acontece e, não adianta fazer preces para aqueles que padecem e, (olha o perigo) Jacó conseguiu desviar daquele caminhão que vinha do Rio e caiu, coincidentemente num rio. Quem conduzia o caminhão era Liu, que fazia dupla com Léo. Pois é, foi pro beleléo. Morreu como também morrem os judeus.
Jacó ficou muito assustado depois deste episódio que viveu, que presenciou que decidiu mudar de ramo. Afinal, vinha mais uma boquinha na família. Que maravilha! Sua mulher Lília, branca feita à neve com leite de coco estava grávida de uma menina que daria o nome de Cecília.
Jacó trabalhava agora numa grande fazenda como capataz de Barrabás, um sujeito negro que tinha Jacó por seu braço direito.
Barrabás gosta tanto dos serviços de Jacó que lhe dá uma casa em sua imensa fazenda. O que Jacó ia querer mais, Barrabás? Leitinho puro de vacas e cabras, manteiguinha no pão, arroz e feijão, frutas de todos os tipos e, isso inclui o figo, enfim, nova vida para ele e para a sua querida família.
Numa manhã de domingo, (olha o perigo) o galo cantou, a bolsa de Lília estourou, (olha o perigo) e Cecília nasceu saudável feita uma pera. Quem fez o parto de Lília foi Leonardo, um dos empregados de Barrabás.
O que deu errado, meu Deus? Só porque a neném nasceu pretinha? Não era questão de preconceito, mas, Jacó e Lília eram branquinhos, caçamba! Jacó ficou tão nervoso, mas, tão nervoso que chorou feito um bezerro apaixonado. Para aliviar tanta emoção resolveu tomar uma pinga. Na sequência mais uma, depois outra. Bebeu tanto, mas, tanto que quando voltava para sua casa, escorrega numa casca de banana e leva um tombo tão feio que, lastimavelmente, (olha o perigo) bate com a cabeça numa pedrinha traiçoeira e morre. Coitado! Que final de vida mais bobo.

“O perigo pode estar num marido, num amigo inimigo, num ente querido, num tigre ferido, num abrigo, num caso mal resolvido, num remédio vencido, num pudim amanhecido; num herói, num bandido, numa mulher, num pé, numa fé, num café; num barranco, num trampo, num canto, num santo, num banco; num volante, num instante, numa estante, numa Rita irritante, num alto falante, num ignorante, num assaltante, num homem elegante, num mosquito, num elefante. Numa sobra, numa cobra, numa dobra, numa fofoca, numa paçoca; num cortiço, num comício, num início, num precipício, num vício, num elogio, num bolo prestígio; numa ilha, numa maravilha, no seio de uma família e também numa Cecília. Não importa se para muitos esta vida é torta, é morta. “Que soltem seus pintos da gaiola porque a hora da vitória é agora e deem glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias”.



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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

EM TUDO DAI GRAÇAS



A vida tem seus altos e baixos, porém, tem pessoas que, lamentavelmente, não vingam na vida. Tudo o que fazem dão errado.

Assim acontecia com Leonardo, um sujeito azarado demais. Teve oito filhos lindos e saudáveis, os quais morreram todos de uma só vez, vítimas de um ciclone.
Sempre nessas horas de intensa dor e sofrimento que Leonardo passava, vinha um velhinho em seu caminho (só Deus sabe de onde) para lhe consolar.
- Em tudo daí graças, amado Leonardo.
Leonardo com os olhos lacrimosos dizia:
- Como posso dar graças? Perdi meus oito filhos amados de uma só vez. Morreram todos.
- Mas, ainda tem sua mulher, amado Leonardo. Vocês são jovens, saudáveis e, a vida continua. Podem ter muitos outros filhos. Alegre-se. Deus recolheu seus oito filhos porque, sem dúvida, tinha um plano para com eles. Deus sabe o que faz. Em tudo daí graças.
Ester, a linda mulher de Leonardo a trai com outra mulher. Com a própria cunhada, ou seja: com Leonarda, irmã gêmea de Leonardo.
Leonardo chora muito, porque amava demais sua mulher Ester.

 E vinha aquele velhinho novamente em seu caminho lhe consolar.
- Em tudo daí graças, amado Leonardo.
- Como posso dar graças? Minha mulher traiu-me com minha própria irmã.
- Talvez, ela não era pra ser sua. Deus sabe o que faz. Em tudo daí graças.
Leonardo pagava aluguel da casa onde morava e, para sobreviver, tinha que trabalhar muito. Tudo bem que agora não tinha mais mulher e filhos para sustentar, mas, mesmo assim, tinha que dar um duro danado. Nem pão de mel cai do céu e, aluguel, é aluguel.
Leonardo trabalhava como pintor e, sucedeu que um dia, quando estava pintando a parede de um prédio por fora, de repente, um abutre defeca bem em cima de sua cabeça e ele se assusta. Pior do que isso: cai do décimo terceiro andar e, milagrosamente sobrevive. Fica em coma hospitalar entre a vida e a morte, porém, sobrevive.
Dias depois, recebe a visita daquele velhinho.

