segunda-feira, 7 de abril de 2014

CHICO ANÚ



Chico Anú era um velho sertanejo, trabalhador de primeira. Apesar de ser analfabeto, era muito inteligente. Ninguém era capaz de enrolar o velho não. Trabalhava por conta própria, capinando matagais em terrenos baldios, cortando gramas de jardins, enfim, para o velho não tinha tempo ruim, não. Expulsou de sua casa sua velha e seus oito filhos por não pegarem na enxada como ele; queriam viver assim, numa vida mansa, boa, tranqüila e serena, compreende? O velho Chico Anú meteu o pé nas bundas deles logo pela manhã, ao cantar dos pássaros.
O velho Moisés era um rico fazendeiro, miserável, gostava de explorar os outros, não pagava ninguém, principalmente, Chico Anú, que de vez em quando, prestava serviços a ele.




Chico Anú morava sozinho, isto é, com sua criação de galinhas e Carniça, sua cadelinha sarnenta que latia até pro vento.

O velho Moisés tinha um trabalho para Chico que, andou cerca de 50 km até chegar à mansão do miserável. O velho Chico tava amarela feita a gema do ovo de tanta fome. “Que bom! Cheguei bem na hora da bóia”. Pensou ele. Bóia?! Que bóia? O velho Moisés veio lhe atender no portão, e o miserável palitava seus dentes.


- Chegou cedo, velho! Tem café? Quer café?


Chico Anú queria mesmo era um prato de bóia, mas, pra não fazer desfeita, aceitou o café. Vixi, Nice! Que imundície de café ruim era aquele? Frio, fraco, fedido e, no fundo da caneca, cheio de formigas. Por pouco aquele café não voltou pela goela do velho Chico. E o miserável do velho Moisés ainda pergunta para Chico:


- Quer mais café? Tem mais café. Vai querer mais café?


O velho Chico responde sério.


- Não. Muito obrigado.


O velho Moisés bate uma de suas mãos noutra e diz.


- Bom, velho, o café tava bom, a conversa também, mas, vamos trabalhar, não é? Só nenê é que não trabalha. Tem um terreninho aqui pertinho, dá pra não dar muito uns 8 km; quero que tu me deixes aquele cabeludo careca, velho.


Chico Anú não entende.


- Que cabeludo?


O velho Moisés dá um arroto dos altos, solta um peido e diz.


- O terreninho, velho. Virou uma floresta lá dentro dele, entendestes?


Chico Anú sorri.


- Sim. Vamos lá ver então o tal terreninho.


O velho Moisés solta uma gargalhada sem graça e diz.


- He! He! Que Mané vamos, velho? Só quero ver aquela imundície quando estiver careca. Mesmo que eu quisesse levá-lo até lá, não da. Os quatro pneus do meu F1000 estão furados. Mas, te ensino como é que tu chega lá. Vai toda a vida reta. Toda a vida entendeu? Na tua esquerda, do lado de lá, tem uma plaquinha que diz assim: “Propriedade de Moisés Brandão”.


O velho Chico Anú fica preocupado.


- Mas eu não sei ler. Tu sabe disso.


O velho Moisés solta mais um arroto e diz.


- Não será necessário ler nada, velho! A plaquinha é azul. As cores tu conhece, não é?


Chico Anú diz.


- Sim.


- E outra: passa muita gente de carro, caminhão e perua doida pra dar uma carona pra alguém. Tu vai ver velho. Vai andandinho e vai nessa. Já foi?

E Chico Anú segue por aquela estrada deserta. Nem carona, nem caroninha. Aquele lugar era esquecido. O sol rachava de tão forte, capaz de avermelhar até uma bunda coberta. Coitado do Chico!


Vixi, nossa! Sai da fossa! Chico Anú pensou em desistir quando viu o tamanho daquele terreno cabeludo. Era grande demais e os matos faziam até curvas. Como Chico Anú era um velho porreta, descendente de avô índio, encarou o serviço. Seu chapelão de palha tava ao ponto de incendiar em sua cabeça. Que sede, Pedro Simão da rede! Naquele lugar não havia casas, não! E a sede quando vem não há nada que ela mais deseje do que a água, não é verdade, sô?


Chico Anú capinou o matagal das duas da tarde até as sete da noite e ainda tinha sol. Com sua enxada nas costas voltou por aquele estradão a fora na esperança de pegar um vale com o velho Moisés. Chegou lá com calos aflitos em seus pés cansados e sofridos. Fome?! Ele tava branco feito um miolo de côco. O miserável do velho Moisés vem lhe atender palitando os dentes.


