MINHA
PAIXÃO POR CURITIBA
Numa
dessas minhas aventuras conheci Curitiba, a capital do Paraná. Eu devia ter uns
18 anos quando conheci esta cidade maravilhosa em todos os sentidos. Nesta,
ganhei e perdi as melhores coisas da minha vida. Conheci muitos chineses e me
apaixonei por suas tradições; um povo trabalhador, honesto, enfim, até hoje não
consigo explicar o porquê de eu me sentir assim tão atraído pelo povo chinês.
Adorei o
clima em Curitiba. Sempre gostei de inverno e lá pude curtir esta estação. Para
conseguir algum dinheiro para lá sobreviver eu pedia na rodoviária, mas aquilo
estava ficando insuportável para mim. Eu tinha que conseguir um emprego de
verdade e viver como a maioria. Com o bolso cheio de dinheiro eu dormia num dos
hoteizinhos próximos à rodoviária e sempre levava junto comigo uma bela garota.
Que saudades!
Conheci
uma lanchonete chinesa e, lá eu adorava tomar cerveja. Mas eu não conseguia
tomar mais do que uma garrafa. Eu não tinha o hábito de beber e era apaixonado
mesmo por café, como sou até hoje. Naquela lanchonete uma moça bastante
acanhada acabara de chegar da China e não sabia falar uma sequer palavra em
Português. Ela ficava olhando para nós brasileiros e, sabe-se lá Deus o que passava
na cabeça desta linda!
Fui
embora de Curitiba mas, prometi a mim mesmo: “Um dia eu vou voltar”. Minha mãe
ainda estava viva e, eu não conseguia ficar longe dela por muito tempo. Mas,
não demorou muito e ela morreu. Então, conheci Rosana e namoramos sério em São
Paulo. Levei ela para conhecer Curitiba e ela também gostou muito da cidade
mas, no dia seguinte partiu para Joinville-SC, sua terra natal que, até então
eu não conhecia. Passei o domingo lá em Curitiba e sentia uma depressão
inexplicável, sabe? Fiquei sentado no banco da Pça Tiradentes e...
Que droga! Que vontade de chorar me deu! Chorei muito, porém, sem saber por que
eu chorava. Talvez porque fazia só dois meses aquele dia (8 de dezembro de
1985) que minha mãe havia falecido, sei lá. Eu precisava estar com minha
namorada. A gente se dava muito bem e, a presença dela, sem dúvida me faria
muito bem naquele momento assim em que eu me sentia tão “down”.
Cheguei
em Joinville-SC (pela primeira vez) no dia 9 de dezembro. Era uma
segunda-feira. Me fez lembrar os tempinhos de escola, meu primário onde eu
fazia lindas composições e, não entendia o “por que” da minha professora rir
tanto. Eu sempre citava “João em vila” e, ela me perguntava: “Que cidade é
esta?” Mas, hoje posso garantir de que ela sabia que eu estava me referindo a
Joinville.
Fui
excepcionalmente bem recebido por Ruth (minha sogra) como já contei a vocês e,
não demorou muito voltei à Curitiba e, dessa vez com minha namorada Rosana. Eu
a deixava num bom hotel e saía para fazer “rapa”, ou seja, conseguir dinheiro
para pagar hotel, comer, etc. Só que ela nem sonhava que eu fazia isso. Como um
bom mentiroso eu inventava qualquer coisa que nem me lembro e boa. Pelo menos,
por pior das hipóteses, poupava ela desta humilhação.
Voltei
sozinho lá naquela lanchonete chinesa e, aquela linda ainda estava perdida,
pois, afinal, não é tão fácil aprender Português, certo? Mas, me aproximei dela
e prometi ajudá-la. Acho que ela me entendeu. Estava grávida na época e, hoje o
moleque já tem mais de 20 anos.
Prometi
pra mim mesmo mais uma vez: “Um dia eu volto”.
Depois
de muitos anos voltei para Curitiba e, dessa vez, sobrecarregado de tantos
problemas. Eu já tinha 4 filhos, sendo que dois deles nasceram em Mogi Mirim
(interior de São Paulo), e agora, praticamente passando fome com minha família
precisava mudar essa página. Feito um vagabundo eu vivia nos barzinhos de uma
Vila lá em Joinville, desempregado e bêbado, apanhando nas ruas, usando drogas
e... bah!! Que nojo desse passado! O proprietário da casa em que eu morava com
minha mulher e filhos estava fazendo ameaças porque queria receber os aluguéis
em atraso e também que saíssemos dali o mais urgente possível. Nesta época,
(nunca mais me esqueço) em pleno sábado pela manhã um carro buzinou e eram dois
homens evangélicos querendo falar um pouco do amor de Deus e... Deixei-os
entrarem em casa e aproveitei contar tudo o que se passava com a gente e, desta
vez não menti e também não fui eu quem foi procurá-los. Não ganhamos nada
naquele sábado além de muita oração. Inclusive eu estava com uma ressaca dos
demônios e não via a hora deles irem embora. No domingo pela manhã não eram
dois, eram três. Odiei quando vi eles no portão e ainda comentei com Rosana:
- Os
crentes de novo, Rosana!
Deixei-os
entrarem e, desta vez fizeram-nos uma surpresa esplêndida:
- Teve
uma festa ontem (sábado) lá na nossa igreja e comentei o problema que vocês
estão passando e...
Ele
passou em minhas mãos um envelope grande amarelo e lá tinha muito dinheiro além
de cartõezinhos de referência de trabalho e tudo o mais. Rosana chorou pra
valer e acho que até eu também. Com aquele dinheiro daria para a gente pagar os
três meses de aluguel em atraso (pagávamos cento e cinquenta reais) e ainda
sobrava muito dinheiro. Ainda concluíram:
- Não
estamos comprando vocês para Jesus porque ele sim já pagou um preço muito alto
por vocês na cruz do calvário. Mas, é como um bolo, amados. Comer desse bolo é
tão gostoso que nossa maior alegria é convidá-los a comer com a gente também.
Quando
viraram as costas e foram embora, foi só clima de alegria em casa.
Eu traí
a Deus. A última coisa do mundo que eu queria naquele momento era frequentar
igrejas e dar a “paz do Senhor” para irmãos. Rosana também nunca foi chegada
nesses lances de igreja. Com aquele dinheiro eu faria muitas outras coisas mais
importantes. Pensei mal. Agi muito mal.
Não
demorou muito eu já estava de volta a Curitiba, dessa vez com boa parte daquele
dinheiro que acabei torrando numa lanchonete dentro da rodoviária. Meu prazer
era beber e jogar conversa fora com amigos que fazia nos botecos. Lá falávamos
de muita música e assuntos assim que vinha em mente.
Prometi
pra Rosana que eu voltaria para buscá-la e, assim viveríamos em Curitiba. E eu
posso jurar que esta era a minha intenção mesmo. Meu dinheiro acabou e achei
que, de repente eu encontraria outro povo evangélico e que tal povo alugaria
pra mim uma casa e assim eu voltaria para Joinville para cumprir o prometido.
Como fui tolo!
A IRA
DOS ANJOS
As
portas se fecharam para mim de tal maneira que me vi em desespero na cidade de
Curitiba. Eu era ajudado, é claro. Mas, o dinheiro só dava para o hotel e meus
gastos do dia a dia. Constantemente eu entrava em contato por telefone com Ruth
(minha sogra) e, dessa vez, eu dizia a pura verdade: “Não estou conseguindo!”
Se ela e Rosana acreditaram nisso, foda-se! Eu não estava conseguindo mesmo.
Dormia às vezes dentro de igrejas e fui humilhado por muitos pastores. Até
mesmo pintou polícia na igreja e fiquei preso. Em Joinville, minha mulher e
filhos eram ameaçados pelo proprietário e sua família e, covardemente ia lá até
mesmo armados. Eu contava tudo isso nas igrejas e só queria uma ajuda. Dessa
vez eu queria trabalhar mesmo e prometia devolver tudo o que me fizessem
naquela ocasião. Não consegui nada. Me revoltei com Deus de verdade e disse a
ele: “Se és vingativo, eu também sou”. Desta vez, eu fazia questão de lograr
crentes evangélicos e com o dinheiro eu passava em boas lojas e me vestia e me
calçava bem além de tomar muita cerveja. Sem querer me defender, mas eu fiz um
pacto com Deus na época: “Se tirar eu e minha família desta maldita situação,
eu vou lhe servir e, se isso eu não fizer, tire-me desta vida”. Nada aconteceu
e hoje eu entendo o “por que”.
Eu vivia
chorando pelas praças, pelas esquinas e botecos da vida. Eu cantava muito,
conhecia muita gente, mas muitos percebiam minha depressão e eu não mentia: “Eu
tenho mulher e filhos”. Contava tudo, sem deixar escapar um só detalhe do que
estava passando. Tudo em vão. Eu precisava de um trabalho, de uma casa e,
aquilo parecia impossível.
Então,
eu caí de vez na vida noturna. Frequentei barzinhos GSL, usei drogas, me
embriagava e vivia feito um porco pelas ruas de Curitiba. Tudo isso me dói
muito só de lembrar. Eu ainda era jovem, muito jovem e estava jogando fora tudo
aquilo que Deus e seus anjos havia me dado. Eu queria adorar o adversário de
Deus, mas nem “ele” queria parte comigo. Hoje entendo isso melhor. Eu precisava
passar por tudo aquilo para entender tudo o que sei hoje. Os anjos tinham total
ira de mim, mas não me levaram.