- Em tudo daí graças, amado Leonardo.
Leonardo estava indignado demais.
- Como posso dar graças? Perdi minhas duas pernas e um braço. Estou internado aqui há três meses sem saber o que está acontecendo lá fora.
- Lá fora está tudo igual, amado. Não entendemos os desígnios de Deus, porém, creia: Ele quer sempre o melhor para nós. Você perdeu duas pernas e um braço, porém, Deus poupou a sua vida porque tem um plano com você. Alegre-se! Você ainda tem um braço, uma cabeça, um pescoço, uma bunda, etc., e está vivo, amado.
O velhinho vai embora e, Leonardo fica ali no leito hospitalar questionando com Deus, o porquê de estar sofrendo tanto assim.
Recebe a visita de um pastor político que lhe presenteia com uma cadeira de rodas. Leonardo só precisava assinar alguns papéis e, como ainda tinha um braço, fez isso e pronto. Ganhou a cadeira e, três dias depois, alta hospitalar e foi para casa. Casa? Que casa? Chegando lá, decepciona de vez: havia outros moradores.
Uma alagoana vem lhe atender no portão.
- Pois é, seu cadeirante, esta casa foi abandonada e, o proprietário gostou tanto de mim e de meus doze filhos que, por sinal, são todos trabalhadores que, encarecidamente, alugou para mim, que paguei um ano adiantado.
Leonardo fica preocupado.
- Peraí! E os meus móveis? As minhas coisas?
- Fiquei sabendo que, o proprietário doou tudo para um pastor político.
Leonardo só desejava morrer naquela hora. Desta vez, chora com ódio. Conduzindo sua cadeira de rodas, encontra pelo caminho, aquele velhinho.

- Em tudo daí graças, amado Leonardo.
Leonardo estava muito revoltado.
- Como posso dar graças, enviado de Deus ou do Diabo? Olhe só o estágio do estado que cheguei. Como se não bastasse, além de perder tudo, não tenho mais moradia.
- Alegre-se, amado. Ainda tem uma cadeira e, de rodas. Procure uma assistência social. Será bem recebido. Tomará um bom banho, um cafezinho quente e, amanhã descobrirá que o mundo é colorido como nos sonhos do nenê. Isso não é lindo?
Leonardo procura uma assistência social e, chega lá, todo defecado. Precisava urgentemente que alguém lhe desse uma assistência.
- Mocinha, acabei de defecar. Olhe só o meu estado. Você pode me ajudar?
Que azar! A mocinha chuta tão forte aquela cadeira de rodas que Leonardo cai dela.
- Sai pra lá, seu verme!
E nesse hora chove muito forte. Leonardo caído no chão, defecado e todo molhado, desejava morrer. Pior do que isso: um ladrão ainda rouba a sua cadeira de rodas.

E aquele velhinho aparece em seu caminho.
- Em tudo daí graças, amado Leonardo.
- Como posso dar graças? Olhe só o meu estado. Não tenho mais nada.
O velhinho lhe dá um guarda chuva.
- Agora tem um guarda chuva e pode segurá-lo porque tem um braço. Não seja tão pessimista, amado.
Leonardo com muito ódio da vida, segura aquele guarda chuva.
- O que mais me falta acontecer?
De repente, vem um caminhão em alta velocidade e, acontece um terrível acidente. O velhinho escapa porque da um pulinho de gato para trás, porém, Leonardo morre na hora e, da pior forma: Morre com o bico do guarda chuva espetado em seu reto para ter uma ideia de quão terrível foi o acidente. Que morte horrível!

O velhinho misterioso chora e diz, olhando para o corpo esfacelado de Leonardo. 


Nem tudo na vida é engraçado, portanto, é desnecessário dar graças a tudo. Dar graça para a desgraça é como aceitar a derrota. É deteriorar a memória, dizendo tolices como ora que melhora e ficar dando glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias.



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A RAIVA




Um andarilho de tanto andar, chega num lugar bem afastado da cidade. Uma gigantesca mata que mais lembrava uma selva. Decide viver lá até o término de sua vida.

Avista uma casa. Sim, uma única casa no meio daquela grande mata, com um cachorro amarrado que, sai de sua casinha e late furioso ao sentir a presença daquele andarilho. Bate palmas várias vezes e desiste. Não havia ninguém naquela casa.