- Velho Chico Anú, se tu tivesse chegado cinco minutos antes tu ia comer um peru, Jesus! Os últimos pedacinhos, minha esposa deus pros cachorrinhos. Mas, tem café. Quer café?


Chico Anú mal podia falar de tão cansado e faminto.


- Não. Só um pouco d’água, ta bom.

E aquele miserável grita, chamando sua mulher.


- Maria! Ô Maria! Maria!


E a velha Maria vem correndo pensando que algo de ruim estava acontecendo.


- O que foi? O que foi?


E o descarado, nojento e sem educação do velho Moisés solta um peido e diz.


- Traz uma aguinha pro velho Chico.


A velha Maria fica com pena do velho Chico.


- Coitado! Ta tão amarelinho! Aceita um cafezinho?


Chico Anú estava ao ponto de mandar aquele casal pro inferno, mas, foi educado.


- Não. Somente um pouco d’água.


E a velha Maria insiste.


- Mas, depois da água, aceita um cafezinho?


‘ROINNC’, a barriga de Chico ronca.


- Não, Dona Maria. To com muita fome. O sol já te se pondo e eu preciso ir embora porque minha casa fica muito longe daqui. Amanhã, vou trazer pro serviço uma marmitinha e...


Opa! Parece que o velho Moisés tinha um pouco de generosidade, gente.


- De jeito nenhum! Amanhã, tu vai almoçar mais eu e Maria e, não se fala mais nisso. Chegue aqui ao meio dia em ponto. Não chegue atrasado não por causa dos cachorrinhos, entendestes?


E Chico Anú foi se embora. Coitado do velho, gente! Teria que andar mais 50 km até chegar a sua casa e, o pior, não era só isso. Carniça, sua cadelinha devia estar com uma fome daquelas. Depois de quase duas horas de caminhada, finalmente, Chico chega a sua casinha. A cadelinha Carniça latia até fino de tanta fraqueza. Estava com uma fome da peste. Chico ficou comovido de ver.



- Ô minha filha, Carniça! Eu faço ideia da fome que tu ta sentindo porque eu também to. Papai vai fazer uma bóia pra gente, certinho?


E Chico Anú deixa o galo viúvo de uma das galinhas e seus pintinhos órfãos. Que natureza triste, sô! A coitadinha da galinha tava dormindo e acordou para ser estrangulada. O resultado deu num panelão de canja de galinha com batatas que matou a fome do velho e de sua cadela sarnenta.


No dia seguinte, logo pela manhã, o galinheiro estava de luto. A galinha Cocorocó era querida pelo galo e por todos os pintos. Fazer o que, né? O velho Chico Anú encheu o pote de Carniça de canja de galinha e disse:


- Essa canja tem que durar até a noite, entendestes?


O velho pega sua enxada e segue a estrada, calculando chegar até o meio dia na casa do velho Moisés. Coincidências existem, creiam. Chico Anú chegou lá na mansão do velho ao meio dia em ponto e já estava com muita fome. Tocou o interfone e ficou aguardando.  Deu meio dia e meia e nada. Vixi! Cadê Moisés, amados do Egito? Deu uma hora da tarde e nada. Chico Anú amaldiçoou tanto esse miserável do velho Moisés, gente! Com certeza, não tinha ninguém naquela mansão. Chico Anú teria que andar mais 8 km e o pior que não trouxera a bóia. E ele segue resmungando, com sua enxada nas costas. O sol gozando o seu calor e mais um dia de trabalho seria cumprido e comprido, com certeza.


Na boca do crepúsculo, Chico Anú chega à mansão do velho Moisés. Toca o interfone e, dessa vez, o miserável estava em casa. Veio atender Chico, palitando os dentes, como sempre.


- Velho Chico, tu não morre mais, visse? Eu mais minha velha tava falando de tu, agora.


Chico Anú parecia estar zangado.


- Pois é, Moisés, conforme o combinado, estive aqui hoje ao meio dia em ponto. Parece que tu não estava em casa.


- E não estava mesmo, velho! Um dos meus cachorrinhos ficou doente de tanto que comeu e tive que levá-lo ao veterinário, entendestes? Maria foi comigo. Mas, o importante é que o bichinho passa bem e, nossa! Ocê ta amarelo, velho! Quer café? Aceita um café?


Chico Anú foi direto.


- Não quero café, não. Amanhã, teu terreno estará careca. Que horas passo aqui pra receber?


O velho Moisés da uma de bobo.