UMA
GRANDE PAIXÃO
Era mais
de dez horas da noite quando eu estava numa lanchonete em Curitiba (aquela da
rodoviária que funcionava 24 horas). Eu estava totalmente bêbado e, dentro da
lanchonete não tinha banheiro para clientes mas, esse não era o problema: tinha
banheiro gratuito na ……rodoviária. Naquilo que eu ia para o banheiro vi uma
linda moça, mais que isso: uma aera-moça lendo um livro, sentada num dos bancos
da rodoviária. Me sentei num dos bancos perto dela e tentei ganhá-la:
- Moça!
Tô com uma vontade tão grande de chorar! (e eu estava mesmo)
Ela
sorrindo, muita linda e simpática me diz:
- Quer
chorar em meus ombros?
Nossa! É
claro que não pensei duas vezes, pois ela poderia desistir do convite que me
fez. Então, eu chorei pra valer falando um monte de besteiras. Mas, na verdade
eu chorava pela minha vida desgraçada; por minha mulher e filhos em Joinville,
etc.
A moça
me sugeriu:
- Que
tal tomarmos um café no térreo da rodoviária? Primeiro vá até o banheiro, lave
bem este teu rostinho lindo de gatinho “pidão” e...
- Minha
querida! Eu não caio nessa! Quando eu voltar do banheiro você já vai estar
longe daqui.
Ela
ficou brava:
- Vai
fazer o que te pedi?
Fui até
o banheiro e dei uma senhora lavada em meu rosto, deixei meus cabelos bem
molhados e voltei para o banco. Aquela gata (Rebeca mais nova do que eu sete
anos) estava lá me esperando. Ela me pagou um café e não deixou tomar ele com
açúcar...
- Assim
passa esse teu porre, moleque!
- Que
horas você vai viajar?
- Daqui
uns minutos mas, espera aí um pouco.
- Aonde
você vai?
- Espera
um pouco, gatinho?
Nossa!
Ela me dominava só com aqueles olhos lindos! Fiquei ali tomando meu café e ela
me surpreende...
-
Consegui trocar minha passagem para amanhã à noite...
- Sim, e
daí? Você vai voltar para sua casa?
- Não.
Tô notando que você está caindo de tanto sono e, se me prometer que não vai
ficar pensando mal de mim sugiro que fique comigo num hotel.
Eu já
estava pensando naquelas tranqueiras de hotéis e ela, delicadamente não me
deixou falar tapando minha boca com uma de suas mãos deliciosas...
-
Ficaremos num hotel bom e não se preocupe: eu pago.
Que moça
incrível! Que presente era aquele, hein? Não aconteceu nada naquela noite. Me
lembro que adormeci chorando em seus ombros e acordei pelas seis da manhã com
ela me servindo cafezinho na bandeja. Tomei café, comi bolos de laranja e me
apaguei instantes depois. Acordei com uma ressaca insuportável e isso já
passava do meio dia. Almoçamos e ela novamente me surpreende...
- A diária
vence aqui ao meio dia, sabia? Como você estava dormindo feito um gatinho
manhoso tão bonitinho fiquei com peninha de te acordar. Renovei à diária. Que
tal?
- Mas
você vai viajar hoje, não é?
- Eu ia.
Não vou mais. Fui até a rodoviária e troquei minha passagem por dinheiro. Não
se preocupe não! Eu ia por aqui perto mesmo na casa de amigos. Não é nada
importante.
Então,
gente rolou minha melhor transa sexual naquele dia e nos vindouros, sabe?
Ficamos três dias naquele hotel e não me faltava nada. Que delícia de garota
mulher era aquela, meu Deus?! É evidente que eu estava apaixonado por ela.
Nunca nenhuma mulher me fez me sentir um homem como Rebeca. Quero que ela saiba
disso. Ela gostava de ser dominada e eu adorava dominá-la, sabe? Que delícia e
que saudades!
Acordei
no quarto dia sem ela ao meu lado e odiei. Rebeca tinha ido embora sem sequer me
dizer adeus. Desci feito um louco até a recepção daquele hotel e confirmaram:
- A moça
foi realmente embora.
- Mas
ela não deixou nenhum recado?
- Não.
Voltei para
o quarto e chorei feito um bebê de colo odiando Rebeca por ter me usado. Quando
fui sair para as ruas de Curitiba com minha mochilinha a recepcionista me
pergunta:
- Vai
continuar, moço?
- Não.
Estou indo embora.
- Porque
sua diária está paga.
- Está paga?
Então, minha namorada vai voltar?!
- Isso
eu já não sei te dizer.
Que
maravilha! Deixei minha mochila no apartamento do hotel e saí pelas ruas de
Curitiba e agora eu só pensava em Rebeca, a minha paixão verdadeira. Eu tinha um
pouco de dinheiro no bolso e só pensei numa cervejinha
estupidamente gelada naquela hora. Era noticiário por todos os lados
sobre a morte do grupo Mamonas Assassinas. Me lembro bem disso. Retornei para o
hotel só à noitinha e tive uma excelente notícia:
- Meu
amigo, meu perdoa, ok? Sua namorada deixou este envelope aqui comigo e...
acabei esquecendo de lhe entregar.
- Sem
problemas.
Abri
aquele envelope com minhas mãos trêmulas e o que li me fez chorar, mas chorar
de alegria, de satisfação, de prazer, muito prazer mesmo. Ela me escreveu uma
linda carta, sem sequer um erro de Português, com uma letra linda que é só dela
e me dizia que nunca, nem um homem conseguiu satisfazê-la como eu. Ela sentiu
orgasmo pela primeira vez na vida comigo. E era exatamente isso que me
aborrecia com Rosana. Cheguei a pensar que o problema estava comigo por não
conseguir fazer aquela mulher gozar. Como fui tolo! Mais tarde ela teve o
prazer de deixar isso bem claro para amigos, irmãs, filhos e sabe-se lá por
quem mais. Seu prazer não parou por aí: veio me jogar na cara anos mais tarde
que fulano de tal conseguiu fazê-la gozar. Que pobreza de espírito! Quanto será
que ela ganhou por isso, hein? Minhas transas sempre ficavam satisfeitas comigo
e eu sabia disso. Só um idiota impotente não sabe. Mas com Rosana a coisa era
complicada demais mesmo.
Rebeca me
levava às alturas e eu fazia o mesmo com ela. Suas pernas ficavam bambas a cada
relação e ela mal conseguia se levantar para ir ao banheiro enquanto eu ficava
na cama rindo e fumando um cigarro satisfatoriamente. Eu jamais iria perder
esta mulher de vista e, quer saber? Não tinha ciúmes dela. Linda! Muito linda
mesmo mas ela me passava tanta segurança que, jamais algum espertinho iria
fazer a sua cabeça. Eu é que ria deles.
Confessei
para Rebeca parte do drama que eu passava e ela não pode fazer mais nada do que
se lamentar. Só que ela preferiu fazer as coisas de um modo justo:
- Não
quero ser sua amante, gato! Quero ser a sua mulher! Tem certeza de que
realmente pretende se separar de sua mulher?
- É
claro que tenho.
- Então
faça isso.
Mas, até
então, Rebeca já havia me levado para sua terra Rio Grande do Sul, me apresentado
à sua família e tudo o mais. Não podia me ver triste que já bolava lá uns
presentinhos para meus filhos na Páscoa, por exemplo e, fazia isso só para me
ver feliz.
Moramos
em muitos lugares em São Paulo capital e mais tarde fomos parar no interior do
estado, a cidade de Araraquara onde nasceu Amanda, nossa filha que hoje tem 16 anos e deve ser linda e inteligente como sua mãe. Eu me sentia um homem de
verdade em casa. Ela elogiava cada uma das minhas composições e música e me
incentivava sempre. Não iria ficar em botecos sabendo que em minha casa eu
tinha uma “Deusa Indomada” me esperando. Eu adorava irritá-la porque isso me
dava muito prazer de puro sadismo, sacam? Mas, às vezes eu não ganhava o que eu
mais queria e então eu forçava tudo e, no final ficava tudo bem. Fiz pra ela
esta canção:
“DEUSA
INDOMADA”
“Não me
maltrates assim, mal sabes o quanto choro e aos céus tanto imploro pra ganhar seu
coração; me cansei da solidão das noites enluaradas, nelas não tenho você minha
deusa indomada...”
“Judia
de mim este seu olhar tão sério! Por que há tanto mistério no véu desta
miragem?! Feito fera selvagem dominas a minha alma e na imensidão do mar és a
brisa que me acalma...”
“Deusa
indomada, teu cheiro me dá prazer! Queria satisfazer os teus sonhos encantados
e lhe dar um beijo molhado, meu desejo proibido! Quem me dera ser seu dono e
provocar sua libido!”
“Deusa
indomada, veja o céu, tem lua cheia! Quando pisas na areia me encanto ao ver
teus pés! Sou teu escravo mulher, rainha mãe da beleza! A primeira maravilha
aos olhos da natureza...”
UM AMOR
DE VERDADE
Tenho
saudades da casinha que alugamos lá em Araraquara e, o interessante é que quero
contar porque é que escolhi esta cidade para viver. Com certeza vão me chamar
de louco, mas não me importo.
