terça-feira, 29 de janeiro de 2013

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O DONO DO MUNDO



Há certas coisas no mundo que é melhor nem falar muito, viu sô? Existe de tudo e, isso surpreende até os pernilongos que detestam luzes acesas e não voam tão alto como os urubus.
Dólar Euro Real surgiu, (sabe-se lá de onde), na grande capital de São Paulo, na companhia de seu único filhinho Dólarinho, um pentelho tão chato quanto aquele parasita do escroto.
- Papai, compra aquele prédio pra mim?
- O que é que você vai fazer com aquele predinho de cinquenta andares, meu filho?
- Brincar com meus amiguinhos.

E Dólar Euro Real, localiza o dono daquele prédio e é direto:
- Quero comprar o seu prédio.
Pereira, o dono do prédio diz arrogante:
- Meu prédio não está à venda.
- Não importa. Mesmo assim, eu quero comprar.
- Ah é? São dois milhões de dólares. Vai querer?
Dólar Euro Real sorri.
- Falou com o homem certo. Pagarei quatro milhões de dólares por ele, porém, desapareça para sempre da minha vida, pois, até teu caixão eu já comprei.
Vixi! Não é que aquele sujeito comprou o prédio de Pereira, mesmo, sô? Ficou lá, abandonado.
Dólar Euro Real e seu filhinho entram num restaurante finíssimo e se fartam de tanto comer. Arrotam e peidam, até que, chega um dos garçons.
- Senhor, por gentileza, não pode arrotar e peidar aqui.
Dólar Euro Real diz, arrogante.
- Despedido, geleia de ventre. Eu comprei esse restaurante, portanto, ele é meu.
Vixi! O que é isso? Dólar Euro Real tinha comprado mesmo aquele restaurante, sô!
Dólar Euro Real e seu filhinho passeavam por um parque da grande São Paulo, quando, de repente, o pentelhinho o surpreende:
- Papai, compra aquele molequinho pra mim?
- Que diabos você vai fazer com um molequinho tão feio daquele, meu filho?
- Eu quero enche-lo de porrada, porque não fui com a cara dele.
- Tudo bem. Vou falar com o pai dele.
E o pai daquele molequinho fica muito zangado, é claro:
- O senhor está louco? Jamais venderei meu filho! Isso é pecado.
- Pecado é o senhor recusar cem milhões de dólares pra ficar com esse grude na vida.
O pai daquele molequinho arregala os olhos.
- Cem milhões de dólares?!
- É pegar ou largar.
- Eu pego.
E por cem milhões de dólares, aquele pai desnaturado vende seu filho. Numa das mansões de Dólar Euro Real, aquele molequinho comprado apanhou tanto do pentelhinho, sô! Deu até pena, viu? Depois, o pentelhinho enjoou dele e deu-lhe um pontapé do traseiro, mandando-o embora.
O hobby de Dólar Euro Real era comprar tudo: até mesmo o que não era interessante ele comprava. Comprou até as meias usadas que nunca foram lavadas do falecido mega star Michael Jackson; o cuecão de Elvis; a receita e o bolo prestígio de Lúcia; o Diário do Nenê, relíquia que era guardada a sete chaves por Wilma, a irmã do Nenê, enfim, o homem comprava tudo. Era amanhecer o dia e ele e seu filhinho saía pela cidade à procura de vendedores, que ficavam felicíssimos, é claro.
Certo dia, o trilionário Dólar Euro Real e seu filhinho Dólarinho foram fazer um passeio no sertão do Piauí. Vixi! O pentelhinho não gostou daquele lugar não, sô!
- Papai, que fedor nos ares é esse? Parece até que cagaram no mundo.
- É o cheiro da pobreza, meu filho. Comprarei todo este sertão e bilhões de barris d’água e vou fazer chover aqui feito o dilúvio que afogou o boi que só pensava em vaca. Vou dar um banho nesses flagelados e limpar toda esta carniça. Farei este sertão virar mar. Você vai ver o que é que o meu dinheiro não é capaz de fazer.
E Dólar Euro Real comprou aquele sertão do governador do Piauí, que por sinal, ficou muito feliz. E bem no centro daquele sertão, Dólar Euro Real mandou construir um piscinão de cinco mil metros e mandou encher de água. Vinham barris d’água até da Coréia, Japão e China. Tinha água pra beber, pra bebê, velho, branco, negro, ruivo e louro; pra lavar os pés, as bolas do saco e, isso deixou a sertanejada muito feliz, é claro.
Dólar Euro Real mandou plantar árvores artificiais pra darem sombra pros coitados. O sol desistiu de bater lá porque a sertanejada já não mais chorava. Eta, sol malvado da peste! Agora era só alegria. O sertão foi batizado com o nome de: “O Paraíso das Sombras”.
Sucedeu que, um dia, Dólarinho ficou muito doente. Comeu um casal de grilos vivos e bagunçou tudo por dentro da barriga do moleque. E ele pulava, gemia e peidava e, seu pai muito preocupado o levou para o melhor médico do mundo, tal de Dr. Pereba. Nada feito. Dólarinho contraíra uma doença incurável. O pai do moleque não queria aceitar.  Comprou o maior hospital do mundo: o Baragwanath, em Soweto, África do Sul e contratou médicos do mundo inteiro, porém, não teve jeito não, sô! Seu filhinho morreu no colo do pai.
Dólar Euro Real ficou tão desgostoso da vida que pegou todo o seu dinheiro e deu pras avestruzes brincarem. Elas comeram tudo. Mas, Dólar Euro Real ainda tinha impérios, castelos e também o cuecão de Elvis. Ele deixou tudo aí pra quem quiser. É pegar ou largar. Quer pegar? Sem seu único filhinho ele não conseguiria viver. Subiu no pico da torre Eiffel de Paris( não se sabe como ele conseguiu fazer isso) e, pulou com destino a morte. Coitado, sô! Pena que o dinheiro não compra a vida, não é?