- Receber? Sim, é claro. Tu vai receber só quando os bancos saírem da greve, amado velho! Mas, veja bem, dessa vez é pra valer: amanhã, quero que tu esteja aqui ao meio dia pra almoçar mais eu e Maria.


Chico Anú sorri.


- Pode esperar que eu estarei.


E Chico Anú foi se embora rindo feito uma besta. De certo era o sol, o cansaço e a fome que deixaram ele assim meio bobo. Chegou a sua casinha e repetiu a mesma rotina da noite anterior. Matou desta vez, um franguinho e fez dele a moda a passarinho; fez um panelão de feijão e arroz misturando tudo junto e acrescentou farinha. A cadela Carniça comeu tanto que vomitou e comeu até seu vômito. Vixi! A comida estava gorda dessa vez, hein?


Na manhã seguinte, silêncio total no galinheiro. Coitadinho do Crói, do franguinho boy! Ele era tão jovem! Tinha uma vida inteira pela frente, gente! Mais um pouco e ele seria um galo. Fazer o que, né?

 E lá vai o velho Chico Anú que, dessa vez, já foi preparado: levou consigo um marmitão completo para o serviço e mais um garrafão d’água. Nem passou na mansão do velho miserável Moisés. Caprichou no serviço e fez isso cantando, gente! Com a barriga cheia, realmente, se trabalha melhor, não é mesmo? Voltando pra casa, à noitinha, mesmo sabendo que não ia receber nada do velho Moisés, devido à greve bancária, passou lá só pra dizer pro velho miserável que o trabalho estava pronto. Tocou o interfone e lá vem o praga lhe atender, desta vez, sem palitos.

- Mas, tu é mesmo um velho tratante, descarado e sem palavras, hein? Eu mais minha Maria te esperamos aqui até as duas da tarde. Tu disse que vinha, não vinha? Por que tu não veio, “véio?”


E Chico Anú responde sorrindo.


- É que eu estava sem fome.


E o velho Moisés estava nervoso.


- Mas, aí tu me tirou e minha velha pra palhaço. Pra não fazer desfeita, janta com a gente?


Chico Anú responde sorrindo.


- É claro.


Que maravilha! Tinha bacalhau com batatinhas. Chico comeu tanto que ainda levou um panelão para sua casa. Só que, antes teve ouvir do velho Moisés.


- Velho Chico, eu lhe conheço há tantos anos e, por essa, eu não esperava. Tu ta usando drogas, “véio?”


Chico Anú pede licença, solta um peido reforçado e diz.


- Claro que não, velho Moisés.


E o velho Moisés pergunta.


- Por que diabos tu não para de rir? Ou será que tu ta ficando louco?


E Chico diz.


- Pois é, Moisés. Deve ser o trabalho que é muito duro. To indo nessa e se me permite, posso soltar mais um peido? Será o último de hoje.


E Chico Anú volta para sua casinha e, dessa vez, não assassinou nem mais uma galinha e nenhum franguinho. Tratou de Carniça, sua cadelinha, e foi dormir assoviando de tanta alegria. Será que estava ficando “gagá?”


Uma semana depois, fim da greve bancária, ele vai até a mansão do velho Moisés pra receber. Xii!! Foi aquela enrolação, sabe? Desculpas de caloteiros. Chico voltou lá várias vezes e não recebeu nada do velho Moisés que sempre dava uma desculpa diferente.


A velha Maria estava preocupada.


- Moisés, tu não ta achando estranho a paciência do velho Chico? To pra lhe dizer que ele deve ta armando uma pra gente.


- Deixe de ser besta, mulher! Aquele caipira mal sabe armar uma rede. Vou matar ele pelo cansaço, tu vai ver. Uma hora dessa ele desiste de vir aqui pra receber o que nunca vou lhe pagar.


E Maria, porca, tira um catarro do seu nariz, esfrega na parede e diz.


- Jó perde pra ele na paciência. O velho Chico ta muito tranqüilo, pro meu gosto.


Vixi! Chico Anú era inteligente demais, sô! Como pode? Um velho analfabeto daquele, descobriu que a mansão e todos os bens do velho Moisés estavam empenhoradas na Justiça. O velho Moisés devia até pro juiz Luiz, sô. E, peraí! O velho Chico Anú comprou toda a dívida do velho Moisés. Mas, como? Ele nem sequer jogava na loteria, Maria!


Numa bela manhã, Chico Anú chega à frente da mansão que era do velho Moisés, num caminhão da justiça para fazer o despejo. O velho Moisés e a velha Maria pulavam, babavam e peidavam querendo unicamente saber como é que aquele velho pobre arrumou tanto dinheiro para comprar todos os seus bens. Chico Anú, para tranqüilizá-los diz que revelaria o tal segredo após um ano. Que suspense, gente!