Já
passava da 1hr da manhã e eu estava no Terminal do Tietê (rodoviária de São
Paulo) e fiquei paquerando uma linda moça que estava com sua mamãe, por sinal
muito linda também. Rebeca estava no Rio Grande do Sul, na casa de amigos me
esperando para buscá-la e não sabia o certo onde iríamos morar. Ela só não
queria ficar no Rio Grande.
As gatas
mãe e filha haviam perdido o ônibus (eu adorei) e ficamos batendo um longo papo
e a hora foi passando assim despercebidamente. Eu, pedólatra de carteirinha não
tirava meus olhos dos pés daquela princesa (a filha) que usava umas sandálias
assim, show de bola, sabe? Que pés maravilhosos! Lindos demais mesmo! Fiquei excitado,
mas me segurei, é claro. Fiquei me perguntando: “Será que nesta cidade de
Araraquara é comum esse lance de mulheres de pés bonitos?” Então, mãe e filha
ficaram me contando daquela cidade e não pensei duas vezes e disse: “Vocês vão
me ver lá nos próximos dias. Pretendo morar em Araraquara”.
No dia
seguinte fui para Gramado (serra gaúcha) buscar minha amada Rebeca e contei tudo a
ela. Não omiti sequer uma palavra...
- Ontem,
na rodoviária de Sampa, conheci duas princesas, em especial a filha que me deixou
excitado, pacas! São pés maliciosos naquelas sandálias que me deixaram louco.
Mas, fique tranquila amor! Só estou te falando porque prometemos não esconder
nada um para o outro, lembra?
É claro
que ela ficou tristinha. Mas, não demorou muito e eu já dei aqueles tratos nela
e tudo bem. Eu a amava demais. Dois dias depois fomos para Araraquara e ela
adorou a cidade e eu também. Cheiro de laranja na cidade toda, gente bonita e,
foram os pés mais lindos que já vi em todas as minhas andanças, podem acreditar.
Na manhã
seguinte fizemos amizade com dona Iolanda, camareira e irmã da proprietária do
hotel em que pousamos e, não demorou muito ficamos abrigados na casa dela até
conseguirmos alugar uma casa pra gente. Foi tudo muito rápido. Dois dias depois
já estávamos em nossa casa. Não tínhamos nada, nem sequer uma cadeira e o
dinheiro estava acabando.Rebeca ligou a cobrar para o seu pai no Rio Grande e, o
problema fora solucionado. Muitas coisas ganhamos, outras compramos e assim foi
indo.
Rebeca sugeriu uma ótima ideia. Ela falaria com o Padre da igreja matriz da cidade e
venderíamos pães caseiros nas quartas feira já que tinha novena de uma em uma
hora começando a primeira às seis da manhã e a última às onze horas. Os pães
seriam fornecidos por uma padaria mas, ninguém precisaria saber disso.
Lucrávamos cerca de “duzentos e cinquenta reais” e o real, na época
ultrapassava ao dólar. Juntamos muito dinheiro.
E às
seis da manhã estávamos lá de frente à igreja católica com uma linda mesa
repleta de pães caseiros, pães doces, tortas, quindins, brigadeiros, etc. No
final de cada novena o Padre anunciava aos fiéis: “Não se esqueçam de levar
para suas casas o delicioso pão caseiro dos nossos irmãozinhos Marvin e Rebeca”.
Por sinal, são pães deliciosos. E não sobrava pão, nem nada. Rebeca ia até o
orelhão e fazia um novo pedido na padaria e instantes já parava uma Kombi ali
para abastecer. Ganhamos muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo.
Minha
mulher grávida, cansada, totalmente exausta ainda me preparava uma comidinha ao
chegar em casa e ficávamos relax ouvindo músicas e falando do futuro. Antes
dela se apagar me perguntava:
- Amor!
Você ainda me ama?
- É
claro que te amo, Lair! Eu sempre vou te amar.
Isso era
toda a sagrada noite. Ela não dormia enquanto não me perguntasse isso. Que
galega deliciosa em todos os sentidos, viu! O amor que eu sentia por ela era
real demais. Não sei nem mesmo como explicar isso. Uma criança, menina, mulher,
uma deusa, um anjo, um sonho, tudo! Um amor de verdade. Jamais eu poderia trair
um amor daquele!
Tive a
péssima ideia de vender pães nas igrejas evangélicas também. Que decepção!
Foram as pessoas mais mesquinhas que tive o desprazer de conhecê-las. Achavam
defeito nos pães. Achavam muito caro, etc. Sem comentários mesmo.
O
NASCIMENTO DE AMANDA
No dia
14 de fevereiro de 1997 nasceu minha filha Amanda. Parto normal, correu tudo
bem e aquele anjinho nasceu com a minha cara, só que um pouquinho mais
bonitinha, é claro. Naquela maternidade, Rebeca ainda não havia dado à luz nossa
filha quando uma moça muito simpática me chamou:
- É o
seguinte, pai, vou ser direta: sua mulher é Rebeca, certo? Para que ela
tenha um parto seguro, sem riscos de morte para ela e para a bebê vai precisar
desembolsar certas despesas à parte que a maternidade não cobre e...
Pensei
rápido e respondi:
- Com
certeza. Pagarei tudo o mais que for necessário.
Eu só
queria que minha filha nascesse segura e que nenhum mal fosse causado também
para Rebeca. Só que aquela mocinha otária não sabia que lá fora da maternidade um
cidadão já me deu a ficha de como agiam. Se não assinassem lá um documento (que
não valia nada, puro 171) o parto seria complicado. Então eu assinei mesmo sem
ler. Assim que nasceu Fernanda eu, com a 2 via do documento em mãos disse:
- Estou
saindo daqui para a Delegacia de Polícia e, se caso aconteça alguma coisa com
minha mulher e filha...
Até um
cafezinho me foi servido, gente!
- Pai, o
Sr, está muito nervoso! Não será necessário fazer nada disso! Achávamos que o
parto de sua mulher seria complicado mas não foi. Não nos deve nada e...
parabéns!
Rebeca e
Amanda foram muito bem tratadas naquela maternidade e no terceiro dia fui
buscá-las. Eu tinha reformado um sofá velho (põe velho nisso) que ganhamos em
uma igreja evangélica e, o preço que paguei para a reforma daquele sofá daria
para comprar pelo menos uns dois. Só deram pra gente porque ia pro lixo mesmo e
até fizemos um favor em retirar aquela tranqueira da casa do pastor. Mas
fizemos questão de reformá-lo e convidar aquele picareta (que ficou nos devendo
muito e até hoje não pagou) para tomar um cafezinho em casa com a gente.
Continuamos
vendendo pães e, dessa vez com a pequena Amandinha que era paparicada por
padres e aquela nossa família católica. Como essa princesinha ganhou presentes,
meu Deus!
Passamos
muitas dificuldades. O dinheiro acabara de vez e já não vendíamos mais pães nas
portas das igrejas católicas devido ao mau olhada e vocês fiquem imaginando de
quem.
A
TRAIÇÃO MULTIPLICADA
Quando Rebeca estava ainda grávida de Amanda me sugeriu que eu fosse para Joinville ver
meus filhos. Ela não queria ficar me vendo triste pelos cantos da casa chorando
e o tempo todo pensando neles. Delicadamente ela me disse:
- Eles
são seus filhos, Marvin! São irmãos dessa princesinha aqui que está pra nascer.
Vá lá ver eles. Dá um abraço assim bem forte neles. É nossa princesinha quem
está pedindo isso. Não sou eu.
Fui para
Joinville com mais de quinhentos reais e o combinado era deixar tudo para eles
só garantindo o meu regresso para Araraquara. No caminho, (na viagem) indo para
Santa Catarina me sentei ao lado de um crente evangélico e não sei por que
desabafei tudo com ele. Chorei muito. Chorei muito mesmo e não omiti uma só
palavra. Ele me aconselhou a abandonar Rebeca porque aquilo era uma cilada do
demônio e aqueles papos todos. “Volte para a sua mulher, rapaz! A primeira
mulher é aquela que Deus te deu. Não traia a Deus ou vai querer passar uma
eternidade no inferno?! Quanto àquela que ficou lá no interior de São Paulo
deixe que Deus a ampare. Conserte-se com Deus...” Eu como um tolo não parava de
chorar e, chegando em Joinville reencontrei com Rosana, nosso filho Marcelo e
minha sogra bem no centro daquela cidade. Eu passaria lá o final do ano com
Rosana e nossos filhos. Evitava sequer de pensar em Rebecar grávida que ficara em
Araraquara me esperando...
Rosana
estava muito linda na véspera e, naquela noite ela será só minha e nas
vindouras também, pensei. Depois eu iria me acertar com Rebeca e fim de papo.
Movidos a champanhe rimos muito e até fizemos amor. Foi muito bom para mim,
para ela não sei. Assim que terminou, eu decidido a não mais enganar ninguém
como tinha feito minha vida toda, lhe disse:
- Estou
com uma mulher, Rosana! Ela está grávida e...
O tapa
que levei na cara foi merecido. Ela disse uma grande verdade: “Você está
traindo nós duas!” “Tenho pena dessa infeliz que se uniu com você!” “Primeiro
foi minha irmã, depois sabe-se lá com quem mais...!” “Você é um monstro, cara!”