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

IRONIA DO DESTINO (TEXTO DE VICENTE GONÇALVES)


Esta é uma história baseada em fatos reais. Dedico estas poucas páginas da minha vida a todos aqueles que têm espírito metódico; que estão atentos aos detalhes; que procuram conhecer minuciosamente a verdade; que, só ela, consiste em rejeitar todos os conhecimentos já adquiridos que não tenham fundamento racional.
A vida surpreende a todos com bons ou maus acontecimentos. Surpreendeu a mim também. Casei-me muito jovem, sem quaisquer preparos filosóficos. Talvez, fiz isso por acaso, por aventura; ostentando um subterfúgio desta vida que é tão complexa. Sei lá.
Nos anos 90, já era pai de quatro filhos e casado com uma mulher que nunca amei. Morávamos em Joinville, Santa Catarina. Nesta época, conheci Glair Bender, a pessoa mais importante da minha vida. Então, descobri o que era ter e como era fazer um amor de verdade. Eu tinha a meu lado, muito mais do que uma mulher: Uma amiga, uma companheira que compartilhava bons e maus momentos comigo. Ela não se importava se eu era bem ou não sucedido na vida. Desde nosso primeiro encontro, em Curitiba, capital do Paraná, não a enganei. Disse-lhe que era casado, mas, que não amava minha mulher. Glair não queria fazer o papel de amante a meu lado e, logo depois, retornei a Joinville, para resolver este quadro. Minha mulher não quis me dar o divórcio. Voltei para os braços de Glair. Sim, esta mulher, importava-se com meus sentimentos; enxugou muitas lágrimas dos meus olhos quando me via chorar pelos meus filhos. Glair sempre me surpreendia; conseguia me persuadir, me aliciar como nenhuma outra. Ela abandonou sua carreira de aero moça, preferindo perambular pelo mundo a fora comigo. Não a obriguei a fazer isso. Fomos a São Paulo, depois para o Rio Grande do Sul em busca de trabalho e moradia. Em Gramado, na serra gaúcha, morávamos na grande casa de Dona Uma (uma católica fanática). Por sinal, era uma casa muito bonita. Só que vivíamos de favor e, estava sendo difícil arrumar nossa vida. Foi quando Glair me deu a notícia de que estava grávida. Fiquei atônito de vez. Seríamos responsáveis por uma vida que estava prestes a vir ao mundo. Minha irmã mais velha me ligou de São Paulo e, muito feliz, fui até seu apartamento, na esperança de arrumar um cantinho para mim, Glair e a menina que ia nascer. Dias depois, Glair também veio a São Paulo.
O senhor Luiz, pai de Glair investiu um bom dinheiro em nossa união. Até então, morávamos numa república no bairro de Pinheiros, em São Paulo, porém, não durou muito tempo. Saímos de lá porque não tínhamos sequer, privacidade. Chegamos a Araraquara, interior de São Paulo e, ali, começava uma nova história. Alugamos uma casinha e éramos felizes sim, porque, talvez, Glair não se lembre por não querer lembrar-se dos bons momentos que ali passamos. Ela foi à grávida mais linda que eu já vi em toda a minha vida.
Eu era dominador, mandão, mas, tinha o meu lado dócil também. Quando eu acordava pela manhã e não via Glair a meu lado, fica “p” da vida, mas, quando via melhor, tinha um bilhetinho dela:
“Bom dia, meu homem! Esta noite você foi maravilhoso como sempre. Amo-te e sempre vou te amar. Fui buscar uns pãezinhos quentes pra gente”.
Quem duvidar, eu tenho este bilhete até hoje. Que mulher extraordinária foi Glair em minha vida!
