domingo, 6 de abril de 2014

O ESCORPIÃO

Estava brincando debaixo da mangueira, observando as grandes saúvas com imensos pedaços de folhas. Algumas mais fortes carregavam até uma folha inteira de laranjeira. De repente levei um susto: um grande escorpião vermelho parado junto a uma raíz, bem perto de onde eu estava. Dei um pulo desajeitadamente para o lado e quase caí, mas recuperei o fôlego e chamei Junior e Robson:

- Venham rápido! Encontrei um escorpião!
Vieram correndo curiosos. Junior já foi gritando:


- Não deixe ele escapar. Vamos fazer umas experiências!

Escorpião sempre me meteu medo. Ouvia atentamente aquelas histórias escabrosas de que um escorpião podia matar até um homem, que sua picada era das mais doloridas do mundo e era o único bicho que se suicidava. Além disso, havia o mistério, pois eu nunca via um escorpião passeando por aí, como as formigas e abelhas, que também picavam dolorido, mas não eram criaturas capazes de matar ninguém.

A adrenalina corria solta. Seu tom amarelo avermelhado e aquela cauda ameaçadora com um grande ferrão em forma de gancho na ponta nos davam arrepios, mas nosso interesse em observar esse bicho misterioso mais de perto superava nosso medo. Fui logo pegar um pote de vidro para aprisioná-lo.

- Vai logo senão ele foge – Gritou Junior.

Robson que era mais destemido começou a cercá-lo com o vidro e parecia não se preocupar com uma possível picada do bicho. Também, pra quem já deixou de propósito a mão num formigueiro, daquelas vermelhinhas que picam pra valer, vários minutos só pra ver quanto tempo agüentava, um escorpião era moleza. Mas estávamos a quilômetros da cidade, então gritei:

- Cuidado! Se ele picar, já era!

Robson concentrado, nem me ouviu. Não demorou um minuto e a fera já estava dominada, dentro do vidro.

Não cabia em mim de tanta ansiedade. Dava pulos querendo ver de perto.

- Deixa eu ver! Deixa eu ver! – Gritava.

- Calma! Vamos com calma senão ele foge! – disse Robson.

- Vamos levar lá pra dentro. – Ordenou Junior.

Atravessamos o terreiro nos fundos da casa, subimos depressa a escadinha que dava pra cozinha e colocamos o vidro bem no centro da mesa, na sala. Por alguns momentos ficamos ali, nós três embasbacados olhando para o bichinho que agora parecia indefeso, mas ainda assustava quando erguia as patas dianteiras tentando escapar o vidro.

- O que será que ele come? – perguntou Junior.

- Sei lá. Vamos por alguma coisa aí dentro.

E catávamos entusiasmados tudo o que se podia imaginar. Resto de arroz, casca de pão e pedacinhos de folhas. Nada. Até que tive uma ideia:

- Vamos colocar uma saúva!

- Boa! – Robson exclamou

E lá fomos, eu e Junior, capturar uma saúva enquanto Robson tomava conta do vidro, observando em silêncio com a mão no queixo, como era de seu costume. Tivemos o cuidado de escolher uma formiga bem sarada, com aquele cabeção vermelho que botava medo. Seria uma briga boa e novamente corremos para dentro entusiasmados.

Quando chegamos, surpresa; Robson colocara o escorpião pra fora do vidro em cima da mesa e tinha um litro de álcool na mão. Ele disse:

- Vamos ver se ele se suicida mesmo.

- Primeiro vamos colocar a saúva perto, senão já era. – replicou Junior.

Com a formiga na ponta de um graveto e com um medo danado, Junior tentava soltar a saúva em cima da mesa, se esquivando ao menor movimento do escorpião. Quando a formiga se soltou, foi outro tanto de tempo pra apresentar um ao outro. Que coisa! Parecia que não se enxergavam. Finalmente a grande formiga foi na direção do escorpião e este meteu o ferrão na cabeça dela. Coisas da natureza, mas ou o escorpião estava sem veneno naquele dia ou a saúva é imune ao veneno do escorpião, pois a bichinha saiu andando como se nada tivesse acontecido. Dizem que um escorpião mata uma pessoa... Será?