O cachorro late, late, e, pelos latidos do bicho, sem dúvida, ele estava com muita raiva daquele andarilho ou de qualquer passarinho que chegasse próximo de seu portão, ou seja: do portão que ele achava ser dele.
Havia uma grande árvore bem de frente aquela casa e, o andarilho senta debaixo dela e decide tirar um cochilo. O cachorro não parava de latir. O andarilho cochila, acaba se ferrando no sono e, o cachorro latindo. Quatro horas depois, o andarilho acorda e o cachorro latindo. “Como pode um bicho desses sobreviver de tanta raiva?” – Pensa o andarilho.





O cachorro só fazia uma pausa em seus latidos para comer sua ração (que tinha muita) e beber água e, depois, voltava a latir.
O andarilho tira de seu grande saco de plástico uns pães, um litro grande de água e faz sua refeição e, o cachorro latindo.
Cai à noite e o andarilho dorme ouvindo aqueles latidos impertinentes daquele cachorro. Acorda de madrugada com uma forte tempestade de chuva e, não se conforma com a cena que vê: o cachorro, ao invés de se abrigar em sua casinha, molha-se todo na chuva e continua latindo. “Uma curiosidade: será que enquanto durmo, esse bicho também dorme?” – Pensa o andarilho.
A tempestade de chuva passa e o andarilho todo molhado volta a dormir e o cachorro latindo. Acorda com um lindo dia de sol, faz sua refeição e, o cachorro latindo que, também faz uma pausa para comer e beber e, depois volta a latir.
Passam dias e algumas semanas e, a ração e água daquele cachorro acabam e, mesmo assim, ele continua latindo. A água do andarilho também acaba e ele tinha apenas um único pãozinho duro e acaba dividindo com aquele cachorro que come com raiva e depois volta a latir. “Mal agradecido. Sua raiva é maior que sua fome”. – pensa o andarilho.
O andarilho é picado por um escorpião e não consegue levantar-se do chão devido a muita dor. Ele queria achar alimento nas redondezas para si e também para aquele cachorro que não parava de latir. Sentiu fortes dores de cabeça, febre muito alta e dormiu ouvindo de longe os latidos daquele cachorro.
O andarilho morre e morre também aquele cachorro. Não se sabe até hoje qual dos dois morreu primeiro.
Um ano depois, o dono daquela casa chega e, já esperava, é claro, não encontrar Rex, seu cachorro vivo. Dobra seus joelhos diante da caveira de Rex e chora muito.




- Perdoe-me, meu melhor amigo. Estive preso em outro país e, não teve como eu voltar antes.
Minutos depois, o sujeito olha para aquela árvore e, bem debaixo dela, vê uma caveira. Chega próximo dela.
- Seria homem ou seria mulher esta praga? Quem sabe não foi este monstro que matou meu cachorro. Movido de pura raiva, aquele sujeito pega um machado e dá várias machadadas sobre a caveira do andarilho, destruindo-a de vez para sempre.

A raiva é o pior de todos os sentimentos que um ser humano ou animal possa ter no percurso de suas vidas. Viver com raiva é como morrer na dor e, não existe dor que seja maior do que a raiva, aquela que destrói tudo por dentro causando grandes moléstias e intenso sofrimento. Nossas vidas são almas, nossas almas são glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias.


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terça-feira, 12 de agosto de 2014