Após um ano, o velho Moisés, mas sua velha Maria, chegam lá na mansão do velho Chico. Quem vem atendê-los é cadelinha Carniça, que desta vez, estava sem sarna e muito bonita. E, atrás vinha Chico Anú, palitando seus dentes.


- Quanto tempo, Moisés e Maria! Vieram me pagar?


O velho Moisés chora.


- Me perdoe Dr. Chico. Não lhe paguei porque não tinha dinheiro.


Desta vez, foi a vez de Chico humilhá-los.


- Querem café? Aceitam café? Tem café. Vão querer café?


E o velho Moisés responde.


- Não querido, Dr. Chico. Só queria saber como é que a tua vida deu essa guinada assim, tão de repente.


E Chico Anú explica.


- É simples. Eu caminhava 50 km daquela minha casinha onde eu dei pra vocês por misericórdia, até chegar aqui neste palácio que agora é meu, certo? Daqui caminhava mais 8 km pra chegar lá naquele terreninho abençoado que agora também é meu, certo? Fiz isso por três dias, indo e vindo e, vocês me fazendo de bobo. Passei muita fome. No primeiro dia de capinada, pensei que ia desistir, mas, não desisti. Valeu à pena, porque hoje, tudo isso é meu.


- Mas, como?!


E, finalmente, o velho Chico Anú resume:
- É que no segundo dia de capinagem, achei um tesouro. Dentro dele tinha ouro, diamante, prata, rubi e tudo quanto é pedra preciosa. Troquei tudo por dinheiro e passei a conhecer só gente poderosa. Falaram pra mim do sufoco da tua dívida com a justiça e eu comprei tudo. Hoje tenho prédios, fazendas pelo mundo todo. Mas, com toda a educação do mundo, quero presentear vocês, pois, afinal, hoje sou bilionário. Aceitam um presente?


Coitados! Acharam que o velho Chico ia devolver a mansão pra eles, já que era agora um bilionário. Virou as costas, baixou a calça e soltou um peido bem vitorioso e disse:

- Cheirem meu gás, seus animais!


Vixi, sô! E aí, danô! 