A ansiedade para assistirmos ao suicídio era grande e logo esquecemos a saúva. Robson despejou álcool em círculo de modo que o escorpião ficasse bem no centro e ateou fogo. O bicho ficou parado um tempo, depois andou de um lado pro outro e nada de ferroar a própria cabeça como eu sempre ouvi dizer que ele faria.

A noite caía rápido no sítio e já cansados de observar o escorpião, resolvemos deixar a brincadeira para o dia seguinte, na terra, com lagartixas ou minhocas. Naquela velha casa a luz elétrica ainda não tinha chegado e por isso dormíamos bem cedo. Fomos comer alguma coisa enquanto ainda havia um restinho da luz do dia na cozinha e quando demos conta a noite já havia despencado sobre nós. 

Fechamos portas e janelas, acendemos uma vela e fomos para a sala, apreciar nossa criatura. Robson pingou a parafina derretida sobre a mesa e tentou fixar a vela próximo ao vidro quando de repente a vela caiu e se apagou. Que desastre! Tateando para encontrar a vela, Robson esbarrou no vidro e bleft! O vidro se espatifou no chão.

Nós três, descalços, na escuridão total, ficamos mudos. E agora?

- Cuidado! Devagar! – Sussurrou Junior, como se o escorpião pudesse escutar.

Robson ficou calado e eu nem se quisesse conseguiria falar. Imaginei a cara de Robson no escuro, com um meio sorriso nos lábios e gostando da situação. Fomos nos esgueirando pela parede, tateando vagarosamente até atingir a porta do quarto onde nos jogamos de uma só vez sobre a cama. 

- Cadê o fósforo?

- Ficou em cima da mesa.

E quem era bobo de ir pegar?

Será que ele viria se vingar, nos ferroando enquanto dormíamos? Ficamos em silêncio total, tremendo de medo, tentando escutar o caminhar do aracnídeo até que pegamos num sono nervoso e suado.

No outro dia a vela jazia apagada ao lado do vidro quebrado que serviu de cárcere ao escorpião. Ele nunca mais apareceu por ali. Deve ter fugido com medo desse bando de doidos.


Texto de Fernando Gomes Gonçalves



GALO PODÓLATRA


PODÓLATRA

Podolatria é um tipo particular de parafilia que tem desejo de pés. Em Portugal e no Brasil, um fetichista de pés é normalmente reconhecido pela expressão podólatra. ...


A natureza, sem dúvida, é fantástica. Ela nos surpreende de tal forma que é impossível não admirá-la.
Rufino era um galo diferente dos outros galos. Tinha muito bom gosto. Seu fetiche chegou num ponto que ele ficou vesgo. Eu explico. Adorava demais um pé de galinha. Sim, o galo Rufino era podólatra. Era passar uma galinha por perto dele e, pronto: ela teria que correr porque, se não, Rufino a atacava.
Coitado do galo Rufino! Acordava cedo como todos os galos, mas, numa depressão de nenê que dava pena. Já não cantava mais como antes, aliás, nem cantava. Ele chorava porque sabia que o amor de sua vida seria impossível. Sofria calado e desejava ter dor de dente como outros bichos para ter com o que se preocupar.
Quando o galo Rufino dava uma volta no terreiro, as galinhas, em especial as donzelas, corriam dele. Ele estava de olho esquerdo nuns pés e de olho direito em outros pés. Ele achava inútil ter aquela crista sobre a cabeça. Pra que aquela coisa se as galinhas não os respeitavam mais? Pra aquelas asas pesadas se jamais poderia voar? E pra que aquele bico se não podia beliscar maravilhas gêmeas que, para ele, eram os pés de galinhas?


Quando Rufino via pela fresta da porta, sua dona comendo prazerosamente pés de galinha pensava: “Ela tem bom gosto”.


Certo dia, logo pela manhã, o galo Rufino ficou furioso quando viu de longe, uma de suas galinhas fazendo gracinhas para um pinto, um de seus filhos. O que?! Isso é pedofilia. Pensou. A galinha velha beliscava os pés do pintinho, seu filhinho que já estava entrando na adolescência, na fase de frango. O galo Rufino deu uma surra na galinha velha e no pinto frango. Ele não quis entender que a galinha velha apenas tirava os bichinhos de pé com seu bico do seu filhinho.



Coitadinho do pintinho, gente! O que é que um galo ciumento não é capaz de fazer por amor a uma galinha, hein?