Nem tudo era maravilha em nossa vida, é claro. Vivíamos numa dependência, numa opressão das piores por falta de dinheiro. No dia 14 de fevereiro, passei um drama na maternidade em que minha filha nasceu. Nunca mais ei de esquecer: uma mulher gritava de altas dores e aquilo me deixou completamente comovido. A chefa das enfermeiras me chama numa sala e me diz:
- Não é a sua esposa, senhor. Caso queira que ela dê a luz sem tanto sofrimento, estamos solicitando uma verba. Sabe como é, né? O governo nos paga muito pouco e, calma! Não é muita coisa.
O valor era alto e eu, jamais poderia pagar. Certo compositor escreveu que ás vezes, uma mentira ajuda um homem a crescer. Posso afirmar que cresci naquele momento.
- Sim, eu pago. Quero que o parto da minha mulher seja sem sofrimento, por favor.
- Mas, o senhor tem que assinar este papel.
Simulei um mal estar; dramatizei legal como um bom ator e consegui enganar aquela equipe de estelionatários.  Fui ao banheiro e, quando voltei, recebi a notícia de que minha Glair passava bem ao lado de minha Fernanda, um nome que eu escolhi. Eu, tomado por um sentimento assim bem sagaz, ardiloso, disse a chefe das enfermeiras:
- Só vou assinar o papel na presença do meu advogado, pode ser?
O que?! Que advogado, que nada! Ofereceram-me até um cafezinho e pediram-me para esquecer aquilo. Achei melhor deixar quieto e não denunciá-los.
No decorrer dos dias, semanas e meses, nos virávamos para sustentar a casa. Foi tudo muito difícil. Reconheço que o pai de Glair nos ajudou muito, mas, tudo finda um dia. A única filha que eu troquei fraldas dei banho, papá foi Fernanda. Glair trabalhava como empregada doméstica e eu ficava cuidando da minha princesinha. Meses depois, ela foi para a creche e, tudo parecia que ia bem. Os pais de Glair queriam conhecer a netinha e, daí começou nosso drama. Levei Glair e Fernanda para a capital e de lá, elas viajaram para a cidade de Criciúmal, interior do Rio Grande do Sul. Fernanda fez o maior escândalo em meu colo. Não queria sair dele não. Eu acho que esta princesinha já sabia que, o destino daquela viagem, iria nos separar para sempre. Combinei com Glair:
- Tudo bem, a gente se encontra em Dourados, no Mato Grosso.
- Amor, não vai me deixar lá naquele fim de mundo, no Rio Grande, hein!
Voltei para Araraquara e, de cara fui cobrado por Dona Marisa, uma agiota. Ela queria receber e, como eu precisava desocupar a casa, foi um problema. Não tinha nada de valor naqueles móveis usados, com exceção ao sofá que saiu o preço de um novo para reforma-lo. É claro que eu vendi. Glair e Fernanda não voltariam mais para lá. Escrevi a primeira carta, (Rua Costa e Silva, número 505, se não me falha a memória); não tive resposta. Escrevi a segunda carta, depois a terceira e não tive resposta. Liguei para Glair várias e várias vezes e, seus pais diziam-me que ela estava bem, já vivendo com outro homem e, para eu tomar vergonha na cara e ir atrás dos filhos que eu abandonei. Ameaçaram com polícia e tudo. Chorei muito, mas, muito mesmo por isso. A história que minha filha Fernanda queria saber é esta, só que a outra parte da história, Glair não sabe até hoje, a não ser que olhe profundamente em meus olhos e ouça-me, porque, esta história não deixarei em papel. Não posso acusar ninguém. Onde foram parar estas três cartas que escrevi? Glair, afinal, estava ou não com outro homem em sua vida? O que mais eu poderia fazer? Esta verdade eu vou levar ao túmulo e, talvez, um dia, os autores desta parafernalha que virou a minha vida, reconheçam que erraram muito mais na vida do que eu. Quero que saibam que, até hoje, eu não tenho o amor de nenhum dos meus filhos. Já sofri e chorei muito por isso. Basta, agora.



