Ana
Lúcia era um pêssego. Linda, sensual, ingênua. Um doce. Quando ela saía
para dar um passeio, a rapaziada entrava em paranóia: caía na porrada com
boladas de sangue e tudo, por causa da ninfeta colegial que não ficava com
ninguém e pronto. Cachorros e, não cadelas, podiam ser dos mais bravos,
balançavam seus rabos como gesto de carinho, simpatia pela boneca loira de
olhinhos tão azul feito o céu da catinga do sertão nordestino. Pele macia feita
bundinha de bebê gordo; enfim, um “pêssego”, era essa boneca.
Ana
Lúcia estava agitada, inquieta e muito preocupada. Ia fazer 15 anos e, afinal,
esta data é realmente inesquecível para as mulheres, não é? A mamãe de Ana
Lúcia alugou um salão do tipo e, pelo menos uns dois mil e um convidados
estariam ali, no baile de sua formatura, não só pela “chopeidança e
garapeidoces”, mas, pelo encanto da boneca real que falava, gemia
e chorava.
Sucedeu
que sua mamãe flagrou sua meninota (Ana Lúcia) chorando feito um bezerro
abandonado na Etiópia. Ana Lúcia chorou a noite toda e, eu diria mais: Toda a
noite. Sua mamãe só descobriu isso porque derrubou a porta do seu quarto com
vários pontapés.
-
Minha filha! O que houve? O que está havendo? O que havia ou o que haveria ou o
que haverá com você, meu “pêssego em caldas?”.
Ana
Lúcia desabafa e, sua mãe evita chegar perto dela.
-
Caracas do Caribe, pô, pacas! Hoje completo 15 anos, minha mãe! Muitos colegas
que são colegas dos colegas chegados dos amigos dos meus amigos estarão no
baile. Muitos vão me convidar para dançar e, daí?! Chuleiará tudo.
Sua
mãe tenta compreendê-la.
-
Filhota, você dança melhor do que uma barata tonta dopada de inseticida. Dança
melhor do que as pernas diabéticas da vovó bailarina universais.
E,
Ana Lúcia se irrita.
-
Pode parar, mamãe! Caracas do Caribe, pô, pacas! Eu danço e a dança sabe que eu
danço porque eu danço, mora? Só que, cara, eu não posso abrir a boca que o povo
vaza. Tenho um chulé de boca capaz de matar Joões, Joanas e até Joanetes.
Sua
mãe tenta animá-la.
-
Mamãe acaba de ter uma excelente idéia. Você vai tomar uma ducha universal bem
demorada; depois vai mergulhar nuns perfumes franceses que eu tenho guardado;
vai escovar seus dentes, gengivas e língua e, chupar uma bala de hortelã com
cravo e canela e boa. E, por garantia, te peço: comporte-se no baile. Fique
caladinha, sentadinha como uma rainha. Mantenha-se calada. Não abra a boca. É
claro, você é muito linda (a cara da mamãe) e, a rapaziada vai querer
convidá-la pra dançar. Seja gentil com a rapaziada, filhota. Não dance. Apenas
sorria sem abrir a boca e balance a cabecinha querendo dizer “não”. Entendeu?
Ana
Lúcia se anima.
-
Caracas do Caribe, pô, pacas, meu! Parece que vai dar certo.
Sua
mãe levanta o dedo e dá o último alerta:
-
Lembre-se: Não abra sua boca, pelo amor de Deus.
E,
pelas cinco da tarde começa a chegar à galera. Vixi! Tinha gente demais, sô!
Ana Lúcia ficou comportadinha, sentadinha, como sua mãe lhe ensinou. Então veio
o primeiro rapaz convidá-la para dançar.
-
Aceita dançar comigo, flor das manhãs, tardes e noites?
Ana
Lúcia, sorri sem abrir a boca e balança sua cabeça, dizendo “não”. O rapaz,
bonitão, não insiste. Minutos depois, chega outro rapaz que mais parecia um
modelo de tão belo.
-
Dança comigo, linda?
E
Ana Lúcia repete o gesto ensinado por sua mãe e, aquele “gatão” também não
insiste. Minutos depois vem um gordinho, manquinho e, por sinal, fanho e gago.
-
Ô mofinha, danfa co-comigo sósó uma músiquinha?
Ana
Lúcia ficou imaginando de onde surgiu aquela coisa horrorosa. Repetiu o gesto
ensinado pela mamãe, porém, o gordinho insiste.
-
Mofinha, vamos danfar sósó uma
músiquinha?
Ela
já estava perdendo a paciência. Bastou ele pedir mais uma vez, para que ela
começasse a explodir. Tentou controlar seus nervos, chegou bem próximo da face
do gordinho e disse-lhe baixinho.
-
Eu não quero dançar, entendeu?
O
gordinho fez uma cara de careta dos diabos e teve que dizer.
-
Xiii!! Vofê peidou, né?
E
Ana Lúcia se explode de tanta raiva e grita bem junto a face dele.
-
Não, seu monstro! Eu não peidei.
O
gordinho se apavora.
-
Xiii!! Agora vofê cagou, né?
E
Ana Lúcia sai correndo daquele baile e abraça sua mãe num choro convulsivo. Que
tristeza! Quem sabe Doutor Boa pode ajudá-la, não é?
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