Rufino estava apaixonado demais por uma galinha e, antes de ir pra panela (porque galo que não canta, vai pra panela mesmo) resolveu realizar sua fantasia sexual.
 Daria umas beliscadas nas maravilhas gêmeas, nos pés de Geni, sua dona, que era o grande amor da sua vida.
Pois é, daria, mas, não deu. Geni o pegou pelo pescoço e deu fim no coitado. Que triste sina deste galo, gente! Que final cruel!



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sábado, 5 de abril de 2014

GENTE IMPORTANTE



Estive no meio de muita gente importante. Gente da classe média, da classe alta e, a sensação de sentir-me pequeno foi a pior coisa que conheci em minha vida. Na regra geral, todos me olhavam feio e, isto inclui até mesmo as crianças. Minha presença incomodava a todos daquele finíssimo restaurante da cidade de São Paulo e, fui convidado por um dos garçons a me retirar de lá.
- Retire-se, senhor.
- Por quê?
- Porque este não é um lugar para o senhor.
Eu tinha dinheiro guardado no bolso, mas, o garçom não quis me servir e, nem sequer me ouvir. Preferi não discutir com ele e, de cabeça baixa, saí daquele restaurante. Não sou fumante e também não bebo bebida alcoólica, porém, transpiro muito e meu suor estava insuportável. Entendi que aquele lugar devido o estado em que eu estava, realmente não era um lugar adequado para mim. Sem contar que também não estava bem trajado.
Entrei numa drogaria e perfumaria e, minha intenção era comprar um sabonete, um desodorante, depois pegar um hotel, tomar um banho e, no dia seguinte, seguiria para o meu destino. Osso não aconteceu. Fui barrado por um segurança, dizendo-me que tentei furtar alguns produtos e, minutos depois chega a polícia. Fui muito humilhado. Fui preso. Fiquei tranqüilo por não dever nada e, na delegacia, eu seria liberado após conversar com o delegado. Isso não aconteceu. O delegado titular estava ausente e, só retornaria na semana seguinte. Fui muito mais humilhado quando exigi os meus direitos. Queria simplesmente dar um telefonema e falar com o meu advogado, porém, não me deram esse direito. Divertiram-se comigo, depois me jogaram numa cela de bandidos de todos os tipos e, não preciso contar em detalhes o que me aconteceu naquele inferno por sete dias. Eu só queria entender Deus (que é o grande juiz) naquela hora.
O delegado titular voltou ao ofício e quis falar comigo.
- Sr. Juarez, mas, não consigo entender o porquê de estar aqui. Meritíssimo, o senhor é um juiz e...
Eu simplesmente olhei para aquele delegado com fúria em meus olhos e disse:
- Me de agora o seu celular que tenho duas ligações a fazer.
- Sim, é claro, meritíssimo.
Falei em italiano nas duas ligações e ele não entendeu nada. Depois, era a minha vez de fazer perguntas.
- Por que esteve ausente desta delegacia?
O delegado suava muito e enxugava seu suor com um lenço.
- A cachorrinha de estimação da minha filha adoeceu, meritíssimo e, tive que levá-la para os Estados Unidos, onde existem os melhores veterinários do mundo. Mesmo assim, lamentavelmente, ela morreu.
- Na sua ausência deveria ter um delegado substituto aqui.
- Achei que não seria necessário, senhor.
- Faz idéia de quanto fui humilhado?
Ele baixa a cabeça e não me diz nada.
Quarenta minutos depois daquela ligação que fiz, chegaram os meus homens. Um deles, também juiz de direito como eu e os outros três corregedores da polícia civil. Dei ordem para fechar aquela delegacia e prender aqueles quatro policiais que me prenderam na mesma cela onde fui humilhado.
- Ajoelhe-se e reze delegado, para que Deus tenha piedade de sua alma e também da cachorrinha da sua filha.
Tirei a vida daquele homem. Não era mesmo um bom delegado. Fui até a cela onde estavam os bandidos e os policiais encarcerados, olhei para cada um deles e disse:
- Matá-los sei que é muito pouco pelo que me fizeram, porém, vão morrer, é claro. Vou explodi-los.
Era comovente ouvir seus gritos de socorro. Não queriam morrer, como ninguém quer. Joguei uma bomba dentro daquela cela e todos tiveram uma morte horrível.
Eu e meus homens fomos para aquela drogaria e perfumaria e, prendemos aquele segurança que me abordou. Tirei a vida daquele homem no alto da serra. Não era mesmo um bom segurança. Depois fomos para aquele finíssimo restaurante e, prendemos aquele garçom que me humilhou. Este eu deixei vivo, porém, da pior forma. Nunca mais estará apto para qualquer tipo de serviço, principalmente o de servir. Seus braços e pernas foram mutilados.