Ela chorou muito e eu também. Não adiantava eu falar mais nada. Tudo seria em vão.
Tudo o que eu queria dizer ela jamais iria querer me ouvir.
No dia
seguinte, era Ano Novo... quando deixei minha mulher e filhos chorando na
cozinha e dei as costas. Eu queria morrer aquele dia. Eu tinha nojo sequer de
me olhar no espelho. Rosana ainda me insistia para almoçar com eles. Eu não
iria conseguir. Queria desaparecer dali. Queria que Deus abençoasse não a mim,
mas aquela grande mulher que sei que ela é até hoje e sempre foi.
Chegando
em Araraquara, Rebeca estava bordando e, quando me viu saltou do sofá, me abraçou
chorando e me dizendo:
-
Estávamos com saudades! Ei Amanda! Olha aqui quem chegou?!
No mês
seguinte nasceria nossa Amanda. Depois de chorar muito contei tudo o que me
acontecera em Joinville, inclusive que me deitei com Rosana e fiz amor com ela.
Não levei tapa. Antes eu tivesse levado porque era exatamente o que eu
precisava. Mais do que isso. Eu precisava ouvir de seus lábios lindos que eu
era um monstro, um traidor, etc. Ela simplesmente chorou e não me deixou sequer
piscar os olhos. E, olhos nos olhos, ela me perguntou:
- Você
realmente me ama?
- É
claro que eu te amo,Rebeca!
E acho
que a partir daquele dia o amor dessa gata por mim multiplicou mais ainda. Ela
sempre me dizia: “Um dia Má, a gente vai rir de tudo isso. Você vai ver!”
Sr.
Egídio, um homem velho e aposentado era o proprietário da casa em que
morávamos. Ele gostava da gente demais e insistia em suas brincadeiras
verdadeiras quando dizia: “Seu Vicente, as pessoas aí na redondeza de
Araraquara não me param de perguntar: qual é o segredo de vocês viverem assim
tão felizes, hein?!”
Então,
magoado por ter sido um monstro, um péssimo pai eu caí nas ruas e só queria
encher a cara e usar drogas, daquelas bem pesadas mesmo. Eu chegava em casa
embriagado no dia seguinte. Frequentei muitas boates e conheci o que era
putaria de verdade. Rebeca não me odiou por isso. Ainda insistia em me dizer:
“Tudo isso vai passar, Má!” “Um dia vamos rir de tudo isso”.
Lembram
daquelas princesas mãe e filha que conheci na rodoviária de Sampa? Pois é... me
encontrei com a filha nas baladas da noite e dei meu endereço para ela.
Fernanda já estava na creche e minha mulher trampava e eu vagabundeava, essa
era a minha profissão. Foi um dos lugares que mais compus minhas músicas
(saudosa Araraquara) mas eu era um vagabundo e puteiro demais.
Logo
pela manhã chegou em casa aquela princesa com uma roupa assim bem provocante e
eu estava só de sunga tomando sol no pátio de casa com uma Antártica bem gelada
a meu lado...
Fechei
bem a casa e ficamos lá trocando ideias sobre músicas principalmente. Ela tinha
participado recentemente do programa do Raul Gil e... nossa! Aquela mina me
incentivou tanto que não resisti, entende?
Rebeca chegou pelas cinco da tarde com Fernanda e a princesa dos pés lindíssimos já
estava de saída. Rebeca chorou muito aquele dia, mas acreditou em mim: “Não
aconteceu nada”. Foi o que eu disse e ninguém brigou. Eu é que fiquei de cara
fechada e ela acabou indo na lanchonete de frente a nossa casa e marcou umas
seis Antárticas bem geladas...
Rebeca tinha
um violão que era mais meu do que dela. Mas era dela, entende? Fiz uma canção.
Eu estava inspirado demais. Eu precisa compor ao lado da mulher e companheira
que mais amei em toda a minha vida. Poxa! Por que fui traí-la, hein?
Só que
esta composição e música não é só minha. É de Rebeca também:
“QUEM
REALMENTE TE AMOU”
Mulher
Queria
que tu soubesses
Das
noites de solidão
Como
este homem sofreu
Onde
estavas quando teu nome gritei?
Mulher
como eu te amei!
Tu
Nos
braços de outro alguém
Apaixonada
por quem
Nunca te
deu valor
E
lágrimas derramei
Tanta
dor suportei
Acreditando
no amor
Mulher
Queria
que tu soubesses
Das
mágoas de um coração
Que um
dia foi teu
Onde
andavas quando por ti procurei?
O meu
amor era tanto
Que à
solidão me entreguei
Porém
Hoje
confesso estou bem
Não amo
a mais ninguém
O meu
amor acabou
Sei que
agora choras por mim
Mas
tinha que ser assim
Pra tu
saberes da dor
Vá
Há
tantos homens lá fora
Porque
este aqui vai embora
Quem
realmente te amou
Fizemos
esta música se não me falha a memória para o “Rato”, um velho bêbado que a
gente adorava. Sabe aquele tipo de “pau pra toda obra?” O homem quebrou muitos
galhos pra gente, sabem? Não nos pedia nada em troca mas ganhava umas
pinguinhas, é claro. Que saudades do Rato!
Saí
pelas ruas de Araraquara e muitas vezes voltava só no dia seguinte e, lá estava
o grande amor da minha vida que ainda me servia um cafezinho e me amava
loucamente. Eu chorava muito de ódio e de raiva. Eu já era até então um
dependente químico e não poderia me faltar cocaína, a maldita cocaína. Transei
muito no cemitério municipal daquela cidade e me dá nojo só de lembrar. Eu
bebia todos os dias e queria arrumar um pretexto para ir embora da vida de Rebeca e Amanda. Fiquei louco. Completamente louco. A gente não brigava nem assim.
Muitas vezes fiz sexo forçado com ela para ver se ela me odiasse, mas não
adiantou nada. Me lembro que uma vez... passava uma novela com a atriz Eva
Wilma (A Indomada) e Rebeca adorava aquela novela exibida na Globo... a TV em
nosso quarto eu não queria ver novela, eu queria fazer sexo animal mesmo e ela
carinhosamente me pediu:
- Deixa
eu ver o final da novela, amor? Depois a gente brinca. Eu prometo.
Mandei
ela se levantar da cama e desligar a TV e ela me obedeceu e fizemos sexo. Fiz
ela chorar muito naquela sexta-feira em que eu estava completamente dominado
pela droga e pelo álcool. Transamos até às 3hs da manhã e me apaguei como um
porco.
De manhã
acordo e não vi nem Rebeca e nem nossa filha Amanda. No criado mudo um bilhete:
“Amor, bom dia! Fui até a igreja com Amanda mas, deixei o cafezinho pronto, ok?
Promete não brigar comigo, amor! Vem pra igreja também. Te amamos muito! Mal
consigo andar, Ma! Judiou de mim de verdade, meu homem. Vem encontrar com a
gente? Beijão!”
Fui ao
encontro dela e mal conseguia encará-la. Naquele sábado chorei muito. Muito
mesmo. Eu não estava mais suportando tudo aquilo e, quer saber? Por que Deus
foi colocar Lair no meu caminho, hein? Que amor louco era aquele? A gente se
dava bem demais! Ela totalmente submissa e muito mais experiente na vida do que
eu. Aprendi coisas com ela demais!
Rebeca me
chamava de “Meu homem” e, eu adorava isso. Passava a mão na minha bunda em plena
Praça Pública só para provocar outras garotas, aposto. Bastava eu estar triste
para ela inventar alguma palhaçada leonina para eu cair em gargalhadas. Odiava
a ideia de passar o domingo em casa de frente à maldita televisão vendo Gugu,
Silvio Santos e Faustão; raramente perdíamos o Programa do Jô. Até nisso
combinávamos. Ela sabia que eu gostava de frequentar a lanchonete de frente a
nossa casa e até preferia que eu ficasse lá do que ir para as noitadas e voltar
no dia seguinte com cheiro de puta em meu corpo. Ela só me pedia gentilmente
que se lembrasse dela e trouxesse ao menos uma latinha de cerveja. Meu anjo! O
que é que eu fui fazer pra te perder, hein?!
O tempo
foi passando e o dinheiro também acabou de vez. Rebeca aceitou o trabalho de
empregada doméstica e eu ficava em casa com Amanda. Trocava as fraldas da
pirralha, lavava roupas e fazia as tarefas do lar. À tardinha ela chegava e me
encontrava num mau humor dos demônios. Eu não parava de reclamar. Então eu
tirava suas botas e a gente ficava ali na sala tomando umas cervejinhas,
cantando, compondo...
Os pais
de Rebeca sugeriram que fôssemos os três, ou seja eu, Rebeca e Amanda para a
cidadezinha de Criciumal (no cl do Rio Grande do Sul) e lá sim, ele poderia nos
ajudar a começar por uma casa que ganharíamos dele. Nem eu e Rebeca queríamos
saber de morar no Rio Grande do Sul. Então o velho não liberou mais dinheiro e
a situação chegou a certo ponto que não houve outro jeito: levei Rebeca e
Amanda até o Terminal Rodoviário do Tietê (umas cinco horas de Araraquara) e
boa. A pequena Amanda tinha oito meses e fez um escândalo naquela rodoviária
que chamava a atenção de todos. Com certeza ela sabia que nunca mais iria me
ver. Não queria sair do meu colo e entrou no ônibus escandalizando e não
adiantava agrados. Que saudades desta molequinha, viu! Nasceu com a minha cara,
pode?