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

AMOR LIMITADO



Era uma vez uma menina bonita que queria ser cantora. Este era o seu maior sonho, porém, seus pais não a incentivavam, muito pelo contrário, diziam para ela desistir deste sonho.
Fernanda, a menininha sonhadora, tinha apenas sete anos, mas, era dotada de uma inteligência excepcional.
- Papai, leve-me num programa de calouros infantis. Eu tenho certeza de que vou ganhar.
Victor, seu pai, sempre de mau humor diz:
- Você não pode ter a certeza de nada. Nem cantar você sabe, pirralha.
- Credo papai! Obrigado pelo incentivo. Se eu ainda não sei cantar, pretendo aprender, pois, afinal, ninguém nasceu sabendo e este é o meu sonho.
Seu pai a ignora como das outras vezes:
- Desista. Você ainda é uma criança. Tem muito a aprender na vida.
Fernanda adorava ajudar sua mãe Gláucia nos afazeres domésticos. Certo dia, Fernanda arrumava o quarto de seus pais e, depois de arrumado, chamou sua mãe para dar uma olhada.
- Minha filha, você esqueceu-se de colocar as fronhas nos travesseiros.
Fernanda fica muito sentida:
- Que belo elogio, mamãe! Já observou sua penteadeira como estava antes e como está agora? Os espelhos do guarda-roupas antes estavam cheios de pó e, agora, como estão?
Sua mãe a ignora:
- Tudo bem, Fernanda. Tenho mais o que fazer agora.
Outro dia, Fernanda aborda seu pai que lia um jornal na sala:
- Papai! É importante.
Seu pai lhe responde severo:
- Agora não! Poupe-me pirralha! Não está vendo que estou lendo jornal? Vem você de novo com essa história de programa de calouros infantis?
- Não papai! É que o teu cigarro está fazendo o maior estrago no sofá.
Vixi! Já era tarde. A matéria que Victor lia no jornal devia estar muito interessante, pois, ele sem perceber deixou seu cigarro cair no lindo sofá que se danificou e feio pelo fogo.
- Caramba! Por que você não foi direta, sua incompetente?
Pois é, parece que Victor e Gláucia não mimavam nenhum um pouco a pequena e doce Fernanda. Não tinham tempo para ela.
Num domingo, Victor assava um churrasco na área de sua casa em companhia de Gláucia e alguns amigos e, coincidentemente, era o aniversário da pequena Fernanda que completava oito anos. Sim, era o dia do seu aniversário e, infelizmente, seus pais não se lembraram disso.
A pequena Fernanda não estava mais suportando tantas falações altas, músicas barulhentas, cheiro de maconha e bebida, enfim, não tinha sequer uma amiguinha para brincar com ela e preferiu ir para o seu quarto. Um dos indivíduos, colega de seus pais, invade o quarto da pequena e a beija a força. Fernanda consegue escapar das mãos daquele bêbado e drogado e vai queixar-se aos seus pais. Nelson, o pedófilo tarado e drogado faz um discurso tão grande que consegue comover Victor e Gláucia que punem a pequena Fernanda deixando-a de castigo em seu quarto. Só saiu de lá, na segunda-feira de manhã para ir à escola.
“Será que vocês crianças, já passaram por algo semelhante? Nem todos os homens são bons e, isso, lamentavelmente pode incluir até mesmo seu pai ou padrasto, tio ou qualquer membro da família. Não se calem. Abram sempre suas bocas e desabafem quando sentirem a presença do perigo”.
Lívia, a professora da pequena Fernanda, notou que a última estava muito deprimida.
- Fernanda, podemos conversar um pouquinho no final da aula?
Nossa! Era tudo o que Fernanda queria. Alguém que lhe desse atenção.
- Claro, professora.
Lívia liga para a mãe de Fernanda e pede sua permissão para deixar a pequena almoçar com ela. Gláucia autoriza. Que bom!
Na casa da Professora Lívia, Fernanda desabafa e chora muito. Fala de seus sonhos e do drama que vem sofrendo em casa.
- Você ama seus pais, Fernanda?
- Eu não tenho certeza. Parece até que eles nem notam que eu existo.
A vida realmente, nos surpreende a cada instante. A Professora Lívia contratou um bom advogado, foi até o Conselho Tutelar e, não foi difícil: ganhou a guarda da pequena Fernanda, já que ela não tinha avós maternos e paternos, o que facilitou para tal adoção.
Victor e Gláucia foram autuados em flagrante pela polícia. Eles traficavam drogas e foi encontradas grande quantidade na casa em que moravam.
Hoje, legalmente, Fernanda é a filha da Professora Lívia que a adotou. Investiu em seus sonhos, a matriculou numa excelente escola de artes e a pequena teve várias aulas de canto. Fernanda já gravou um CD, que por sinal, está explodindo nas paradas do sucesso.
Dê amor a seus filhos que, não pediram para vir ao mundo. Incentive-os. Acreditem em seus sonhos, pois, se aqui estão, neste mundo tão absurdo e complexo, não estão por acaso. Respeitem a vida, pois, ela é única.