Importa muito na vida e para a vida,quem realmente somos.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

MÁSCARAS


Certa vez, entrou em meu consultório um rapaz, aparentemente muito bonito, de nome Cresmaldo Pinto de Jesus Júnior. Preferi chamá-lo de Júnior.
- Bom dia, Júnior! Tudo bem com você?
- Se estou aqui é porque não está tudo bem comigo.
- Qual é o teu problema?
- Eu não tenho mais problemas. Estou morto.
- Isso é pessimismo, menino. Você é jovem, bonito e tem uma vida inteira pela frente.
- Eu sou feio.
- Você quer dizer-me que é feio por dentro?

- Por dentro e por fora, eu sou feio.


Giré, meu Deus! Aquele jovem tirou a sua máscara e, fiquei sem saber o que dizer. Eu podia jurar que ele não estava usando máscara. Era horrível e assustador.
- Então, Dr. Boa, o que tem a me dizer? Seja sincero: sou ou não sou feio?
Ás vezes entendo os mentirosos, porque há situações na vida em que é difícil falar a verdade, porém, fui sincero com ele, já que me pediu para ser.
- Sim, você é feio, porém, tenho coisas lindas para lhe dizer: a beleza exterior não importa. O que importa são os valores que você tem por dentro.
- Não tenho valores dentro de mim.
- Procure tê-los, ora! Isso sim é moral e o que realmente importa para Deus.
- Alguém que mentiu a vida toda e, pior do que isso: abandonou esposa e filhos, é possível que ainda tenha alguma moral?
- Sim. Alguém que mentiu no passado, que abandonou esposa e filhos, sem dúvida, não tinha moral quando fez estas coisas, porém, o pecado traz conseqüências pesadíssimas na vida de um errante. Não pense que este alguém levou vantagem na vida por fazer isso. Só que nunca é tarde para se arrepender e recomeçar uma nova vida.
- Bem, tudo isso que me disse é muito bonito, porém, para mim não serve mais.
- Mas, por quê?
- Você não está morto, querido. Está desempregado?
- Há séculos. Eu sou muito feio.
- Bem, já falamos sobre isso. Já pensou em arrumar um trabalho no mundo artístico para assustar as pessoas, de brincadeira, é claro?
- Isso é ficção. É mentira.
- Não, meu caro. Obras de ficção são arte e, nada tem haver com mentira.
- Então, o que você é?
- Dr. Boa.
- Acaso, está de máscara?
E nós dois choramos muito. Não vi como aquele jovem saiu do meu consultório. Talvez, ele nunca esteve lá.

Somos todos personagens de uma vida mística, onde ninguém, absolutamente ninguém, tem a certeza de nada.



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SEM PRECONCEITOS


Meu nome é Ângela sou loura e, por sinal, muito linda olhos azuis, 25 anos de alegria, tristeza, solidão e agonia.

A história que vou contar a vocês é real e aconteceu comigo. Podem soltar suas emoções e chorar porque isso é bonito e faz parte da vida, meus irmãos e irmãs do mundo todo.