Mas
combinamos o seguinte. Rebeca tentaria pegar uma grana legal de seu pai e
encontraria comigo em Dourados, no Mato Grosso onde estaria com Amanda me
esperando. Voltei pra Araraquara e comecei a me desfazer de tudo. Vendi todos
os móveis e entreguei a casa para o Sr. Egídio que me lembro ter chorado muito.
Ele gostava demais da gente e idem.
O OCULTO
Não
tenho dúvidas quando o assunto é esoterismo. Não porque li ou alguém tenha me
falado a respeito. Posso afirmar que a vida de cada ser é um mistério. É óbvio
que muitas crendices são frutos da mera imaginação dos crentes, mas não me
prendo a elas. Muitas coisas estranhas ocorrem cotidianamente em nossa vida e,
existem aquelas que vagam sem uma solução definida.
Eu ainda
era um adolescente quando, pela primeira vez entrei num terreiro de umbanda.
Tive muito medo, mas fiquei calado o tempo todo assistindo aquelas sessões de
incorporação de espíritos bons e, alguns ainda sem luz, como me diziam. Fiquei
tão fascinado com tudo que via e ouvia que me convenci a desenvolver minha
mediunidade. Com o passar do tempo já incorporava um caboclo, porém, eu tinha
consciência de tudo, mas omitia isso. Eu não falava como um adolescente e sim
como um preto velho que falecera há muitos anos. Eu acreditava estar mesmo
incorporado, mas na realidade eu mistificava o tal guia que era querido por
todos os crentes daquele terreiro. No passar do tempo, outros personagens
imaginários surgiam e eu era fascinado por isso. Tudo isso acontecia em São
Paulo, capital. Alguns anos depois meus pais se mudaram para Mogi Mirim,
interior de São Paulo e, até então, nunca mais tinha entrado num terreiro ou
incorporado mais guias. Coisas estranhas aconteciam dia após dia. Talvez,
movido pela loucura eu dizia: “Se eu quiser, posso fazer chover”. Eu pegava um
pedaço de pau e rabiscava nuvens na terra e, por coincidência ou não, (não sei)
chovia mesmo. Um dia, tentaram me pegar. O céu estava carregado de nuvens e,
com certeza naquela tarde iria chover. Eu disse: “Não vai chover”. E, naquela
tarde não choveu.
Eu era
tão fascinado por Astrologia que era muito difícil eu errar o signo de uma
pessoa. As garotas ficavam admiradas e, eu, é claro, me exaltava com
isso. Apaixonei-me por Regina (uma canceriana), uma morena gata dos
olhos bem castanhos e dos cabelos bem negros, lisos e longos. Eu queria aquela
garota só para mim e acabou.
Tinha uma
festa na igreja católica e lá eu estava com Regina, suas duas irmãs, meu irmão
caçula... Enfim, nosso grupo dava um total de 12. Até a meia noite teríamos que
levar as meninas de volta para o sítio onde moravam porque senão, o pai dela
viria na cidade, ao nosso encontro com sua espingarda e ele falava sério. Por
volta das 23h30minhs voltávamos por uma longa estrada de terra e, o que mais
havia por ali era cachorros. Qualquer pio ou uma tossinha atiçava a cachorrada
em latidos infernais. Em nossa direção vinha um cavalo branco troteando e todos
nós ficamos imóveis. Eu, querendo aparecer, principalmente para minha adorável
Regina, dominei todos:
-
Ninguém dá um passo. Tem um homem de chapéu em cima daquele cavalo e este homem
é o Diabo.
Ficaram
perplexos, com muito mais medo e continuaram imóveis. Apenas eu fui de encontro
aquele cavalo e consegui assustá-lo. O animal pulou uma cerca de arame farpado
e se afundou num matagal e, eu incorporei num caboclo “Arranca Toco” que, até
hoje não sei como consegui quebrar aquele arame com minhas mãos. Perdi de vista
aquele animal e, ouvia todos me chamarem em tom de muito desespero. Eu não ria
deles, pois eu estava certo de que aquilo que estava acontecendo era real.
Subitamente, minutos depois saí daquele matagal e corria atrás deles como um
louco. O mais interessante é que nenhum cachorro latiu. Lembro que peguei um
latão com um pouco mais da metade de concretos e atirei para o alto. A Guarda
Municipal foi até o local e acabou retornando. Eu dava saltos enormes e, enfim,
muita coisa eu não entendo até o dia de hoje. De onde veio esta força?
Na
realidade eu estava brincando conscientemente com o desconhecido, com o oculto
e, não sabia que, futuramente tudo isso iria me custar muito caro.
O PRETO
VELHO
Fiquei
surpreso com algo que me aconteceu ainda na minha adolescência. Fui até o sítio
onde morava minha adorável namorada Regina e me decepcionei ao ouvir da boca de
sua mãe que ela viajara para Aguaí, também interior de São Paulo, onde ela
nasceu. Iria ficar na casa de sua avó por um bom tempo e, eu, desesperado fui
atrás dela sem mesmo saber de seu endereço. Peguei um ônibus e, ele estava
praticamente vazio pegando passageiros na estrada. Um senhor bem velho, bem
negro, de barbas brancas sentou-se a meu lado e eu odiei aquilo, pois tinha
muitos bancos vazios, oras! Aquele Sr gostava muito de conversar e, nunca mais
vou me esquecer do que ele me falou: “Não brinque com aquilo que você não
conhece, meu filho. Isso pode ser muito perigoso!” Na sequência ele ainda me
diz: “Você está correndo atrás de uma garota achando que ela será sua esposa e,
não será. Daqui a alguns anos você vai se casar com uma loura bem mais alta que
você e esta mulher vai te dar quatro filhos. Terá um ciúmes doentio por você,
meu filho”. Achei que aquele velho estava louco e ignorei tudo o que ele me
disse. Jamais eu iria me casar com uma loura bem mais alta do que eu! Ter
quatro ou mais filhos tudo bem, mas só isso. Naquele dia não encontrei minha
adorável Regina e retornei a Mogi Mirim, completamente decepcionado. Anos mais
tarde, eu ainda brincando com o oculto encontrei num terreiro de umbanda a tal
loura que lá estava apenas visitando o local como eu. Começamos a namorar e
isso era tão sério que meses depois, me casei com ela. Aquele preto velho estava
certo. A loura era bem mais alta do que eu e, tinha um ciúme doentio por mim,
além de ter me dado quatro filhos. O interessante é que conheci essa loura em
São Paulo e ela era natural de Joinville, Santa Catarina e, em minhas
composições de colégio sempre citava tal cidade sem sequer
conhecê-la.
UMA
VIAGEM MÍSTICA
Em São
Paulo, capital, eu ainda era bem jovem, solteiro e adorava a vida noturna.
Lembro-me que estava paquerando um tênis pela vitrine de uma loja de calçados e
uma moça deficiente física me abordou batendo levemente em minhas costas, me
entregando um livro...
- Aceite
este presente, meu jovem. Este livro te fará um bem enorme.
O nome
do livro era Três Vidas e o autor Losango Rampa. Devorei aquele livro com meus
olhos. Sentei-me num dos bancos da Estação São Bento (metrô) e me desliguei do
mundo lendo aquele livro. De repente, um Sr que, calculei ter uns quarenta anos
me abordou e começamos a conversar. Achei que ele era homossexual e, apesar de
eu não curtir sexo com homem, aceitei o seu convite: o de ir em sua casa. Eu
não tinha um cruzeiro no bolso, já estava anoitecendo e eu não voltaria para
minha casa. Também sentia muita fome e muito sono. Não me lembro de quantas
conduções de ônibus pegamos para chegar em sua casa que parecia mais ser uma
mansão. Chegando lá, vi seu lindo carro na garagem e, assim que ele abriu a
porta da sala o que mais me chamou a atenção foi o piano. Ele disse-me para
relaxar, me deu uma toalha e fui tomar um banho. Na sequência jantamos e ele me
mostrou um quarto...
- Você
pode dormir aqui. Está bom para você?
- Está
ótimo. Posso fechar a porta por dentro?
- É
claro.
Fiquei
com a consciência pesada, pois aquele homem não era homossexual como havia
pensado. Na calada da noite, saí daquele quarto porque nele ouvia vozes e fui
importuná-lo...
- To
ouvindo vozes naquele quarto! Posso dormir na sala?
- É
claro.
Meia
hora depois eu posso jurar que aquele maldito piano tocou e, aquela melodia me
deixou confuso e, principalmente com muito medo. Dei um salto daquele sofá e
corri por um longo corredor batendo na porta do quarto daquele Senhor..
- O
piano está tocando sozinho! O que é isso?!
Ele
ficou irritado comigo...
- Você é
louco e está querendo me enlouquecer também, é isso?! Pianos não tocam sozinhos
e, quanto a essas vozes que você anda ouvindo é de sua pura imaginação. Posso
te ajudar te dando um calmante, você aceita? Se quiser ler a bula pode ler, eu
até faço questão. Te garanto que você vai ter uma noite maravilhosa e só vai
sonhar com coisas boas.