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domingo, 6 de abril de 2014

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO


Arlindo Orlando e Marineide Leite viviam um romance daqueles de cinema. Quando o amor é lindo, a gente tem é mais que ficar sorrindo feita uma besta quadrada. Pra que chorar como um nenê gordo que só pensa em tetas?
Arlindo Orlando se casou com o grande e único amor de sua vida: Marineide Leite. Foi um casamento lindo, porém, simples.
Lúcia, muito amiga de Marineide Leite foi quem fez o bolo. Arlindo foi o que mais comeu e, não cansava de elogiar Lúcia.
- Tuas mãos são mágicas, Dona Lúcia. Obrigado pelo prestígio de nos presentear com este bolo prestígio.
Voltando ao casamento, como citei, era simples porque o pai de Marineide, conhecido como Leitão era pobre e, a única coisa gorda que um pobre tem na vida é a sua simpatia. Entre os convidados do casório que acontecia numa chácara, estava Nena e seus oito filhos. Todos os amigos de Lúcia, a dona do bolo prestígio. Nena e seus filhos não gostaram muito desta festa não, porque faltou bolo. Arlindo Orlando não perdeu tempo.
Para quem não sabe, bolo com cerveja da um siricutico nas ideias que pelo amor de Deus. O estômago sobe, figurativamente pra cabeça, o fígado sensível amolece e faz o peão falar macio como um gay australiano e, aí, quem foi lá incomodar o silêncio de Lúcia, a criadora universal do legítimo bolo prestígio? Arlindo Orlando oras.
- Tuas mãos são mágicas, dona Lúcia. Obrigado pelo prestígio de nos presentear com este bolo prestígio.
Já repararam num dos dons excepcionais que tem um bêbado? Ele repete sempre as mesmas frases respeitando ponto, vírgula e tudo. Ele é capaz de ganhar no vocabulário até para um papagaio.
Marineide Leite podia até ter cara de besta, sambiquira, lunática, paranoica e retardada, porém, não era nada disso não. Ficou com tanto ciúmes de Lúcia, por causa do grude no pé do ouvido de Arlindo Orlando que a chamou num cantinho e disse-lhe:
- Lúcia, sou tua melhor amiga e espero que você entenda-me. Suma daqui imediatamente, porque estou ao ponto de cometer uma loucura.
Vixi! Lúcia que é contra a qualquer tipo de violência nem quis saber que loucura era aquela que sua amiga iria cometer. Sumiu dali rapidinha sem questionar nada, levando com ela, (é claro) Nena e seus oito filhos.
Quem não gostou nem um pouquinho disso foi Arlindo Orlando. Quis fazer justiça.
- Amor, quer dizer: ex-amor. Por que mandou embora tua melhor amiga? Ciúmes de você é outra história. Lembra-se do Roberto? Tudo bem. Eu posso ter essa cara de malandro sem vergonha, mas, eu não sou. Sou um trabalhador, amor. Tenho uma profissão que é fiel e relíquia consagrada. Sou um caminhoneiro.
E Marineide não dizia nada, apenas chorava e, Arlindo Orlando, furioso, continuava a falar:
- Só por que elogiei o bolo de sua amiga? Que tipo de mulher é você? Conhecemos-nos lá no Paraná, lembra? Lá no terminal do Guadalupe. Você era a minha mariposa apaixonada e, hoje, deixou de ser a minha esposa. Vou te falar em inglês que vai soar mais bonito: “bye, bye”.
Que tristeza, gente! Bem no dia do laço matrimonial foi acontecer aquilo! Arlindo Orlando foi embora com seu caminhão, deixando Marineide num estado horrível. A mulher chorava mais do que uma cabra na Etiópia. E ela não quis aceitar isso. Procurou igrejas, terreiros de macumba, mas, nada de Arlindo Orlando voltar.
Marineide recebeu uma ligação de Lúcia, sua melhor amiga que a aconselhou a escrever uma carta para um locutor famoso da rádio Atividade, em Minas Gerais. Não deu outra, meu! Marineide molhou até com lágrimas sua escrita e comoveu o locutor.
- A rádio Atividade leva até vocês mais um programa da séria série: Dedique uma canção a quem você ama. Eu tenho aqui em minhas mãos uma carta. Umas carta de uma ouvinte que nos escreve e assina com o singelo pseudônimo de mariposa apaixonada do Guadalupe. Ela nos conta que no dia que seria o dia do dia mais feliz de sua vida, Arlindo Orlando, seu noivo, um caminhoneiro conhecido na pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Oh! Arlindo Orlando volte onde quer que você se encontre. Volte para o seio de sua amada. Ela espera ver aquele caminhão voltando, de faróis baixos, e para-choque duro. Agora uma canção. Canta pra mim, eu não quero ver você triste assim.

A Dois Passos do Paraíso
Longe de casa
Há mais de uma semana
Milhas e milhas distante
Do meu amor
Será que ela está me esperando
Eu fico aqui sonhando
Voando alto perto do céu
Eu saio de noite andando sozinho
Eu vou entrando em qualquer barra
Eu faço meu caminho
O rádio toca uma canção
Que me faz lembrar você, eu
Eu fico louco de emoção
E já não sei o que vou fazer.
Estou a dois passos do paraíso
Não sei se vou voltar
Estou a dois passos do paraíso
Talvez eu fique, eu fique por lá
Estou a dois passos do paraíso
Não sei por que eu fui dizer bye bye
Bye bye, baby, bye bye...




Parabéns Evandro Mesquita e Ricardo Barreto por esta grande composição e música.


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UMA MULHER APAIXONADA





Meu nome é Wilma Lagoas. Amei como amam os deuses. Creio que não exista na face da terra alguém que amou mais do que eu e, pra falar a verdade que ainda ame, como eu amo.




Aparício foi o homem mais lindo que apareceu em minha vida. Qual a mulher que não daria carinho, atenção e muito amor para um homem como o meu Aparício? Só se fosse uma besta.
Posso afirmar categoricamente e, principalmente, religiosamente que, este homem sim era e continua sendo o meu pão da vida.
Éramos tão ingênuos! Brincávamos de esconde-esconde e, quando ele me achava gritava feito um retardado:
- Achei! Achei!
E quando era eu quem o achava, dizia:
- Vamos brincar de pega-pega.
Eu gostava de pegá-lo, mas, era um pegão daqueles bem caprichados, entendem? Ele ficava tão vermelho feito aquele tomate podre de final de feira .Como ele era tímido, meu Deus! Quando era ele quem me pegava, gritava feito um débil mental:

- Te peguei! Te peguei!


Aparício era uma aparição. O homem tinha uma luz que reluzia tudo. Carinhoso feito um piolho bailarino que adora dançar na cabeça coberta de cabelos. Aparício era o meu grude. Lambia até minhas feridas como faz todo cachorro.
Tenho guardado até hoje seus lindos poemas escritos em rolos de papel higiênico. Só que passaram-se muitos anos e estes rolos ficaram amarelinhos. Mas, meu Aparício continua cada vez mais lindo.