Conheci Jocrésio numa encruzilhada bem no seio de um cemitério num dia lindo de muita chuva. Era dia de finados e eu levava flores para a velha Cudores, minha falecida avó. Eu e Jocrésio nos apaixonamos no ato, ou seja: ele por mim e eu por ele. Nunca tive preconceitos: ele era gago, manco e com o tempo perdeu um olho, além de ter um mau hálito da peste. Quando muito nervoso soava e lamentavelmente também peidava, mas isso é normal. Levei-o para minha casa e o alimentei, pois ele estava muito faminto. Jocrésio e eu nos casamos e o nosso amor era muito lindo.
Meu cheiro era pedreiro.
 Um dia, ele estava no alto de um prédio rebocando quando levou um tombo e desceu rolando abaixo daquele prédio gigante. Sua coluna foi pro pau e por azar ele ficou impotente. Mas nosso amor era lindo e ele tinha mãos fortes e peludas que me faziam um carinho da hora. Meu cheiro passava o dia todo sentado numa cadeira de rodas e eu dava um duro danado para sustentar nossa humilde casinha na favela da Rocinha.
Numa noite de verão bem quente, ele me acariciava quando de repente uma bala perdida invade nossa casinha e se encontra com uma de suas mãos. Não teve jeito: sua mão direita foi amputada, mas ele ainda tinha a esquerda e, o nosso amor era lindo.
Jocrésio adoeceu de vez depois que perdeu aquela mão. Após sérios exames foi constatado que tinha diabetes, câncer do pâncreas e aí danou-se tudo. Como se não bastasse ele ainda ganha uma trombose e suas duas pernas com pés e tudo foram pro pau. Que estado miserável ficou este homem, meu Deus! Sua boca inchou e todos os seus dentes caíram; sua outra mão também foi amputada, mas ele ainda tinha braços, me fazia um carinho da hora com aqueles toquinhos e o nosso amor era lindo. Por tragédia do destino seus braços também foram amputados e, aí danou-se de vez mesmo.
Jocrésio teve três AVC, perdeu outro olho e também a fala, mas ele ainda tinha tórax e o nosso amor era lindo. Veio o diabo de uma ferida em sua bunda e aquilo não sarava nem com reza brava; ganhou uma coceira no ânus e eu tinha que ficar coçando pra ele até que meu cheiro dormisse. Isso era direto. Aquela ferida foi crescendo, crescendo que se multiplicou de certa forma que não teve outro jeito: seu ânus também foi amputado juntamente com o seu pênis e aí danou-se de danar-se de vez mesmo. A ferida se alastrou, comeu o tórax dele, as orelhas e, as narinas, seu pescoço e meu cheiro estava sumindo. Caíram seus cabelos, seus olhos cegos e ele ficou sem face, mas seu coração ainda batia tic tac e o nosso amor era lindo.
Eu não tenho preconceitos, mas o homem ficou sem nada, gente! Até que um dia, seu coração parou de bater e ele morreu. Fiz um pedido no necrotério e fui atendida: deram-me seu coração parado e eu tenho guardado ele até hoje em meu freezer porque nosso amor ainda assim continua muito, mas muito lindo mesmo.


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VIDA DE TRECHEIRO



Vida de trecheiro é triste, gente. Não tem parada e, quando para, logo tem que se retirar da parada e, eu explico por que. Paga um preço muito caro por isso, nas suas andanças. Suas roupas começam a feder devido ao suor de seu corpo e, ele, parando em hoteizinhos de quinta, do tipo ralés, mocós, é expressadamente proibido sequer lavar uma cueca, um par de meias, quem diria uma camisa ou uma calça.
O trecheiro em seu quartinho humilde acende um cigarrinho para se relaxar, pensar no trecho do dia seguinte e, os hóspedes, seus vizinhos de quarto já reclamam do fedor da fumaça.




No dia seguinte, a camareira dopada feito um sapateiro, vai limpar o seu quartinho, passar um paninho e, já protesta:
- Que fedor da peste é esse, menino?



O miserável compra aquelas varetinhas de incenso indiano para perfumar o seu quartinho, mas, o problema aumenta. Perfume na carniça, o padre cancela a missa.



O coitado chega cansado do trecho, às vezes, molhado feito um cachorro na chuva, em seu quartinho, tira suas botas guerreiras e, já vem o porteiro batendo em sua porta convidando-o a se retirar do recinto.