Aceitei
o calmante e até me lembro do nome dele: Somaliun. Li a bula e prometi
não mais incomodar aquele Sr. Não consegui dormir e, aquele piano
voltou a tocar e isso já era altas horas da madrugada. Gritei naquela sala e,
dessa vez, o Sr é que veio até mim...
- Acho
que você é louco, meu jovem.
Chovia
muito lá fora e eu queria ir embora daquela casa, só isso...
- O Sr
pode me levar para um hospital? Eu não estou nem um pouco legal.
- Não
vou tirar meu carro da garagem uma hora dessas! Isso vai chamar a atenção dos
vizinhos e...
- Então
me leve até um ponto de ônibus e...
- Não
tem ônibus uma hora dessa, cara!
- Me
leve até um ponto de táxi, então! Aqui eu não vou ficar.
Ele me
levou debaixo de chuva à umas quatro ou cinco quadras distantes de sua casa e,
eu não parava de ouvir vozes. Ele conversou com um taxista e, assim que entrei
naquele taxi, me apaguei. Acordei com seus toques em meus ombros e eu estava de
frente a um hospital sem nome...
- É
aqui, garoto.
Desci
daquele taxi e entrei naquele hospital estranho e, uma enfermeira veio ao meu
encontro com uma injeção dizendo ela ser glicose. Nem sequer me perguntou o
nome, endereço, etc. Tudo aquilo estava muito estranho. A enfermeira me liberou
e, eu estranhei...
- Eu não
teria que passar no médico?
- Não
vai ser necessário. Pode ir embora, garoto.
Saí
daquele hospital sem nome e segui por ruas estranhas querendo ao menos saber
que bairro era aquele. Não parava de chover e eu estava completamente molhado
tentando proteger meu livro Três Vidas. Caminhei por várias ruas e não via
ninguém, nem sequer um carro passava naquele maldito lugar. De repente, meu
coração pulou de tamanha emoção: vinha um Sr todo de branco e, simplesmente
queria uma informação dele; queria saber que lugar era aquele. O homem me
ignorou e continuou a caminhar entrando por uma rua e desapareceu. Naquela hora
comecei a chorar convulsivamente. Eu estava convencido de que estava morto.
Gritava pelas ruas bem alto...
- Alguém
pode me tirar desse lugar?! Eu quero voltar para meus pais! Eu tenho uma
família!
Caminhei
muito e, me surpreendi ao ver aquele taxi e o taxista. Entrei em seu carro e,
jamais vou me esquecer do que ele me disse...
- Não
precisa me dizer nada. Eu sei onde vou te deixar.
Me
apaguei novamente ao entrar em seu taxi e acordei com seus toques em meus
ombros...
- Adeus,
garoto! Sua viagem termina aqui.
Totalmente
sonolento, sem um cruzeiro no bolso lá estava eu num lugar que eu conhecia
muito bem: pleno centro de São Paulo. Conversei com alguns porteiros e consegui
dormir num hotelzinho bem simples. Que lugar era aquele que fui
parar, hein? Quem era aquele Sr e quem era aquele taxista? Isso não foi um
sonho! Aconteceu comigo.
A
CONVERSÃO DE RUTH
Mistifiquei
um guia espiritual (que nem me lembro o nome) para falar do amor de Jesus para
Ruth. Fiz tudo errado. Eu jamais poderia trair esta doutrina linda que é o
espiritismo. Aquele guia imaginário conseguiu convencê-la a abandonar o
espiritismo e, conseqüentemente desfazer de muitos livros da forma que Deus
tocasse em seu coração. Tenho nojo de mim quando me lembro disso.
No dia
seguinte eu e Ruth fomos para uma loja chamada Sebo (compra e venda de livros,
revistas e discos) e de lá saímos com muito pouco dinheiro. Eram livros caros e
muito bons. Mais tarde eu iria pagar por tudo isso e paguei, ou creio que ainda
estou pagando.
Durante
a noite, na sala daquela casa eu amarrava um pano na cabeça, com a luz apagada
e com uma vela acesa eu fazia uma leitura da Bíblia e fingia incorporar um guia
espiritual que falasse de Jesus para Ruth e, creio que ali, no centro de total
hipocrisia e mentira esta mulher se converteu.
Então eu
comecei a visitar igrejas evangélicas com ela e meus quatro filhos. Na
realidade eu estava odiando aquilo, mas nem sei explicar porque fazia isso. Não
imagino Deus como um velho chato que proíbe seus filhos dos prazeres da vida
como ler um livro que não seja a Bíblia Sagrada, assistir um filme, uma novela,
um seriado ou sequer ouvir uma música que não seja evangélica. Não! Deus é
totalmente amor e nos deu o livre arbítrio. Ele não manipula ninguém. A Bíblia
tem que ser lida sim e compreendida antes de sair por aí falando besteiras. Se
eu estivesse errado por que será que existem tantas seitas e heresias
espalhadas pelos quatro cantos da terra, hein? Ninguém pode traduzi-la ao pé da
letra. Isso não faz sentido. Ela foi escrita no passado sendo que o velho
testamento foi escrito em aramaico (hoje, uma lingua morta) e hebraico e o novo
testamento em grego. Não vá muito longe: traduza literalmente o inglês para o
português e veja se vai conseguir entender alguma coisa. A Bíblia é sem dúvida
alguma um livro sagrado, mas é complexo.
Então,
por que vou seguir preceitos religiosos? Quem é o homem para doutrinar? Será
que Deus quer que eu me torne um desses fanáticos religiosos que falam sozinhos
pelas ruas? Que envergonham e escandalizam o seu nome nas praças públicas? Não
posso ouvir músicas de Cazuza (que eu adoro) porque estou cultuando à Satanás?
Isso não faz nenhum sentido.
O PORTÃO
Quando
cheguei de carro com Isa (prima de Rosana) de frente aquela casa (que, até
então eu não conhecia) onde morava a minha família fiquei surpreso ao rever
Tiago, meu caçulinha e, nunca mais ei de me esquecer do que ele me falou.
Disse-me com tanta convicção de que já tinha um outro pai que milhões de coisas
passavam em minha mente perturbada. Tive vontade de agarrá-lo e gritar bem
alto: “Eu sou seu pai e você é meu filho!” Eu não tinha direito algum de
protestar qualquer coisa. A verdade é uma só: Eu abandonei minha família e caí
no mundo e, para reparar tudo isso eu teria que pagar um preço muito caro.
Eu tinha
tal intenção de reverter toda a minha história, mas não consegui. Olhei para
minha esquerda e vi um barzinho e não pensei duas vezes: “Preciso tomar uma
cerveja”. Sim, sou um alcoólatra e isso não é ser fraco, covarde como pregam
muitos. Ser alcoólatra é ser doente.
Não
tirava os olhos daquele portão e, no decorrer dos dias que fiquei naquela casa
que não era e nunca foi minha pude ver muitas coisas naquele portão. Minha
mulher agora estava livre de mim e parecia muito feliz. O que eu poderia falar?
Nada. Se ela estava realmente feliz eu teria mais era que aplaudir isso.
Continuei indo na igreja evangélica com minha sogra e meus quatro filhos e
Rosana na casa de amigos, se divertindo. Ela estava certa. Eu chorava por
dentro com muito ciúmes dela, sabem? Eu queria lhe falar milhões de coisas
íntimas que nunca consegui e penso que ela também. Queria lhe falar
de quando a vi pela janela do prédio em que eu morava em São Paulo e ela estava
linda vindo ao meu encontro e que eu ouvia a música “Forever Young” de
Alphaville na rádio cidade. Foi ali que verdadeiramente eu me apaixonei por ela
de verdade. Mas nada falei.
Naquele
portão, muitas vezes vi ela aos abraços com seu novo marido; naquele portão eu
também abracei uma guria que encontrei numa lanchonete daquele bairro. Eu
continuava protestando e não tinha esse direito. De longe vinha Ruth e meus
quatro filhos vindo da igreja (que aquele dia eu não tinha ido com eles)e acho
que viram qualquer coisa.
Ela,
(Ruth Seger) sofria tanto quanto eu. Hoje tenho certeza disso.
Não
demorou muito para que eu e Rosana discutíssemos em plena madrugada, acordando
assim minha sogra, meus filhos e a baixaria foi repleta. Fiquei com ciúme de
uma provocação que ela me fez e, quer saber? Aquilo que ouvi bastou para mim.
Sempre chamei essa grande mulher de nomes baixos, estúpidos e, de fato ela
nunca foi esse tipo de pessoa vulgar a qual eu definia. Tive um caso com a irmã
dela, foram as noitadas com garotas noturnas do Clube Alvorada, da danceteria
Balança Teta e outros lugares. Eu sim, era o que estava merecendo apanhar da
vida, não ela.
Muitas
vezes chorei naquele portão imaginando como tudo poderia ter sido diferente. Eu
errei muito. Adeus minha família! Adeus Joinville, aqui não é e nunca foi o meu
lugar.