- Ha ha ha ha ha! - Ha ha ha ha ha! - Ha ha ha ha ha!


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O ESCORPIÃO

Estava brincando debaixo da mangueira, observando as grandes saúvas com imensos pedaços de folhas. Algumas mais fortes carregavam até uma folha inteira de laranjeira. De repente levei um susto: um grande escorpião vermelho parado junto a uma raíz, bem perto de onde eu estava. Dei um pulo desajeitadamente para o lado e quase caí, mas recuperei o fôlego e chamei Junior e Robson:

- Venham rápido! Encontrei um escorpião!
Vieram correndo curiosos. Junior já foi gritando:


- Não deixe ele escapar. Vamos fazer umas experiências!

Escorpião sempre me meteu medo. Ouvia atentamente aquelas histórias escabrosas de que um escorpião podia matar até um homem, que sua picada era das mais doloridas do mundo e era o único bicho que se suicidava. Além disso, havia o mistério, pois eu nunca via um escorpião passeando por aí, como as formigas e abelhas, que também picavam dolorido, mas não eram criaturas capazes de matar ninguém.

A adrenalina corria solta. Seu tom amarelo avermelhado e aquela cauda ameaçadora com um grande ferrão em forma de gancho na ponta nos davam arrepios, mas nosso interesse em observar esse bicho misterioso mais de perto superava nosso medo. Fui logo pegar um pote de vidro para aprisioná-lo.

- Vai logo senão ele foge – Gritou Junior.

Robson que era mais destemido começou a cercá-lo com o vidro e parecia não se preocupar com uma possível picada do bicho. Também, pra quem já deixou de propósito a mão num formigueiro, daquelas vermelhinhas que picam pra valer, vários minutos só pra ver quanto tempo agüentava, um escorpião era moleza. Mas estávamos a quilômetros da cidade, então gritei:

- Cuidado! Se ele picar, já era!

Robson concentrado, nem me ouviu. Não demorou um minuto e a fera já estava dominada, dentro do vidro.

Não cabia em mim de tanta ansiedade. Dava pulos querendo ver de perto.

- Deixa eu ver! Deixa eu ver! – Gritava.

- Calma! Vamos com calma senão ele foge! – disse Robson.

- Vamos levar lá pra dentro. – Ordenou Junior.

Atravessamos o terreiro nos fundos da casa, subimos depressa a escadinha que dava pra cozinha e colocamos o vidro bem no centro da mesa, na sala. Por alguns momentos ficamos ali, nós três embasbacados olhando para o bichinho que agora parecia indefeso, mas ainda assustava quando erguia as patas dianteiras tentando escapar o vidro.

- O que será que ele come? – perguntou Junior.

- Sei lá. Vamos por alguma coisa aí dentro.

E catávamos entusiasmados tudo o que se podia imaginar. Resto de arroz, casca de pão e pedacinhos de folhas. Nada. Até que tive uma ideia:

- Vamos colocar uma saúva!

- Boa! – Robson exclamou

E lá fomos, eu e Junior, capturar uma saúva enquanto Robson tomava conta do vidro, observando em silêncio com a mão no queixo, como era de seu costume. Tivemos o cuidado de escolher uma formiga bem sarada, com aquele cabeção vermelho que botava medo. Seria uma briga boa e novamente corremos para dentro entusiasmados.

Quando chegamos, surpresa; Robson colocara o escorpião pra fora do vidro em cima da mesa e tinha um litro de álcool na mão. Ele disse:

- Vamos ver se ele se suicida mesmo.

- Primeiro vamos colocar a saúva perto, senão já era. – replicou Junior.

Com a formiga na ponta de um graveto e com um medo danado, Junior tentava soltar a saúva em cima da mesa, se esquivando ao menor movimento do escorpião. Quando a formiga se soltou, foi outro tanto de tempo pra apresentar um ao outro. Que coisa! Parecia que não se enxergavam. Finalmente a grande formiga foi na direção do escorpião e este meteu o ferrão na cabeça dela. Coisas da natureza, mas ou o escorpião estava sem veneno naquele dia ou a saúva é imune ao veneno do escorpião, pois a bichinha saiu andando como se nada tivesse acontecido. Dizem que um escorpião mata uma pessoa... Será?