O trecheiro sofre, gente. O chulé domina e predomina e, quando é demais, fede bosta. Catinga macumbeira de primeira. Cheirem para identificar. E o sovaco do trecheiro chega num ponto, que nem sabão de côco, meu irmão. Sua cueca cola no cú feito chiclete na dentadura do vovô e, olhe quem vem vindo lá: o vento. Sim, passou por ali e, rindo, o miserável do vento que levou o fedor do trecheiro, mas, também deixou. É como se fosse o diálogo de dois amigos:
- Vá com Deus, amigo.
- Fique com Deus também, amigo.
Nas andanças do trecheiro, é evidente que ele pega tudo o que é tipo de pereba, principalmente nos pés. Chulé ainda é chique, pior são as frieiras, esporões, rachaduras, joanetes, feridas, olho de peixe e outras. Sua coceira vira sarna. Seu sangue se contamina de tanto comer salgadinhos em promoção. Seu estômago arde mais do que um cú doce no formigueiro. Quando o trecheiro peida, aquele gás vem carregado de frituras das antigas e quando caga então, o ossinho da coxinha entala na privada e aí, minha amada: Pensem num fedor de bosta.
Ninguém quer um trecheiro a seu lado, porque ele é uma espécie assim de fedor ambulante.
Vida de trecheiro é triste, gente.



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quinta-feira, 3 de abril de 2014

O INVISÍVEL

Há muitos mistérios na vida que, talvez, o homem com toda a sua inteligência e sabedoria nunca conseguirá desvendá-los.

Era uma manhã linda de sábado quando um ônibus de excursão saía da cidade de São Lourenço, Minas Gerais com destino a Curitiba, capital do Paraná, com distância de 634 km. No interior do ônibus tinham trinta bundas, ou seja: trinta cabeças contando com o motorista. No meio daquela alegria boba em que ninguém falava o que prestava, de repente, um silêncio total. Todos fazem uma pausa e respiram um ar desagradável. Janelas fechadas, ou melhor: lacradas e, o pior: o ar condicionado do ônibus havia pifado. O cheiro tinha um aroma doce, salgado, amargo e azedo. Aquilo era um peido.



Leandro, o organizador da excursão grita alto para o motorista:
- Pare o ônibus.



O motorista para o ônibus e, Leandro vai bufando de ódio em direção a Aroldo, o gordo.
- Você não tem vergonha de fazer o que fez? Acreditei em você, gordo. Dediquei toda a minha vida numa amizade linda, que agora finda. É você.
E Aroldo regala os olhos.
- Não fui eu.
Leandro, muito inteligente diz:
- Acabou de confessar, gordo. Fora do ônibus.
Coitado de Aroldo. Ficou na estrada e o ônibus segue a viagem. De repente...
- Pare o ônibus.



Leandro vai bufando de ódio em direção a Josiel, um moleque que comia um pastel.
- Fora do veículo, seu moleque atrevido e fedido.
Coitado de Josiel. Ficou na estrada também. E o ônibus segue a viagem. De repente...
- Pare o ônibus.


Leandro vai bufando de ódio em direção a Adala, uma menina que chupava uma bala.
- É você, Adala. Eu esperava de tudo nesse mundo de segredos, menos que você fosse a autora desses peidos. Fora do veículo.
Coitada de Adala. Ficou na estrada também. E assim, Leandro vai expulsando um por um daquele ônibus devido aos peidos, até que fica só ele e o motorista. De repente...
- Pare o ônibus. E Leandro vai bufando de ódio em direção a Batista, o motorista.
- É você Batista. Eu tinha tanta fé que você fosse o cara, o motorista artista, mas, me enganei com meus desejos. Você é o autor dos peidos. Fora do busão, peidão.
Coitado do Batista. Ficou na estrada também. Leandro era quem dirigia o ônibus agora. De repente, ele grita:
- Pare o ônibus.
Ele mesmo para o ônibus e vai bufando de ódio para o banheiro, mas, verifica que lá estava até cheirosinho, limpinho. Olha detalhadamente debaixo dos bancos e não encontra nenhuma sujeirinha. Aquele cheiro fedorento aumentando, aumentando e, Leandro fica agoniado e grita para si mesmo:
- Não peidei! Não peidei!
Sai fora do ônibus para respirar o ar divino e, enlouquece quando vê o ônibus seguindo viagem. Que absurdo, sô! Quem peidou?


 Incrível! Sábios do mundo inteiro afirmam que era Parido Aparecido, o legítimo e inimitável espírito do peido, ou melhor: o próprio peido. Se não for, eu pergunto pra ti: Quem peidou?




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quarta-feira, 2 de abril de 2014

AMOR DE VELHOS


Artrose era uma velha sábia de primeira. Tinha muito bom gosto por sinal. Apesar de tanta sabedoria, não se lembrava mais que herdou uma fortuna de herança do velho Tubérculo, seu pai.