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domingo, 20 de janeiro de 2013

FÉ CEGA



A fé, sem dúvida, é um dos maiores dons divinos que um homem pode ter no decorrer de sua vida. Sem ela, é impossível agradar a Deus que, é o Criador e o Autor da vida.
Clemente era um homem muito religioso e temente a Deus. Podia-se dizer que este homem era bem sucedido materialmente e também espiritualmente na vida. Excelente pai de família. Casado com Ruth, uma linda mulher, com quem tinha três filhas: Cátia, Cássia e Camila. Todas, muito bonitas.
Clemente e sua família moravam numa grande casa da fazenda, na cidade de Araras, interior de São Paulo, cerca de 170 km distantes da capital. A família servia a Deus numa humilde igreja evangélica localizada no interior daquela fazenda.
Numa noite de fervoroso culto pentecostal, a casa de Clemente foi invadida por quatro bandidos de alta periculosidade. Os marginais violentaram Madalena, (a empregada) e, pior do que isso: além de matá-la, incendiaram toda aquela bela casa. O fogo destruiu relíquias guardadas pela família, que, sem dúvida, ficou muito triste. Naquela noite, Clemente e sua família pousaram na casa de um dos empregados. Mesmo com um coração abalado e triste, Clemente, pacificamente, diz a sua mulher e filhos:
- Devemos dar graças a Deus por estarmos no culto na hora desta tragédia. Madalena, nem sequer cria em Deus. Onde estará ela agora, que partiu sem Jesus?
O prejuízo foi grande para Clemente. Os bandidos levaram cerca de dois milhões de dólares, que era tudo o que ele tinha guardado; muitas jóias e objetos de valor, sem contar com a vida de Madalena.
Alguns meses depois dessa tragédia, logo pela manhã de um domingo, um velhinho franzino, de terno e gravata, bate palmas na porteira da fazenda e, Clemente, de longe, acena com a mão e pede para o velhinho entrar.
- Fui enviado por Deus para lhe ajudar, irmão Clemente.
Clemente, movido por um espírito de muita fé, abraça aquele velhinho.
- Eu pedi a Deus que me enviasse um dos seus anjos. Qual é o seu nome?
- João Ferreira Bigulinho, porém, nomes não importam. Hospede-me em sua bela casa nova e vamos aguardar o que Deus tem para nos revelar.
Clemente hospeda aquele velhinho num dos melhores quartos da casa. Passam dias, semanas e meses e, nada mais foram falados de revelação divina de Deus. O velhinho comia do bom e do melhor, passava as madrugadas assistindo televisão em seu quarto e, pior do que isso: era muito exigente. Chamava a atenção de Raimunda, a nova empregada, quase sempre:
- Você deixou o saleiro cair no feijão, sua incompetente?
O velhinho interferia também na vida das filhas de Clemente:
- Vocês precisam fazer coisas úteis na vida. Por exemplo: toda a mulher que se preza, sabe fazer um delicioso bolo prestígio de Lúcia. Vocês não sabem e, por via disso, perderão as bênçãos de Deus, suas inúteis.
As mocinhas, muito tementes a Deus e, também ingênuas, entram em contato com Lúcia, via internet e, fazem um delicioso bolo prestígio e presenteiam para o velhinho que come tudo e, ainda debocha:
- Lúcia faria melhor.
No passar dos dias, quem era agora o pastor geral presidente daquela humilde igrejinha era o velhinho. Pensem num homem rígido. Numa pregação em que o tópico era “Oferta a Deus”, o velhinho recolheu pelo menos uns setenta aparelhos de celulares dos fiéis.