DEPRESSÃO
Cheguei
em Curitiba e pensei firmemente numa possibilidade de crescer, ser alguém na
vida. Não que eu queria mostrar isso para alguém. Eu queria ter o grande prazer
de chegar em meus quatro filhos e contar à eles uma história com “H”, uma
história de verdade. Dizer assim pra eles: “Filhos... tudo o que o pai
conseguiu pra vocês foi muito pouco, mas que tal uma casa com quintal e cada um
no seu quarto?” Para isso eu precisaria trabalhar muito, mas muito mesmo. Não
importa. Eu tentei. Dei muitas aulinhas de inglês em Curitiba e nunca tive
formação alguma. Eu esperava a Biblioteca Municipal abrir para estar no meio de
livros e dicionários repetindo para mim mesmo: “Tenho que aprender e vou
aprender”. Então, eu ia até o 3 andar e lá tinha máquinas de escrever à minha
escolha e eu fazia lindas apostilas. Como eu tinha que pagar hotel e comer, não
tinha condições de divulgar meu trabalho numa emissora de rádio, ou um anúncio
no jornal e, nem sequer dava para eu comprar um celular... então eu
datilografava num papel nome e telefone do hotel e tirava Xerox... recortava
aquelas Xerox e, com o auxílio de durex fazia minha divulgação nos orelhões no
centro de Curitiba. A coisa começou a fluir. Muita gente me ligava e eu cobrava
super barato e chegava lá em suas casas bastante animado. Eu morria de medo que
me perguntassem algo que eu não soubesse. Eu também estava aprendendo.
Mas, a
depressão tomou conta de mim de vez. Eu pensava muito em Fernanda e nos meus
quatro filhos de Joinville; eu chorava quando estava ensinando porque
trabalhava com traduções de músicas que me faziam recordar este meu maldito
passado.
Eu
sentia uma necessidade imensa de beber e era só isso que eu queria. Fazia
palhaçadas com três porteiros de hotéis (um colado com o outro) e eles me
adoravam. Eu só finalizava a palhaçada com muito choro e eles me respeitavam
quando sabiam que o assunto era família. Beber não era, nunca foi e nunca será
a solução para qualquer tipo de problema... mas, fale isso para um boêmio!
Consegui
fazer muitos amigos na época que até hoje os preservo aqui dentro do meu
coração. Eu amo aquela cidade e aquelas pessoas.
Lembro
que certa vez, eu estava num certo bairro de Curitiba conversando com três
senhoras que papeavam no portão e, quando comecei a falar de meus problemas e
que precisava de uma ajuda caí numa crise de choro dos diabos. Chorei muito
mesmo sem me importar se elas iriam me ajudar ou não. Até hoje tenho essas
queridas como minhas amigas. Comecei a tomar medicamentos controlados e me
cansei de terapias com psicólogos. Aquilo não estava me adiantando nada. E,
depois outra: eu não podia beber e isso era ruim demais.
No
quarto de hotel tinha uma televisão que eu não podia nem ver... então ela
ficava sempre desligada e eu ficava compondo lá bem quietinho sem incomodar
ninguém.
Numa
noite bem fria de Curitiba (que eu amo) desci as escadas numa alegria por ter
composto uma música e precisava mostrar ela para meus amigos porteiros...
Eu não
parava de pensar em Lair e, esta é uma das canções que eu mais amo...
ACREDITO
EM MILAGRES
Não faz
muito tempo... eu estava morando em hotel em Curitiba e, acordei num domingo de
manhã com um desejo ardente de ir na igreja. Tomei um banho, fazia muito frio e
do hotel até a igreja católica de Nossa Senhora do Guadalupe é apenas uma
quadra. Vesti um sobretudo e fui assistir a missa das 7horas com o Padre
Reginaldo Manzotti. Chegando lá, tinha côro de jovens cantando tão lindo que
não deu pra agüentar: eu chorei de verdade em ouvir aquela música “Fico feliz”.
Só pensei falando com Deus: “Quando é que eu vou ter um violão para cantar prá
ti também, Senhor?!” Assisti uma das missas mais lindas da minha vida e, quando
eu voltava para o hotel reencontrei um amigo que não via há meses. Ele me contou
suas novidades, que não morava mais em hotel, que estava agora em seu
apartamento atrás da Catedral do Guadalupe, me pagou um café...
-
Marvin, você sabe afinar violão?
- É
claro.
Então
fui conhecer seu apartamento e afinar o seu violão. Feito isso ele me pergunta:
- Você
tem violão?
- Não.
- Então,
você acaba de ganhar um.
Nossa!
Fiquei tão feliz e passei aquele domingo inteiro falando à todos do presente
que Deus me deu. Minha fé só aumentou e muitas outras maravilhas foram
acontecendo na minha vida. Eu amava freqüentar aquela igreja. Saía de lá com o
coração puro. Nem consigo explicar. Sentia uma alegria tão grande de viver! Eu
tomava minhas cervejinhas com meus amigos mas isso não me fazia mal nenhum,
como não faz para ninguém. É tão gostoso você fazer as coisas que gosta!
FATOS
INESPERADOS
Quando
conheci Lair Bender no Terminal Rodoviário de Curitiba posso afirmar que foi
uma das coisas mais extraordinárias que aconteceu na minha vida. Eu era casado
com Rosana, pai de quatro filhos...
Quando saí
de Joinville-SC com destino a Curitiba-PR minha intenção era mudar radicalmente
a nossa história como já mencionei isso. Só que viver me humilhando para
clérigos religiosos não vingou. Eu ficava revoltado porque dessa vez eu falava
a verdade e, me perguntava: “Onde está aquele Espírito Santo” que revela as
coisas? Lá atrás, em Campinas-SP era ele que se manifestava quando eu e Rosana
éramos jovens? Lá, eu mentia e obrigava Rosana a mentir também para que o
dinheiro entrasse, e o dinheiro entrava. E falando a verdade para diversos
pastores eu me encontrava numa humilhação dos diabos. Não adiantava dizer que
meus filhos estavam passando fome e que minha família estava sendo ameaçada
pelo proprietário da casa em que morávamos. Chorei em vão. Nem dinheiro eu
queria. Me lembro de pedir o essencial: “Preciso de um trabalho e de um teto”.
Foi inútil. Então, eu me revoltei de verdade mesmo. Para que alguém me desse um
mísero dinheiro eu tinha que ficar ouvindo uma maldita pregação que me doía os
ouvidos; tinha que parar de fumar porque Deus iria me despachar pro inferno;
minha vida era miserável porque Deus tinha um plano na minha vida; que se eu
não dobrasse meus joelhos eu iria morrer os próximos dias e meu espírito
acordaria no inferno; ou eu aceitava Jesus ou estaria nas mãos do capeta e o
maioral do inferno; que Deus tiraria de circulação um de meus filhos se eu não
aceitasse Jesus, etc. Ouví tanta mediocridade que me enojei de verdade. Então,
como meu dinheirinho era pouco porque me davam por esmola eu torrava tudo nos
botecos e reservava um pouco para vagas de hotéis fuleiros de Curitiba. Então
apareceu Lair e é claro: não contei à ela que era um miserável. Mas, no
decorrer do tempo ela descobriu isso e, ao contrário: se apaixonou de verdade
por mim mesmo. Ela dizia: “Não me importo de morar com você num quartinho dos
mais ralés... qualquer cantinho estará ótimo pra mim se eu estiver à seu lado”.
Lair
morava num convento em pleno centro de Curitiba e era a única a ter um quarto
só pra ela. Gaúcha da cidade de Criciumal estava lá estudando e não pagava nada
pelo local que morava graças ao Padre Anacleto que lhe deu tal
cortesia, mas que ninguém ficasse sabendo, pois os valores de cada quarto
daquele convento eram caríssimos.
Lair não
queria mais me ver em quartinhos fuleiros de hotel. Me levou num dos bairros
mais chiques de Curitiba (Santa Quitéria) e me pagou um mês de pensão numa
senhora de uma residência onde moravam médicos, advogados, etc. Lá eu faria
minhas refeições, teria um quarto só prá mim e poderia também ficar com minha
namorada quando eu quisesse. Então, minha galega estava constantemente lá me
dizendo: “Não estou conseguindo ficar longe de você, meu homem”. Em menos de
uma semana ela se mudou para lá.
A Dna da
pensão era Vera, uma moça nova, bonita mas cheia de mágoas por dentro. Ela não
entendia porque Lair me arrumava para sair. Ela me deixava um gato sabendo que
eu iria até o centro beber com meus amigos e Vera não entendia isso.
Paulo
Cézar Faria (o marido de Vera) era funcionário da Prefeitura e um cara usuário
e também traficante de drogas, mas não sabíamos disso. O casal tinha uma
filhinha chamada Iasmin e a pequena estava sendo mal tratada.
Sr
Francisco era um velho aposentado, vítima de três derrames mas falava com certa
dificuldade e adorava minha Lair. Então, às vezes Lair fazia pratos deliciosos
e convidava Sr Francisco para comer com a gente. Eu e Lair passávamos na
locadora e alugávamos bons filmes e em nossa companhia sempre estava o velho
Chico catarinense.
Um dia,
pressionei Lair contra a parede:
- Pare
de agradar este velho, Lair. Não estou gostando disso.
- Mas,
amor... ele teve três derrames e...
-
Foda-se! Pare.
Ela
ficou triste, mas nos próximos dias me pediu desculpas. Estávamos sem um mísero
real na pensão, porém, no dia seguinte Lair pegaria na Caixa Econômica a
quantia de “Mil reais” e, isso salvaria nosso problema. Então, transamos
gostoso e nem fizemos questão de dormir, ansiosos para que o dia amanhecesse e
fôssemos até o centro buscar a grana no banco. Só que, do bairro Santa Quitéria
até o centro de Curitiba é muito longe. Lair, delicadamente me faz um pedido:
-
Amor... não briga comigo, por favor! Posso pedir emprestado “dois reais” para o
Sr Francisco pra gente ir pro centro pegar o dinheiro?