Reumático era o velho da velha Artrose. Eles tinham dois netinhos: Juninho e Joaninha. 





A velha Artrose amava contar estórias para seu netinho Juninho.
A velha sentava o netinho em seu colo e lhe contava estórias:
- Era uma vez uma velhinha muito apaixonada por seu netinho. Ela dava-lhe de comer de tudo, porque desejava vê-lo crescer. E o menininho foi crescendo, crescendo e, cresceu tanto que agora, quem sentava no colo do netinho era sua vovó. Deixa a vovó sentar no seu colo agora, moleque. Acaricie minhas nádegas.
- O que são nádegas, vovó?

- É bunda, netinho.

Reumático, sentadão numa cadeira de balanço coloca a netinha Joaninha em seu colo e também a contava estórias:
- Era uma vez uma menininha muito bonitinha, boazinha, comportadinha que adora sentar no cavalinho de pau do vovô. E o cavalinho pulava e gritava: Up! Iuup!  E a menininha ficava meia assustadinha. Ta gostando, netinha?
- Do que, vovô?
- De sentar no cavalinho de pau do vovô.
- Seria melhor me sentar nas costas da baleia, vovô. Meu bumbum ta doendo.
- Up! Iuup!
Que velhos sem vergonhas, gente! Aquele tipo de amor estava assim, meio cheio de malícias. Isso é pedofilia.
Sucedeu que um dia, Juninho ficou tão nervosinho que deu uma surra de pau em sua avó. Mas, pensem numa surra de pau, gente. A velha era tão sem vergonha que morreu sorrindo e babando. Nunca tinha apanhado tanto assim de pau.
Joaninha também queria se livrar de sua avó. Deu-lhe uma surra de bacalhau. Como assim? O velho comeu tanto, mas, tanto que, não resistiu: seu coração explodiu.
Juninho e Joaninha sabiam da fortuna que iriam receber e só estava esperando os velhos morrerem.

Têm coisas na vida, eu sempre digo, que a gente tem que provar, tolerar, suportar, para depois se livrar e, também herdar, é claro.


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terça-feira, 1 de abril de 2014

NEGÓCIO DA CHINA



Lee era um chinês, por sinal, muito trabalhador, porém, tinha um vício terrível que era o de jogar baralho. A lanchonete que tocava estava falindo, mas, ele tinha uma reserva ainda nas mãos de sua fiel esposa Teng.


Tinha um casal de filhos: Ieun e Iedoi. Um menininho e uma menininha.
Com o passar do tempo, Lee ficou tão viciado no baralho que não queria mais saber de trabalhar não. Não dava mais atenção pra sua linda mulher e, muito menos para seus filhos. Quem se curvava de tanto trabalhar, passar pano no chão, fazer pastel, kibe, bolinho, esfiha, etc., e servir aos fregueses cerveja, suco e guaraná era Teng, enquanto Lee, no bar Brasil, (bem de frente sua lanchonete ficava jogando baralho e tomando umas com seus colegas.


Sucedeu que um dia, entra naquela lanchonete Kicacho, um negrão africano de quase 2 m de altura que, por sinal, falava muito bem português. Muito conversador, sorridente, simpático como um cachorro vira-latas de rua, conseguir conquistar até a amizade de Teng, a chinesa que antes não sorria nem para o dinheiro.
Alguns amigos de Lee diziam:
- Cuidado com esse negrão, Lee.
- E isso aí: ele está de olho na sua mulher.
Lee, não estava nem aí. Seu negócio era jogar e ganhar
Xii! Os filhinhos de Lee e Teng já estavam sentando no colo do negrão e, o povo estava cismado com ele. Tomava todas na lanchonete, comia de tudo e não precisava mais pagar, não. Tudo por debaixo dos panos entendem?
Bem, por falta de aviso não foi: Kicacho, o negrão despertou a chama ardente do coração de Teng e fez um negócio da China; Levou ela e seus filhinhos para Sibéria. Antes disso, Kicacho e Teng limparam até o último centavo de Lee, o chinês do baralho que ficou sem um mísero centavo no bolso. Que negócio é esse China? Perdeu pro negrão, meu!

(Autor desconhecido. Adaptação: Dr. Boa)