- Vocês têm que aprender que, para Deus temos que dar o melhor. O que é que vocês vão querer com esses monstrinhos eletrônicos? Vocês vivem na roça. Doarei a quem realmente precisa. Deixem comigo.
Numa noite, a família de Clemente se preparava para ir à igreja, quando Camila, a mais nova das filhas se queixa de muita dor de cabeça. A menina de apenas quatorze anos estava queimando de febre. O velhinho se aproxima de Clemente e diz:
- Hoje, quem vai dirigir o culto é você, entendestes? Cuidarei de sua filha.
Clemente, sua esposa Ruth e as filhas Cátia e Cássia vão para a igreja, deixando Camila aos cuidados do velhinho. Vixi! Que cuidados eram aqueles? O velhinho senta no pé da cama da menina e começa a massagear seus pés, coxas e pernas.
- Sua febre vai passar, docinho.
Camila não gosta nenhum um pouco daquilo.
- Eu preciso tomar um remédio.
- Que remédio, chuchu? Teu remédio é o velhinho aqui.
O velhinho beija Camila a força e, pior do que isso: abusa dela sexualmente e ainda faz ameaças:
- Se contares do que houve aqui para qualquer pessoa, te levarei ao inferno, porque eu tenho poderes para isso.
Na sequência, ele faz um chá de limão para Camila que não parava de chorar, devido aquele cruel abuso. Três horas depois, Clemente, sua mulher e filhas chegam a casa e nada desconfiam. Camila dormia em seu quarto e o velhinho de cueca, assistia televisão na sala, numa folga total.
- Demoraram para chegar, irmandade. Vão ter que se virar com a comida, pois, o que sobrou, o velhinho comeu tudo.
Clemente era pacifico demais, gente! O homem tinha tanta fé que ficara cego. Não conseguia enxergar que aquele velhinho não passava de um bandido e, pior do que isso: sua esposa e filhas, com exceção de Camila, também.
Clemente sofre um derrame e fica inválido em cima de uma cadeira de rodas, mas, ainda consegue mover-se com dificuldade. O velhinho pede que ele assine alguns papéis em branco, dizendo que tais assinaturas garantiriam sua melhora num dos melhores hospitais do Brasil. O que?! Tudo mentira. Sem perceber, Clemente passa todos os seus bens para aquele bandido.
Na calada da madrugada, Clemente deitado em sua cama, ouve uns gemidos e sussurros e, com dificuldades se levanta e senta em sua cadeira de rodas e se desloca. Os gemidos e sussurros vinham do quarto do velhinho que mantinha relações sexuais com Ruth. A cena foi muito forte para Clemente, que não resistiu: teve um segundo derrame e morreu na hora.
João Ferreira Bigulinho era um velhinho muito esperto. Há tempos, ele vinha seduzindo a bela Ruth. Todos os bens do falecido Clemente agora pertenciam a ele. Friamente, ele expulsa de sua fazenda, Ruth e suas filhas Cátia, Cássia e Camila, que ficara grávida.
Religiosamente, o falecido Clemente achava que aquele velhinho era enviado por Deus para lhe ajudar. Clemente dava graças a Deus por tudo, porém, uma pergunta: “Será que Deus, dotado de sabedoria esplêndida, deixaria confusos seus verdadeiros adoradores?” Creio que não. Seitas, preceitos e doutrinas religiosos estão por todas as partes do mundo.Na regra geral, manipulam as mentes humanas a servirem e adorarem um Deus que pune e castiga. Isso é heresia. Deus é amor e se importa com aqueles que realmente lhes adoram em espírito e em verdade. Cuidado com os lobos devoradores.


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