A ansiedade para assistirmos ao suicídio era grande e logo esquecemos a saúva. Robson despejou álcool em círculo de modo que o escorpião ficasse bem no centro e ateou fogo. O bicho ficou parado um tempo, depois andou de um lado pro outro e nada de ferroar a própria cabeça como eu sempre ouvi dizer que ele faria.

A noite caía rápido no sítio e já cansados de observar o escorpião, resolvemos deixar a brincadeira para o dia seguinte, na terra, com lagartixas ou minhocas. Naquela velha casa a luz elétrica ainda não tinha chegado e por isso dormíamos bem cedo. Fomos comer alguma coisa enquanto ainda havia um restinho da luz do dia na cozinha e quando demos conta a noite já havia despencado sobre nós. 

Fechamos portas e janelas, acendemos uma vela e fomos para a sala, apreciar nossa criatura. Robson pingou a parafina derretida sobre a mesa e tentou fixar a vela próximo ao vidro quando de repente a vela caiu e se apagou. Que desastre! Tateando para encontrar a vela, Robson esbarrou no vidro e bleft! O vidro se espatifou no chão.

Nós três, descalços, na escuridão total, ficamos mudos. E agora?

- Cuidado! Devagar! – Sussurrou Junior, como se o escorpião pudesse escutar.

Robson ficou calado e eu nem se quisesse conseguiria falar. Imaginei a cara de Robson no escuro, com um meio sorriso nos lábios e gostando da situação. Fomos nos esgueirando pela parede, tateando vagarosamente até atingir a porta do quarto onde nos jogamos de uma só vez sobre a cama. 

- Cadê o fósforo?

- Ficou em cima da mesa.

E quem era bobo de ir pegar?

Será que ele viria se vingar, nos ferroando enquanto dormíamos? Ficamos em silêncio total, tremendo de medo, tentando escutar o caminhar do aracnídeo até que pegamos num sono nervoso e suado.

No outro dia a vela jazia apagada ao lado do vidro quebrado que serviu de cárcere ao escorpião. Ele nunca mais apareceu por ali. Deve ter fugido com medo desse bando de doidos.


Texto de Fernando Gomes Gonçalves



GALO PODÓLATRA


PODÓLATRA

Podolatria é um tipo particular de parafilia que tem desejo de pés. Em Portugal e no Brasil, um fetichista de pés é normalmente reconhecido pela expressão podólatra. ...


A natureza, sem dúvida, é fantástica. Ela nos surpreende de tal forma que é impossível não admirá-la.
Rufino era um galo diferente dos outros galos. Tinha muito bom gosto. Seu fetiche chegou num ponto que ele ficou vesgo. Eu explico. Adorava demais um pé de galinha. Sim, o galo Rufino era podólatra. Era passar uma galinha por perto dele e, pronto: ela teria que correr porque, se não, Rufino a atacava.
Coitado do galo Rufino! Acordava cedo como todos os galos, mas, numa depressão de nenê que dava pena. Já não cantava mais como antes, aliás, nem cantava. Ele chorava porque sabia que o amor de sua vida seria impossível. Sofria calado e desejava ter dor de dente como outros bichos para ter com o que se preocupar.
Quando o galo Rufino dava uma volta no terreiro, as galinhas, em especial as donzelas, corriam dele. Ele estava de olho esquerdo nuns pés e de olho direito em outros pés. Ele achava inútil ter aquela crista sobre a cabeça. Pra que aquela coisa se as galinhas não os respeitavam mais? Pra aquelas asas pesadas se jamais poderia voar? E pra que aquele bico se não podia beliscar maravilhas gêmeas que, para ele, eram os pés de galinhas?


Quando Rufino via pela fresta da porta, sua dona comendo prazerosamente pés de galinha pensava: “Ela tem bom gosto”.


Certo dia, logo pela manhã, o galo Rufino ficou furioso quando viu de longe, uma de suas galinhas fazendo gracinhas para um pinto, um de seus filhos. O que?! Isso é pedofilia. Pensou. A galinha velha beliscava os pés do pintinho, seu filhinho que já estava entrando na adolescência, na fase de frango. O galo Rufino deu uma surra na galinha velha e no pinto frango. Ele não quis entender que a galinha velha apenas tirava os bichinhos de pé com seu bico do seu filhinho.



Coitadinho do pintinho, gente! O que é que um galo ciumento não é capaz de fazer por amor a uma galinha, hein?




Rufino estava apaixonado demais por uma galinha e, antes de ir pra panela (porque galo que não canta, vai pra panela mesmo) resolveu realizar sua fantasia sexual.
 Daria umas beliscadas nas maravilhas gêmeas, nos pés de Geni, sua dona, que era o grande amor da sua vida.
Pois é, daria, mas, não deu. Geni o pegou pelo pescoço e deu fim no coitado. Que triste sina deste galo, gente! Que final cruel!