AMOR DOENTIO


Francisco era um homem muito rico. Tinha terras espalhadas por todo o Brasil. Fazendeiro dos bons que enriqueceu importando e exportando café, soja, feijão, arroz, cana de açúcar e muito gado. Muito religioso também.
Francisco ficou viúvo de Ruth que morreu no parto da única filha do casal: Rita. Uma menina bonita, carinhosa, excepcionalmente inteligente. 
Cresceu aos mimos do pai. Aos 17 anos, muito estudiosa que era, com uma inteligência brilhante, já dominava cinco línguas.  Muitos rapazes desejavam namorá-la, mas, Rita não era chegada em romance e tinha aversão a sexo. Para ela, seu grande, verdadeiro e único amor era Francisco, seu pai, seu herói e melhor amigo.
Francisco freqüentemente aconselhava a filha:
- Minha querida, você ainda é jovem e muito bonita. Una-se com alguém. Têm muitos rapazes de boas famílias que te desejam. Dê-me ao menos um neto.
Rita sorria e lhe dizia:
- Não amo ninguém com exceção ao senhor, meu pai. Sei que este amor é diferente, porém, é o único que tenho.
Rita amava seu pai demais, ao ponto de vigiá-lo até mesmo quando ele dormia. Na ponta dos pés, ela entrava no quarto do pai, colocava sua mão sobre o coração dele para ter a certeza de que ele estava vivo.
Rita não era apegada a nada material. Não era vaidosa e também não tinha amigos. Sua maior paixão era a de ficar ao lado do pai que tanto amava.
Quem administrava os bens materiais de Francisco era Benedito, que, lamentavelmente morreu, vítima de uma congestão alimentar na grande casa da fazenda de Francisco, seu patrão. Francisco sentiu muito por isso e, nessas horas de dor, quem sofria com ele, era Rita, sua filha mimada.
Francisco adotou um cachorro de rua e, quem cuidava dele era Rita. Dava-lhe banhos, boa comida e especial carinho. Tudo isso por amar demais o seu pai que já estava velho.
Rex, o cachorro morreu intoxicado por algo diferente que comeu. Francisco caiu em depressão porque o amava demais. Rita consolava seu velho pai.
- Não quero lhe ver triste, meu pai. A vida é assim mesmo. Tudo tem o seu tempo.
Rita caiu em depressão e, o motivo desta era por via de seu pai. Temia muito em um dia perdê-lo.
O tempo passou e Francisco completou 100 anos de vida. Já estava velho demais e muito doente. Rita não confiava em ninguém para lhe dar medicamentos e cuidados especiais. Ela mesma era quem passava 24 horas ao seu lado. Presenteou o pai com um lindo terno de primeira, dizendo-lhe:
- Meu pai, hoje é o teu dia. Quero lhe vestir este terno e convidá-lo para um jantar especial.
O velho Francisco chora emocionado.
- Filha, antes de sairmos para jantar, preciso ir orar em meu quarto. Eu logo volto.
Enquanto o velho Francisco vai orar em seu quarto Rita toma um bom vinho italiano e acaba cochilando no sofá. Acorda com seu pai lhe chamando.
- Estou pronto minha filha. Vamos jantar?
Rita coloca seu velho pai em seu carro e sai em alta velocidade. Ela estava com um comportamento estranho e isso assustou o velho.
- Não corra tanto, minha filha. Isso é perigoso.
- Cale a boca, seu velho gagá! Quem conduz a sua vida agora sou eu. Desejei a sua morte desde quando era menina. Toda a sua fortuna agora é minha e de mais ninguém. Sou sua única herdeira e, por isso não quis me unir a ninguém. Tenho cinqüenta anos, a metade da sua idade e, ainda sinto-me jovem. Tenho a vida toda pela frente e, o senhor?
Rita para o carro bruscamente numa estrada deserta e arrasta o pai para um grande matagal. Havia entre as matas um profundo buraco, provavelmente feito por ela. Rita empurra seu pai para dentro daquele buraco, corre para o carro, abre o porta malas e pega uma grande pá e cobre todo o corpo do pai com terra.
- É difícil acreditar meu velho pai, mas, eu sempre te amei. Tive nojo de seus amigos, do maldito Benedito, daquele maldito cachorro. Eu mesma os matei. Nunca suportei ninguém que chegasse próximo de ti. Morra seu velho.
Rita volta para o seu carro e chora convulsivamente, depois vai para a casa da fazenda que agora era só sua. Não importava a ela se estivesse que esperar alguns anos para herdar a fortuna do pai. O corpo do velho nunca seria encontrado. Assim pensava ela.
Chegando a casa da fazenda, tudo o que mais queria era tomar um banho. Antes disso, tomar um bom vinho italiano é claro. Cochilou em lágrimas no sofá e acordou com seu velho pai lhe chamando. Mas, como?!
- Estou pronto minha filha. Vamos jantar?
Rita enlouqueceu nesta hora. Começou a gritar e a quebrar tudo à sua volta. Graças aos empregados da casa, foi socorrida até chegar à ambulância e levá-la para o hospital e, de lá, para o manicômio.
O velho Francisco faleceu aos 115 anos desejando profundamente ver a recuperação de sua única filha.

A vida é complexa demais para podermos defini-la. Ela sempre nos surpreende com bons ou maus acontecimentos. Os pais educam seus filhos para que estes tenham um futuro melhor, porém, nem sempre tais resultados são satisfatórios.
Como definir o amor que é tão complexo quanto à vida? De repente, podemos estar convivendo com um psicopata, um doente, um bandido. Boa conduta, bom comportamento, muitas vezes podem não significar nada.
Rita amava tanto seu pai ao ponto de idolatrá-lo e, pior do que isso, de querer este amor só para ela. Planejou mata-lo e, conscientemente o matou mesmo. Sua mente insana estava acreditando que era uma assassina. Felizmente, tudo não passou de um sonho.

Devemos amar a todos com um coração puro, com uma mente limpa. Sei que isso é muito difícil, porém, é só assim que teremos real vitória e poderemos dar e viver glórias e glórias e, esta é mais uma das minhas histórias.




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