Frio e
calculista eu só pensei nos “mil reais...”
- Claro,
amor!
E é
claro que o Sr Francisco emprestou sorridente e ainda perguntou se era só
aquilo mesmo que precisávamos. Fomos até o centro e, com”milão” no bolso
(amigos) não tem um que não fique feliz. Passamos nas lojas, compramos um monte
de bobageiras, pegamos nossas fotos reveladas, tomamos um porre de cerveja,
passamos no Carrefour e fizemos uma senhora de uma compra e, tarde da noite
voltamos para aquela pensão de táxi. Chegando lá um silêncio dos demônios. Estavam
todos os hóspedes na sala e Sr. Francisco mal podia nos encarar. Lair mostrava
à ele as fotos reveladas e, de repente... Jeferson, o filho do velho Francisco
aponta o dedo para mim e diz:
- Você e
sua namorada roubaram meu pai e é o seguinte: se a grana não aparecer aqui
agora tenho uns amigos meus da polícia que vão levar vocês num cantinho e já
sabe o que vai acontecer, não sabe?
Lair
altera a voz:
- Não
aponte o dedo para meu namorado.
Jeferson
me humilha:
- Teu
namorado? O que ele é? Um advogado, juiz? Teu namorado é um ladrão.
Então,
meu sangue ferveu:
- Vai
ter que provar isso, cara!
Lair foi
até o banheiro e, lamentavelmente perdeu o filho num aborto. Choramos muito
abraçados depois desse fato e, Jeferson totalmente frio (que nem lá morava) não
parava de perturbar a gente...
- O
tempo está passando. E o dinheiro do meu pai vai ou não vai aparecer? Foram
“duzentos reais”.
Lair
pegou o telefone e chamou sua advogada, por sinal gaúcha também. Por telefone
mesmo adiantou o assunto e em menos de meia hora lá estava ela com seis carros
da polícia civil de Curitiba. Eu abraçava Lair em nosso quarto e tinha muito
medo...
- Lair,
sem documento, desempregado, sem rendas... eles vão me prender.
- Não
vão te prender. Vão ter que me matar primeiro! Eu te amo!
A
advogada falou poucas e boas para esse tal de Jeferson e ele teve que ficar
quietinho até que ela terminasse o seu discurso. Me lembro de algumas coisas
que ela falou:
- A
acusação que o Sr está fazendo é muito grave e isso pode lhe custar caro. Está
acusando meus clientes e pode ser processado por isso.
A
advogada perguntou pra gente:
- Tem um
outro lugar para vocês ficarem? Sim, arrume suas coisas e vamos para um local
seguro.
Vera (a
Dna da pensão) não concordou...
- Mas
eles me devem e...
- A
senhora, quem é?
- Sou a
Dna da pensão.
- Então,
cale a tua boca que já vai me ajudar bastante. Procure seus direitos em
pequenas causas, ok? Faz isso amanhã e...
Vera não
parava de falar...
- Cale a
tua boca, mulher!
Que
advogada, meu! Arrumamos nossas coisas e fomos com a advogada para um dos
melhores hotéis de Curitiba. Chegando lá choramos muito. Mas muito mesmo.
Choramos pelo filho que ela perdeu; por tudo o que estava acontecendo com a
gente; de sermos acusados como ladrões, etc.
- Vamos
embora dessa cidade, amor? – Lair odiou Curitiba naquele momento.
- Claro!
Vamos embora daqui.
No dia
seguinte, tínhamos muito a fazer. Eu e Lair fomos até a biblioteca municipal e
reviramos livros e mais livros sobre estatutos da criança, abusos e outras
coisas. Ela escreveu uma linda carta para Sr Francisco e que carta, viu! Me
lembro que, revoltada ela jogou o dinheiro que devia para aquele velho que ela
gostava tanto.
Era
exibido na época um programa policial na rede CNT e o apresentador Alborghet
era um homem porreta. Tínhamos em mãos cartas, Xerox e fizemos uma denúncia da
tal pensão. Antes de sairmos de lá, tivemos o prazer de saber que Iasmin foi
recolhida pelo Conselho Tutelar...
Fomos
para São Paulo e, dias depois Lair foi para o Rio Grande do Sul. O dinheiro
estava acabando e ela ia buscar mais com o seu pai. Mas, para me manter ainda
tinha.
Por telefone fiquei sabendo
quando liguei para Curitiba que Paulo Cézar Farias, sua mulher Vera e mais um
irmão foram presos depois de incendiarem um posto de gasolina. Na prisão
confessaram até sobre o roubo de Sr Francisco. Que vitória! Eu precisava contar
isso à minha princesa Lair e depois tomar muitas cervejinhas. Foi nessa noite
que conheci aquelas gatas mãe e
filha de Araraquara, lembram?
AINDA NA
ADOLESCÊNCIA...
A adolescência
me traz boas e péssimas recordações. Acho que isso acontece com todo mundo. Com
14 anos eu me sentia um homem realizado e cheio de sonhos. Um garoto falante,
queria saber de tudo, conversar com pessoas mais velhas para sempre aprender
algo novo. Não suportava jogar bola ou empinar barrilete como outros moleques.
Gostava mesmo era de ler, escrever, ouvir muitas músicas e cantar. Nessa época
me apaixonei por Maria Goretti. Eu ia na missa aos domingos de manhã só pra ver
aquela linda morena de cabelos tão lisos e negros como uma índia. Mas ela era
muito linda mesmo. Me esnobava. Eu morava na Rua Antônio João, 306 fundos e ela
na mesma rua no número 173. Só que a casa dela era chique, tinha até garagem.
Eu passava direto lá na frente da casa dela e ficava olhando para ver se a via.
Dei muita bandeira. Comprei um compacto duplo dos “Bee Gees”, escrevi uma
cartinha e chamei meu irmão caçula Fernando que tinha na época uns 7, 8 anos...
-
Entrega pra Goretti esse presente?
E ele
foi até a casa dela entregar o disquinho com a minha cartinha. Então, fiquei
ansioso para saber o que ela tinha achado do presente e, num domingo depois da
missa segui Goretti e perguntei tímidamente:
- Gostou
do presente, Goretti?
- Por
que não me entregou pessoalmente? Odeio que fiquem mandando presentes e
cartinhas pra mim.
Nossa!
Que fora levei daquela gata mau humorada. Ninguém gostava dela por ser muito
patricinha e metida, nariz empinado... só eu mesmo. Que paixão doentia eu tinha
por essa moleca que tinha a mesma idade que eu.
Nessa
época eu comecei a trabalhar na Coloman como Office boy, depois na Bússola e,
não tirava ela do meu pensamento. Sua irmã Elaine (um tesouro) na época tinha
21 anos e a gente pegava o ônibus juntos quase todos os dias. Lembram da Tina?
Personagem do desenhista Maurício de Souza? Elaine lembrava muito a Tina com
sua elegância e aquele óculos que eu achava um charme.
UM
BOÊMIO QUE SEMPRE ACREDITOU EM ANJOS DA GUARDA
Anjos Cabalísticos - IERATHEL
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O Anjo: Este anjo ajuda a confundir os conspiradores, protege contra
as pessoas que nos atacam judicialmente, interfere na propagação das luzes
e na libertação da sociedade.
Influência: Quem nasce sob esta influência deste anjo, é
inteligente, equilibrado e maduro. Consegue equilibrar seus instintos
individuais aceitando, sem necessariamente segui-los, os conselhos e
demonstrações de carinho de todos. Tem forte iniciativa e perseverança, sua
vida clara e plena de alegria, sustenta uma aparência nobre e refinada.
Terá proteção contra qualquer tipo de força negativa e seu poder de ação é
invencível. Fará tudo de modo lúcido e ponderado, por isso, suas
iniciativas geralmente o levam ao sucesso. Terá uma enorme capacidade para
conhecer o futuro, seja através dos oráculos, sonhos, projeções, reavaliando
constantemente suas atitudes. Será defensor das ciências e das artes e
mobilizará um grande número de pessoas por um ideal. Será um ser harmônico
com plena visão e compreensão do mundo.
Profissionalmente: Poderá fazer sucesso como escritor,
jornalista, assistente social ou qualquer atividade ligada à cultura e
lazer.
Anjo Contrário: Domina a ignorância, a intolerância e a
violência. A pessoa sob a influência deste anjo contrário poderá ser um
defensor de sistemas autoritários, apoiando a exploração do trabalho
escravo. Poderá praticar atos bárbaros e viver num mundo utópico e
inacessível.
Categoria: Dominações
Príncipe: Tsadkiel
Protege os dias: 15/04 - 27/06 - 08/09 - 20/11 - 01/02
Número de sorte: 11
Mês de mudança: novembro
Carta do tarô: A força
Está presente na Terra: de 8:40 às 9:00 da manhã
Salmo: 139
Texto extraído dos livros Anjos
Cabalísticos e A magia dos anjos cabalísticos de
Monica Buonfiglio
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FALTA CORRIGIR ESTE TEXTO
PERDOEM OS ERROS
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