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sábado, 5 de abril de 2014

GENTE IMPORTANTE



Estive no meio de muita gente importante. Gente da classe média, da classe alta e, a sensação de sentir-me pequeno foi a pior coisa que conheci em minha vida. Na regra geral, todos me olhavam feio e, isto inclui até mesmo as crianças. Minha presença incomodava a todos daquele finíssimo restaurante da cidade de São Paulo e, fui convidado por um dos garçons a me retirar de lá.
- Retire-se, senhor.
- Por quê?
- Porque este não é um lugar para o senhor.
Eu tinha dinheiro guardado no bolso, mas, o garçom não quis me servir e, nem sequer me ouvir. Preferi não discutir com ele e, de cabeça baixa, saí daquele restaurante. Não sou fumante e também não bebo bebida alcoólica, porém, transpiro muito e meu suor estava insuportável. Entendi que aquele lugar devido o estado em que eu estava, realmente não era um lugar adequado para mim. Sem contar que também não estava bem trajado.
Entrei numa drogaria e perfumaria e, minha intenção era comprar um sabonete, um desodorante, depois pegar um hotel, tomar um banho e, no dia seguinte, seguiria para o meu destino. Osso não aconteceu. Fui barrado por um segurança, dizendo-me que tentei furtar alguns produtos e, minutos depois chega a polícia. Fui muito humilhado. Fui preso. Fiquei tranqüilo por não dever nada e, na delegacia, eu seria liberado após conversar com o delegado. Isso não aconteceu. O delegado titular estava ausente e, só retornaria na semana seguinte. Fui muito mais humilhado quando exigi os meus direitos. Queria simplesmente dar um telefonema e falar com o meu advogado, porém, não me deram esse direito. Divertiram-se comigo, depois me jogaram numa cela de bandidos de todos os tipos e, não preciso contar em detalhes o que me aconteceu naquele inferno por sete dias. Eu só queria entender Deus (que é o grande juiz) naquela hora.
O delegado titular voltou ao ofício e quis falar comigo.
- Sr. Juarez, mas, não consigo entender o porquê de estar aqui. Meritíssimo, o senhor é um juiz e...
Eu simplesmente olhei para aquele delegado com fúria em meus olhos e disse:
- Me de agora o seu celular que tenho duas ligações a fazer.
- Sim, é claro, meritíssimo.
Falei em italiano nas duas ligações e ele não entendeu nada. Depois, era a minha vez de fazer perguntas.
- Por que esteve ausente desta delegacia?
O delegado suava muito e enxugava seu suor com um lenço.
- A cachorrinha de estimação da minha filha adoeceu, meritíssimo e, tive que levá-la para os Estados Unidos, onde existem os melhores veterinários do mundo. Mesmo assim, lamentavelmente, ela morreu.
- Na sua ausência deveria ter um delegado substituto aqui.
- Achei que não seria necessário, senhor.
- Faz idéia de quanto fui humilhado?
Ele baixa a cabeça e não me diz nada.
Quarenta minutos depois daquela ligação que fiz, chegaram os meus homens. Um deles, também juiz de direito como eu e os outros três corregedores da polícia civil. Dei ordem para fechar aquela delegacia e prender aqueles quatro policiais que me prenderam na mesma cela onde fui humilhado.
- Ajoelhe-se e reze delegado, para que Deus tenha piedade de sua alma e também da cachorrinha da sua filha.
Tirei a vida daquele homem. Não era mesmo um bom delegado. Fui até a cela onde estavam os bandidos e os policiais encarcerados, olhei para cada um deles e disse:
- Matá-los sei que é muito pouco pelo que me fizeram, porém, vão morrer, é claro. Vou explodi-los.
Era comovente ouvir seus gritos de socorro. Não queriam morrer, como ninguém quer. Joguei uma bomba dentro daquela cela e todos tiveram uma morte horrível.
Eu e meus homens fomos para aquela drogaria e perfumaria e, prendemos aquele segurança que me abordou. Tirei a vida daquele homem no alto da serra. Não era mesmo um bom segurança. Depois fomos para aquele finíssimo restaurante e, prendemos aquele garçom que me humilhou. Este eu deixei vivo, porém, da pior forma. Nunca mais estará apto para qualquer tipo de serviço, principalmente o de servir. Seus braços e pernas foram mutilados.


Importa muito na vida e para a vida,quem realmente somos.

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